Dez Mandamentos VI — Justiça, verdade e desprendimento (7º, 8º e 10º)
Não roubar, não mentir, não cobiçar: os bens, a verdade e o coração.
Hipona, norte da África, por volta do ano 420.
Um bispo velho, cansado, com a saúde já ruindo, recebe uma carta de um cristão fervoroso chamado Consêncio. A proposta é engenhosa — e vem embrulhada em zelo pastoral. Há uma seita herética espalhando erros pela Espanha, e os hereges se escondem porque, quando pressionados, mentem sobre o que creem. Consêncio sugere combater fogo com fogo: que alguns católicos se façam passar por adeptos da seita, mintam sobre a própria fé, infiltrem-se, ganhem confiança — e assim descubram os culpados.
É por uma boa causa. É pela verdade. É pela salvação de almas.
Agostinho responde com um livro inteiro: Contra a Mentira. E a resposta é não.
Não pode. Nem para desmascarar heresia. Nem para salvar a Igreja. Nem para servir a verdade. Ele já havia escrito, anos antes, o tratado Sobre a Mentira, e agora repete o que aprendera: não se defende a verdade traindo a verdade. Se os cristãos mentem para caçar mentirosos — o que sobrou de cristão neles?
Guardem essa cena, porque ela vai incomodar vocês antes do fim desta aula. Todos nós temos o nosso Consêncio interior: aquela voz razoável que explica por que, neste caso específico, com esta boa intenção, seria legítimo maquiar um pouco a verdade. Encaminhar aquela mensagem sem verificar. Contar aquele detalhe sobre o outro “porque as pessoas precisam saber”.
Hoje fechamos o Decálogo com os três mandamentos que ninguém confessa: os que tratam do que temos, do que dizemos e do que desejamos. Sétimo, oitavo e décimo. E, no meio deles, o nono, que já visitamos e que vamos retomar por outro ângulo. Preparem-se: estes são os mandamentos dos cristãos praticantes.
O sétimo: o que é meu, o que é seu, e o que é de todos
Comecemos pelo mais concreto. “Não roubarás” (Ex 20,15). O Catecismo ensina que este mandamento proíbe tomar ou reter injustamente o bem do próximo e prejudicá-lo de qualquer maneira em seus bens (CIC 2401). Mas antes de proibir, ele afirma: a propriedade privada é legítima e garante a liberdade e a dignidade das pessoas — e, ao mesmo tempo, os bens da criação têm uma destinação universal, isto é, foram dados por Deus a todo o gênero humano (CIC 2402-2403). Ter é legítimo. Ter como se o mundo fosse só nosso, não.
E aqui a doutrina desce ao chão de um jeito que constrange. O furto óbvio, todos reconhecem. Mas escutem o que o Catecismo lista na mesma seção: reter deliberadamente bens emprestados. Pagar salário injusto. Especular manipulando preços. Corromper e deixar-se corromper. Apropriar-se de bens da empresa. Executar mal um trabalho pelo qual se foi pago. Sonegar impostos. Falsificar cheques e faturas. E o desperdício (cf. CIC 2409).
Agora traduzam para o Brasil. O “jeitinho”. A nota fiscal que não se pede. O material do escritório que vai para casa. A hora de trabalho vendida e não entregue. O funcionário pago por fora. O produto pirateado. O vizinho que puxa energia do poste. Nenhuma dessas coisas é chamada de roubo na conversa cotidiana. Todas são chamadas de roubo pelo Catecismo.
E há a consequência que quase ninguém tira: “Em virtude da justiça comutativa, a reparação da injustiça cometida exige a restituição do bem roubado ao seu proprietário” (CIC 2412). Não basta confessar. É preciso devolver. Se o valor exato é impossível de calcular ou o dono não pode mais ser encontrado, devolve-se aos pobres — mas devolve-se. Confissão sem propósito de restituir é confissão sem propósito de emenda.
O oitavo: quem mente mata devagar
“Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex 20,16). A formulação bíblica nasce no tribunal — o falso testemunho podia matar um inocente —, mas o mandamento cobre toda a vida: “O oitavo mandamento proíbe falsear a verdade nas relações com outrem” (CIC 2464).
