Os 7 Sacramentos — Iniciação Cristã: Batismo, Eucaristia e Crisma
O que é um sacramento; os três que fazem o cristão: nascer, alimentar-se e ser fortalecido.
Milão. Noite de 24 para 25 de abril do ano 387.
A vigília já dura horas: leituras do Gênesis, do Êxodo, dos profetas, salmos cantados no escuro. Num batistério octogonal ao lado da basílica — oito lados, porque o oitavo dia é o da Ressurreição —, um grupo de adultos espera seminu, tremendo de frio e de véspera.
Entre eles há um professor de retórica de trinta e dois anos. Africano. Brilhante. Com um filho fora do casamento ao lado e uma vida inteira de fugas nas costas. Chama-se Agostinho. Passou dezessete anos discutindo, adiando, prometendo “amanhã”. Agora está ali, descalço — e o bispo Ambrósio vai mergulhá-lo três vezes e pronunciar sobre ele o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ninguém filmou. Nenhum jornal noticiou. Mas o que aconteceu naquela água mudou a história do Ocidente — porque quem saiu daquele batistério não foi o mesmo homem que entrou.
E, dias depois, Ambrósio reuniu os recém-batizados e fez com eles uma coisa que a Igreja antiga fazia sempre: explicou, gesto por gesto, o que tinha acontecido com eles. Esse pequeno curso virou um livro, Sobre os Mistérios. É uma das nossas fontes hoje.
Guardem a ordem: primeiro se vive, depois se entende. Os antigos não explicavam tudo antes; deixavam o batizado experimentar o rito e só então mostravam o que ele significava. Nesta aula vamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo — porque muitos de vocês vão receber esses sacramentos daqui a poucas semanas, e outros já os receberam sem nunca terem entendido o que receberam. Se você foi batizado bebê e crismado adolescente sem saber direito por quê: esta aula é sobretudo para você. É a sua história que vamos decifrar.
O que é um sacramento — e por que Deus precisa de água, óleo e pão
Comecemos pelo conceito, porque quase todo mal-entendido católico começa aqui. A definição clássica cabe numa linha: sacramento é um sinal eficaz da graça, instituído por Cristo e confiado à Igreja, pelo qual nos é dispensada a vida divina (cf. CIC 1131).
Agora reparem em cada palavra.
Sinal: há algo que se vê, se ouve, se toca — água derramada, óleo perfumado, pão partido, palavras ditas em voz alta.
Eficaz: e aqui está o escândalo. O sinal não apenas lembra a graça. Ele faz o que significa. A água do Batismo não simboliza uma limpeza que acontece em outro lugar. Ela limpa. O Catecismo é categórico: os sacramentos “realizam eficazmente a graça que significam” (CIC 1127).
Instituído por Cristo: a Igreja não pode criar um oitavo sacramento nem abolir um dos sete, porque não é dona deles. É administradora.
Confiado à Igreja: os sacramentos são “da Igreja” em duplo sentido — por ela e para ela (CIC 1118).
Daí decorre a verdade mais libertadora deste assunto. O sacramento age ex opere operato, “pelo próprio fato de ser realizado” (CIC 1128). Escutem o que isso significa: a graça não depende da santidade do padre, nem da qualidade do coral, nem do seu estado de espírito naquele dia. Depende de Cristo. Se você foi batizado por um padre que anos depois abandonou o ministério, o seu Batismo é tão válido quanto o de Agostinho nas mãos de Ambrósio. Um bom ministro é uma bênção; um mau ministro é uma tragédia — mas nem um nem outro é dono da torneira. E o Catecismo acrescenta a contrapartida honesta: os frutos dependem também das disposições de quem recebe. Deus dá tudo. Nós recebemos na medida do copo que levamos.
E por que Deus escolheu agir por coisas? Porque nós somos assim. Conhecemos pelos sentidos. Amamos com o corpo. Lembramos por gestos. Um pai que ama o filho não se limita a pensar afeto: abraça. Deus seguiu a mesma lógica e a levou ao extremo, tornando-se ele mesmo carne — e os sacramentos são o prolongamento da Encarnação no tempo. Quem acha “material demais” que Deus salve por água e pão precisa se explicar antes com a manjedoura e com a cruz.
São sete, agrupados segundo a lógica da vida (CIC 1210-1211): três de iniciação — Batismo, Confirmação, Eucaristia —, dois de cura — Penitência e Unção dos Enfermos —, e dois a serviço da comunhão — Ordem e Matrimônio. Nascer, crescer, alimentar-se, ser curado, gerar vida nos outros. Nesta aula tratamos dos três primeiros: “os fundamentos de toda a vida cristã” (CIC 1212).
Batismo: a porta que não se abre por dentro
Antes de olharmos o rito, olhemos as figuras — porque o Batismo não caiu do céu no ano 30. A Escritura inteira o prepara com imagens de água, e o Catecismo as percorre (CIC 1217-1222).
No princípio, o Espírito de Deus paira sobre as águas (Gn 1,2): a água é o berço da vida. Depois vem o dilúvio: as águas destroem o velho mundo e fazem emergir um mundo novo dentro de uma arca — figura da Igreja. Vem o Mar Vermelho: Israel desce ao leito do mar como escravo e sobe do outro lado como povo livre, enquanto o exército do Faraó fica atrás, afogado. Guardem essa imagem — é a mais exata de todas: no Batismo, algo seu morre naquela água — o Faraó de dentro de você — e algo seu sai vivo do outro lado. Enfim, o Jordão: Jesus, que não tinha pecado nenhum, entra na fila dos pecadores e se deixa batizar por João, e o céu se abre sobre ele (Mt 3,16-17). Ele não precisava daquela água. A água é que precisava dele.
O mais antigo tratado cristão dedicado a um sacramento é justamente sobre este. Foi escrito em Cartago, por volta do ano 203, por Tertuliano — jurista convertido, de língua afiada —, e começa com uma imagem inesquecível:
Mas nós, peixinhos, à maneira do nosso Ichthys, Jesus Cristo, nascemos na água, e não temos segurança senão permanecendo na água.
— Tertuliano, Sobre o Batismo, cap. 1
Ichthys, “peixe” em grego, era o acrônimo secreto dos cristãos perseguidos: Iesous Christos Theou Yios Soter — Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. O peixe rabiscado numa parede de catacumba dizia “aqui há cristãos”. E Tertuliano brinca: se o nosso Senhor é o Peixe, nós somos os peixinhos — e peixinho fora da água morre.
Isso não é poesia decorativa. É a descrição exata de uma vida batizada que se afasta da graça: ela não explode. Ela seca. Vocês conhecem gente assim. Batizada, boa pessoa, sufocando devagar fora da água.
No mesmo tratado, Tertuliano explica por que Deus escolheu esse elemento banal, disponível em qualquer poço:
O Espírito de Deus, que desde o princípio pairava sobre as águas, continuaria a repousar sobre as águas dos batizados.
— Tertuliano, Sobre o Batismo, cap. 4
Ou seja: a água do batistério não é água mágica. É água comum sobre a qual Deus fez descer o mesmo Espírito da primeira página da Bíblia. É criação nova acontecendo dentro de uma pia.
O rito, gesto por gesto
Vamos agora fazer o que Ambrósio fez com Agostinho: percorrer o rito. Prestem atenção, porque vocês vão ver tudo isso na manhã de encerramento.
A renúncia. Antes de qualquer promessa, uma recusa. O catecúmeno é perguntado se renuncia a Satanás, às suas obras e às suas seduções. Em Jerusalém, no século IV, São Cirilo lembrava aos recém-batizados que eles tinham feito isso voltados para o Ocidente — o lado onde o sol morre, região das trevas. E que ali diziam, em voz alta:
Renuncio a ti, Satanás — tirano perverso e cruelíssimo!
— São Cirilo de Jerusalém, Catequese Mistagógica I, 4
Depois, o batizando dava meia-volta e ficava de frente para o Oriente, o lado onde o sol nasce — e só então professava: creio no Pai, no Filho, no Espírito Santo (Cat. Mist. I, 9). Aquele giro do corpo é o que estamos todos tentando fazer com a vida inteira. E notem: a renúncia vem antes da profissão de fé. Cristianismo não é acrescentar Jesus a uma vida que continua igual. É romper com alguma coisa. Você sabe o nome da sua.