Por que isso é tão grave? Porque a verdade não é uma regra. É uma Pessoa. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). E o oposto também tem nome próprio: Jesus diz do diabo que ele “é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). Quando você mente, não está apenas quebrando uma norma social. Está falando a língua materna de outro reino. O Catecismo é seco: os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, isto é, se não manifestassem a verdade uns aos outros (CIC 2469). A mentira é, antes de tudo, um ataque ao tecido que sustenta toda vida em comum — família, trabalho, comércio, política, Igreja. Quem mente não fere apenas o enganado. Corrói a possibilidade de qualquer um confiar em qualquer um.
E a definição que o próprio Catecismo adota é de Santo Agostinho, tirada do tratado Sobre a Mentira: “A mentira consiste em dizer o falso com a intenção de enganar” (CIC 2482). Reparem nos dois elementos. Dizer o falso — e querer enganar. Agostinho é rigoroso na análise:
“Mente, portanto, aquele que tem uma coisa na mente e profere outra em palavras, ou por sinais de qualquer espécie.”
— Santo Agostinho, Sobre a Mentira, 3
E logo em seguida, com honestidade de professor, acrescenta que quem profere aquilo que tem na mente — como crença ou como opinião —, ainda que seja falso, não mente (Sobre a Mentira, 3). Essa distinção liberta muita gente escrupulosa. Quem repassa uma informação errada acreditando de boa-fé que é verdadeira não mente. Erra. E quem repassa uma informação verdadeira com a intenção de destruir alguém não está inocente, ainda que cada palavra confira. A mentira mora na vontade, não na gramática.
“Nunca, por motivo nenhum”: o rigor de Agostinho
Agora o ponto que faz discutir. Agostinho sustenta que jamais é lícito mentir. Nem para salvar a vida de alguém. Nem para proteger a fé. Nem por caridade. A razão dele: o corpo pode ser tirado por outro, mas a alma o homem só perde por si mesmo — e quem mente escolhe corromper a si próprio.
“Nunca, pela vida temporal de homem algum, se deve dizer uma mentira.”
— Santo Agostinho, Sobre a Mentira, 9
É uma posição desconfortável, e seria desonesto apresentá-la como se fosse fácil. Ponham o caso clássico: 1943, você esconde uma família judia no porão, batem à porta, e perguntam se há alguém em casa. Agostinho responderia que você não pode afirmar o falso; pode calar, pode recusar-se a responder, pode aceitar a morte — mas não pode mentir. Nem todos os teólogos católicos posteriores seguiram esse rigor até o fim. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, manteve que toda mentira é pecado, mas distinguiu gravidades — e a tradição moral desenvolveu a ideia de que nem toda verdade é devida a quem pergunta.
E é exatamente aí que o Catecismo hoje nos ajuda, sem revogar Agostinho. Ele afirma que a mentira é sempre condenável, e que a sua gravidade se mede pela verdade que deforma, pelas circunstâncias e pelo dano causado às vítimas (CIC 2484-2485). Mas acrescenta um princípio decisivo: “O direito à comunicação da verdade não é incondicional” (CIC 2488), e “a caridade e o respeito da verdade devem ditar a resposta a todo pedido de informação ou de comunicação” (CIC 2489). Isto é: existe informação que ninguém tem direito de exigir de você. Existe segredo profissional que obriga ao silêncio. Existe o bem do próximo, a segurança de terceiros, a vida privada, que justificam calar. E calar não é mentir.
A conclusão prática é limpa e exigente: você nunca é obrigado a dizer tudo. Você é sempre obrigado a não fabricar o falso. E sejamos honestos: quase todas as nossas mentiras cotidianas não têm nada a ver com esconder judeus no porão. Têm a ver com aparecer melhor do que somos, escapar de uma consequência merecida, ou vender o que não temos. Não usemos casos-limite heroicos para blindar covardias corriqueiras. Foi exatamente isso que Agostinho recusou a Consêncio: a boa causa como licença.
Duas notas que o Catecismo faz questão de acrescentar, e que valem ouro para adultos. Primeira: “Toda falta cometida contra a justiça e a verdade impõe o dever de reparação” (CIC 2487). Se você destruiu a reputação de alguém, não basta confessar — é preciso desdizer publicamente onde se disse. Segunda: existe o pecado gravíssimo de quem cala por medo quando o silêncio é cumplicidade. A verdade tem dois inimigos: quem a deforma e quem a abandona.
Os três pecados que ninguém confessa
Aqui está a parte mais próxima da nossa vida real. O Catecismo os nomeia num único parágrafo cirúrgico. É culpado de juízo temerário quem admite como verdadeiro, sem prova suficiente, um defeito moral do próximo; de maledicência (difamação) quem revela os defeitos e faltas de outrem a pessoas que os ignoravam, sem motivo objetivamente válido; e de calúnia quem, com afirmações contrárias à verdade, prejudica a reputação alheia (CIC 2477).