A água e a fórmula. O ministro mergulha o batizando três vezes na água, ou derrama água sobre a sua cabeça três vezes, dizendo: “Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (cf. Mt 28,19; CIC 1240). Isso é o essencial — matéria e forma; tudo o mais são ritos explicativos. Por isso, guardem: em perigo de morte, qualquer pessoa pode batizar — mesmo um não batizado —, desde que use água, diga essas palavras e tenha a intenção de fazer o que a Igreja faz (CIC 1256). Numa emergência de maternidade, num acidente, você pode ser o ministro. E o tríplice mergulho não é enfeite: são os três dias. “Fomos sepultados com ele pelo Batismo na sua morte, para que […] também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,3-4). A pia batismal é ao mesmo tempo túmulo e útero.
São João Crisóstomo, preparando em Antioquia os que seriam batizados na Páscoa — gente com biografias pesadas, como as nossas —, descrevia com realismo quase impertinente o que sai daquela água:
Se cair nesta piscina de águas, sobe de novo da fonte divina mais puro que os raios do sol.
— São João Crisóstomo, Instruções aos Catecúmenos, I, 3
Mais puro que os raios do sol. Não “melhorado”. Não “perdoado por cima”. Puro. Se essa frase parece exagerada, é porque você ainda mede o Batismo pela sua capacidade de se corrigir — e não pela capacidade de Deus de recriar.
A unção com o santo crisma. Logo depois da água, o batizado é ungido no alto da cabeça com o crisma, óleo perfumado consagrado pelo bispo. Crisma vem da mesma raiz de Cristo, “o Ungido”: ser ungido é ser feito membro do Ungido, participante do seu sacerdócio, do seu profetismo e da sua realeza (CIC 1241). O cheiro fica na pele por dias — detalhe deliberado. “Somos para Deus o bom perfume de Cristo” (2Cor 2,15).
A veste branca. Ambrósio explicava aos milaneses o que aquele pano significava:
Depois disto, foram-vos dadas vestes brancas, como sinal de que estáveis despindo o invólucro dos pecados e vos revestindo do casto véu da inocência.
— Santo Ambrósio, Sobre os Mistérios, VII, 34
Roupa nova para vida nova. É a mesma roupa que o pai manda buscar quando o filho pródigo volta cheirando a chiqueiro (Lc 15,22).
A vela acesa no círio pascal. O último gesto: o batizado recebe a chama tirada do círio da Páscoa, que representa Cristo ressuscitado. “Recebei a luz de Cristo”, diz o ministro. A luz não é sua. É emprestada, acesa em outra chama — e a sua única tarefa é não deixá-la apagar. E reparem nisto: no dia do seu funeral, o círio pascal vai estar de novo ao lado do seu caixão. A Igreja abre e fecha a sua vida com a mesma luz.
O que o Batismo faz em você
Não confundamos cerimônia com efeito. O Catecismo enumera o que acontece de fato (CIC 1262-1274). Contem comigo.
1. Perdão de todos os pecados. Todos. O pecado original e, no adulto, todos os pecados pessoais, com todas as penas devidas por eles (CIC 1263). Não sobra dívida. Se um adulto batizado morresse ao sair do batistério, entraria direto na glória. Permanece, sim, a concupiscência — a inclinação desordenada —, mas ela não é pecado: é o campo de treino deixado de propósito para o combate (CIC 1264).
2. Nova criatura e filiação divina. O batizado não é apenas limpo. É refeito. Torna-se “filho no Filho”, participante da natureza divina, morada da Trindade (CIC 1265-1266). Recebe a graça santificante, as virtudes teologais e os dons do Espírito. Crisóstomo explicava aos catecúmenos de Antioquia por que os batizados eram chamados simplesmente de “os fiéis”:
Sois chamados fiéis por esta razão: porque tendes fé em Deus e porque a ele mesmo vos foram confiadas a justiça, a santificação, a purificação da alma, a adoção, o reino dos céus.
— São João Crisóstomo, Instruções aos Catecúmenos, II, 1
“Confiadas.” Não é medalha. É depósito nas suas mãos — com prestação de contas.
3. Incorporação à Igreja. Ninguém se batiza sozinho nem para si. Batizado, você é membro do Corpo de Cristo, com direitos reais — os sacramentos, a Palavra — e deveres reais: professar a fé, participar da missão, obedecer aos legítimos pastores (CIC 1267-1271).
4. Caráter indelével. O Batismo imprime na alma uma marca espiritual permanente, e por isso não pode ser repetido (CIC 1272). Nenhum pecado, nenhuma apostasia, nenhum ateísmo militante apaga aquela marca. Um batizado que passa quarenta anos longe não precisa ser rebatizado quando volta. Precisa se confessar. Você foi selado, e Deus não tem borracha — o que é consolo e advertência ao mesmo tempo: a porta de casa continua reconhecendo a sua digital. E você não pode alegar que nunca pertenceu.
Adultos e crianças: por que batizamos bebês
Aqui entra a primeira objeção séria, e ela merece honestidade — até porque a fonte mais antiga desta aula está do outro lado do balcão. Tertuliano foi contra o batismo de crianças. No capítulo 18 do tratado dele, ele pede que se adie o Batismo dos pequenos: por que expor os padrinhos ao risco de promessas que talvez não cumpram? Que venham quando estiverem crescendo, diz ele. É uma opinião de peso. E a Igreja não a seguiu.
Não a seguiu por três motivos. Primeiro: o próprio texto de Tertuliano prova que já se batizavam crianças no ano 203 — ninguém argumenta contra um costume que não existe. Segundo: o Novo Testamento narra o batismo de “casas” inteiras (At 16,15.33; 1Cor 1,16), e casa antiga incluía crianças. Terceiro, e sobretudo: se o Batismo fosse prêmio pela decisão adulta, adiar faria sentido. Mas é graça pura — e a criança é o retrato perfeito de quem não pode merecer nada. Batizar crianças, diz o Catecismo, manifesta de modo particularmente claro a gratuidade da salvação (cf. CIC 1250).
“Mas não é violentar a liberdade dela?” Pensem comigo: pais que não escolhem nada pelos filhos não existem. Escolhem a língua, o país, a escola, os valores e o time. Ninguém acha isso opressão — acha isso paternidade. Sonegar o maior bem que se tem, em nome de uma neutralidade que ninguém pratica em mais nada, não é respeito. É abandono disfarçado de elegância. O que a Igreja exige, em compensação, é sério: que haja “esperança fundada” de educação na fé (CIC 1255). Batizar o filho e não rezar com ele é assinar um contrato e rasgá-lo na porta da igreja.
E os adultos? Para eles a Igreja restaurou o catecumenato (CIC 1247-1249): um caminho de meses, com etapas e ritos — exatamente o que vocês estão fazendo agora. Para o adulto, a ordem clássica se mantém: Batismo, Confirmação e Eucaristia na mesma celebração, normalmente na Vigília Pascal (CIC 1233).
E os que morrem sem Batismo? Deus vinculou a salvação ao sacramento, mas não se vinculou a si mesmo aos sacramentos (CIC 1257). Quem morre por Cristo sem ter sido batizado recebe o batismo de sangue; quem, desejando o Batismo, morre antes de recebê-lo, é salvo pelo batismo de desejo (CIC 1258-1259). E as crianças mortas sem Batismo, o Catecismo confia-as à misericórdia de Deus, lembrando a ternura de Jesus com os pequenos — “deixai vir a mim as criancinhas” (Mc 10,14; CIC 1261).
Confirmação: o Espírito não é um adorno
Passemos ao segundo sacramento — o mais mal compreendido dos três. Crisma não é “formatura da catequese”. Não é “aceitar a fé agora que sou grande”. Não é rito de passagem adolescente. Basta olhar para o dia em que ela nasceu.
Pentecostes. Vocês lembram da cena. Um grupo de homens trancados num quarto por medo — os mesmos que tinham fugido na Sexta-feira — recebe o Espírito Santo em forma de fogo e, em minutos, está na rua pregando para a cidade inteira, e Pedro faz três mil convertidos num sermão (At 2). Não mudou a doutrina deles. Mudou a coragem. É isso que a Confirmação faz. O Catecismo é preciso: ela nos une mais intimamente a Cristo, aumenta em nós os dons do Espírito, torna mais perfeito o vínculo com a Igreja e nos dá “uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé pela palavra e pelas obras, como verdadeiras testemunhas de Cristo” (CIC 1303).
Que os Apóstolos transmitiam esse dom por gesto próprio, distinto do Batismo, está escrito com todas as letras: em Samaria, os batizados por Filipe ainda não tinham recebido o Espírito, e Pedro e João desceram até lá e impuseram as mãos sobre eles (At 8,14-17). Desde então o sinal essencial é esse: a unção com o santo crisma na testa, com a imposição da mão, e as palavras “Recebe, por este sinal, o dom do Espírito Santo” (CIC 1300). O ministro originário é o bispo (CIC 1312) — para que se veja, no rosto de quem confirma, o vínculo com os Apóstolos.
Ambrósio, ao chegar nesta parte do rito com os recém-batizados de Milão, falava do selo espiritual recebido depois da fonte e enumerava os dons do Espírito de Isaías 11 — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus — como a mobília interior daquela alma nova. Isso não é vocabulário devoto. É o equipamento de quem vai precisar decidir coisas difíceis sozinho pelos próximos cinquenta anos.
A Confirmação também imprime caráter indelével e, por isso, também não se repete (CIC 1304-1305). E cobra o preço da coragem. Um crismado que esconde a fé no trabalho, que se cala quando zombam de Cristo na mesa do almoço, recebeu um dom e o deixou empacotado. O padrinho ou madrinha existe para cobrar isso — deve ser católico praticante, crismado, e de preferência o mesmo do Batismo (CIC 1311). Escolham quem reza. Não quem paga a festa.
Eucaristia: o centro de tudo
Chegamos ao ápice — literalmente. O Catecismo chama a Eucaristia de “fonte e cume de toda a vida cristã” (CIC 1324), e a razão é simples: nos outros sacramentos recebemos uma graça de Cristo. Na Eucaristia recebemos o próprio Cristo. Não é um meio entre outros. É o fim para o qual todos os outros existem.
Recuemos ao ano 155. Justino — o filósofo, vocês já o conhecem — escreve ao imperador Antonino Pio uma defesa pública dos cristãos e, para desmentir os boatos de canibalismo, descreve o que realmente acontece nas reuniões de domingo (Primeira Apologia 65-67). Escutem e vejam se reconhecem: reúnem-se todos no dia chamado do sol; leem-se as memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas; o presidente faz uma exortação; todos se levantam e rezam; trazem-se pão, vinho e água; o presidente eleva preces e ações de graças, e o povo responde “Amém”; os diáconos distribuem a todos e levam aos ausentes; e faz-se uma coleta para órfãos, viúvas, doentes e presos.
É a Missa de domingo. Inteira. No ano 155. Quem disser a vocês que a Missa foi inventada por Trento ou pelo Vaticano II precisa explicar este texto.
E sobre o que é aquele pão, Justino não deixa margem:
Não recebemos estas coisas como pão comum e bebida comum; mas, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne pela Palavra de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação, assim também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual se pronunciou a ação de graças […] é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus que se fez carne.
— São Justino Mártir, Primeira Apologia, 66
Meio século antes, Santo Inácio de Antioquia — o velho acorrentado, a caminho das feras — já usava a Eucaristia como critério para identificar hereges:
Abstêm-se da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que padeceu pelos nossos pecados e que o Pai, na sua bondade, ressuscitou.
— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Esmirnenses, 7
Reparem no argumento invertido: o sinal de que aquela gente estava fora da fé não era uma tese abstrata. Era que não comungavam — porque não acreditavam no que ali estava. A fé eucarística é o divisor de águas desde o século I. E o mesmo Inácio, aos efésios, dá à Eucaristia o nome mais bonito que ela já recebeu:
[…] partindo um só e mesmo pão, que é o remédio da imortalidade, o antídoto para não morrer, mas para viver para sempre em Jesus Cristo.
— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, 20
Remédio da imortalidade. Não tônico espiritual. Não gesto simbólico de pertença. Remédio contra a morte — tomado por gente que ia morrer no anfiteatro e sabia disso.
“É só um símbolo?” — a presença real e a transubstanciação
Aqui está a objeção que vocês vão ouvir, mais cedo ou mais tarde, de um amigo ou de um vídeo. Vamos encará-la juntos.
Primeiro, a Escritura. Em Cafarnaum, Jesus diz: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53). Os ouvintes se escandalizam — “esta linguagem é dura, quem pode escutá-la?” (Jo 6,60) — e muitos discípulos vão embora. Agora reparem no que Jesus não faz. Ele não corre atrás explicando que era metáfora. Deixa que se vão. E pergunta aos Doze se também querem ir (Jo 6,67). É o único episódio dos Evangelhos em que Jesus perde seguidores por um mal-entendido e não o desfaz. Só há uma explicação: não era mal-entendido. Na Ceia, ele toma o pão e diz “Isto é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc 22,19), e Paulo tira a consequência: quem comer o pão indignamente “será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11,27). Ninguém é réu do corpo de alguém por profanar um símbolo.
E como isso acontece? A Igreja usa a palavra transubstanciação para dizer o mínimo necessário: pela consagração, converte-se toda a substância do pão no corpo de Cristo e toda a substância do vinho no seu sangue, permanecendo apenas as espécies — o que os sentidos captam (CIC 1373-1377). Cristo está presente “verdadeira, real e substancialmente”, todo inteiro — corpo, sangue, alma e divindade — em cada espécie e em cada fragmento (CIC 1374, 1377). Por isso quem comunga só a hóstia recebe Cristo inteiro. Por isso se genuflete diante do sacrário.
A palavra é do século XIII, mas o conteúdo é muito mais antigo. Ambrósio o formulou no século IV com um argumento imbatível: se a palavra de Deus foi capaz de fazer existir o que não existia, por que não seria capaz de mudar o que já existe?
Ele falou, e foram feitos; ordenou, e foram criados. Não poderá, então, a palavra de Cristo mudar aquilo que já existe naquilo que não era?
— Santo Ambrósio, Sobre os Mistérios, IX, 52
Pensem bem: quem admite que Deus criou o universo do nada e depois acha “impossível demais” que ele mude pão em corpo está sendo incoerente. O maior já foi feito.
E a Missa é sacrifício ou banquete? As duas coisas, inseparavelmente. Não é que Cristo morra de novo a cada Missa: o sacrifício da cruz é único e irrepetível, mas na Eucaristia ele é tornado presente — o memorial bíblico não é lembrança psicológica, é atualização (CIC 1362-1367). O altar e a mesa são o mesmo móvel. Por isso é grave o desprezo tranquilo de quem chega atrasado, comunga distraído e sai antes da bênção. O que está em jogo ali é o Calvário — servido como refeição.
Quem pode comungar, e como
Sejamos práticos, porque é aqui que muita gente erra por não saber.
Estado de graça. Quem tem consciência de um pecado grave deve confessar-se antes de comungar (CIC 1385). Isto não é rigor sombrio — é coerência: não se recebe o Amor com a porta fechada. Se você está numa situação assim, o caminho não é fugir da Missa. É vir, participar inteiro, fazer a comunhão espiritual e marcar a Confissão. Ninguém está expulso. Alguns estão em tratamento.
Jejum eucarístico: uma hora antes da comunhão, abstendo-se de alimento e bebida (água e remédios não quebram). É pouco — e por isso mesmo é o mínimo que se pode fazer para chegar com o corpo avisado de que vai acontecer algo (CIC 1387).
Disposição do corpo: gestos, roupa, silêncio. E a regra prática que Cirilo de Jerusalém ensinava aos recém-batizados no século IV — que continua sendo a melhor instrução já dada sobre comunhão na mão. Escutem:
Faz da tua mão esquerda um trono para a direita, que vai receber um Rei.
— São Cirilo de Jerusalém, Catequese Mistagógica V, 21
Um trono. Não um balcão. Não um gesto de quem pega um folheto. Cirilo ainda recomenda cuidado para que não caia um só fragmento — se te dessem ouro em pó, dizia ele, você não deixaria cair nada. De pé e na mão, ou de joelhos e na boca: as duas formas são legítimas. Ilegítimo é comungar como quem pega troco.
As três condições de Justino, ano 155, valem até hoje sem uma vírgula mudada: comunga quem crê que estas coisas são verdadeiras, quem foi batizado e quem vive como Cristo mandou (Primeira Apologia, 66). Se você ainda não foi batizado, é essa a razão pela qual não comunga. Não é exclusão — é ordem: primeiro nasce-se, depois come-se. E esta espera tem data para acabar.
Uma última objeção: “eu não sinto nada”
Muita gente adulta desiste da vida sacramental por causa disto: “comungo e não sinto nada”.
Escutem bem. Sacramento não é experiência emocional. É realidade: a comida alimenta mesmo quando você come sem fome. O ex opere operato é a defesa de Deus contra a tirania dos nossos humores — se você comungou em estado de graça, Cristo entrou, independentemente do que o seu sistema nervoso registrou. Mas os frutos dependem das disposições (CIC 1128): um sacramento recebido no automático produz pouco, não porque Deus economize, mas porque o copo estava tampado.
E reparem no prazo. O efeito da Eucaristia é lento como o de qualquer alimento: ninguém sente o almoço agindo — mas sem ele você morre. O Catecismo lista o que ela faz: aumenta a união com Cristo, separa do pecado, apaga os veniais, preserva dos mortais, reforça a caridade e compromete com os pobres (CIC 1391-1397). Compare-se com você mesmo de cinco anos atrás. Não com o que sentiu no domingo passado.
Para viver
- Descubra a data do seu Batismo e ponha-a no calendário do celular como aniversário anual — peça a certidão na paróquia, se preciso. Você comemora o dia em que nasceu para o mundo; comece a comemorar o dia em que nasceu para Deus.
- Faça o sinal da cruz com água benta ao entrar e ao sair de casa, todos os dias desta semana, dizendo por dentro: “sou batizado, pertenço a Cristo”.
- Chegue dez minutos antes na Missa de domingo e fique dois minutos em silêncio depois da comunhão, sem celular. Só isso, uma semana. Depois me diga se foi igual.
- Escolha o padrinho ou madrinha de Crisma com critério: alguém que reze, que se confesse e que tenha coragem de lhe dizer a verdade. Convide pessoalmente esta semana.
- Nomeie a sua renúncia. Escreva num papel, em uma linha, a que exatamente você precisa renunciar para dizer com verdade “renuncio a Satanás, às suas obras e às suas seduções”. Leve esse papel para a Confissão.
Para rezar
De pé, como fazem os batizados na noite de Páscoa, renovemos juntos as promessas do Batismo. Respondam em voz alta.
Renunciais a Satanás? — Renuncio. E a todas as suas obras? — Renuncio. E a todas as suas seduções? — Renuncio.
Credes em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra? — Creio. Credes em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu da Virgem Maria, padeceu e foi sepultado, ressuscitou dos mortos e está sentado à direita do Pai? — Creio. Credes no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna? — Creio.
E rezemos:
Senhor Jesus, que desceste ao Jordão para santificar as águas e te deixaste partir como pão para não nos deixares órfãos: acende de novo a chama que nos foi dada no Batismo. Dá aos que ainda esperam o sacramento a alegria de contar os dias; dá aos que já o receberam a vergonha santa de o terem esquecido. Faz-nos peixinhos que não saem da água, casas que guardam a tua luz acesa, mãos que se tornam trono para receber o Rei. Espírito Santo, que enchestes um quarto trancado e puseste homens medrosos na rua, faz o mesmo conosco. Amém.