Escutem essa lista devagar, porque ela desmonta as três desculpas mais usadas nas nossas conversas.
“Mas eu só acho.” — Juízo temerário. Você transformou uma suspeita em veredito e passou a tratar a pessoa como culpada dentro da sua cabeça. O Catecismo pede o contrário: interpretar de modo favorável, na dúvida, o pensamento e o ato do próximo (CIC 2478). Isso não é ingenuidade. É justiça aplicada à informação incompleta.
“Mas é verdade.” — Maledicência. E prestem atenção, porque isto surpreende: a difamação não deixa de ser pecado por ser verdadeira. Revelar sem necessidade a falta real de alguém a quem não precisava saber é destruir uma reputação, e o Catecismo diz que o respeito à reputação proíbe toda atitude ou palavra suscetível de causar dano injusto (CIC 2477). Existe, sim, o dever de avisar quem precisa ser protegido — um pai, um responsável, uma autoridade competente. O que não existe é o direito de contar por prazer.
“Mas eu só repassei.” — E aqui chegamos ao nosso século.
A verdade na era do encaminhar
A calúnia, hoje, quase nunca é inventada por quem a espalha. É recebida, achada indignante, e reenviada em três segundos para quarenta pessoas. Ninguém sente que mentiu. Apenas apertou uma seta.
Mas perguntem-se com honestidade: quando você encaminha uma acusação sobre alguém sem ter conferido nada, o que exatamente você fez? Emprestou a sua credibilidade — o seu nome, a confiança que as pessoas têm em você — para levar adiante uma coisa que você não sabe se é verdade. A tecnologia mudou. O pecado é o mesmo, com alcance industrial.
O Catecismo já previa isso ao tratar dos meios de comunicação social: eles devem estar a serviço do bem comum, e a informação deve ser sempre verdadeira e — dentro da justiça e da caridade — íntegra; os que a produzem e transmitem têm o dever de respeitar a verdade e a dignidade das pessoas (CIC 2493-2495). E lembra que quem recebe também tem responsabilidade: moderação e disciplina diante dos meios, formando uma consciência esclarecida para resistir às influências menos honestas (CIC 2496). Traduzindo: encaminhar é publicar. Você é editor do seu grupo de família.
Três perguntas antes de apertar a seta — e elas cabem no bolso: é verdade (eu verifiquei)? É necessário (alguém fica melhor sabendo)? É caridoso (eu diria isso na frente da pessoa)? Se falhar em qualquer uma, apague. Nenhuma indignação sua vale a honra de outro.
E há a irmã mais antiga da difamação, a que se pratica ao vivo: a fofoca de sacristia. Precisa ser dito com todas as letras — ela mata comunidades. Grupos de oração se desfazem, pastorais racham, famílias se dividem, gente boa abandona a Igreja. Quase nunca por causa de heresia. Quase sempre por causa de língua. O oitavo mandamento é, na prática, o mandamento que mais protege a vida da paróquia.
O nono: a batalha do olhar
Antes de chegar ao décimo, uma palavra sobre o mandamento que fica entre eles. “Não desejarás a mulher do teu próximo” (Ex 20,17). Já o tratamos na aula passada, mas ele pertence a este bloco por um motivo estrutural: os dois últimos mandamentos são os únicos que proíbem desejos, não atos. O nono trata da concupiscência da carne; o décimo, da cobiça dos bens (CIC 2514, 2534). Juntos, eles dizem uma coisa desconcertante: Deus legisla sobre o que ninguém vê.
São João nomeia as três raízes: “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo 2,16). E o Catecismo ensina que o coração é a sede da personalidade moral, e que a luta pela pureza é uma batalha do coração (CIC 2517), travada com a graça da castidade, a pureza de intenção, a pureza do olhar — disciplina dos sentimentos e da imaginação, recusa da complacência nos pensamentos impuros — e a oração (CIC 2520). Lembram da palavra “complacência”? A tentação que passa não é pecado. Pecado é dar-lhe cadeira e cafezinho.
Num ambiente saturado de pornografia, isso deixou de ser conselho de sacristia e virou questão de saúde da alma e do casamento. O Catecismo reabilita uma palavra que o nosso tempo ridiculariza: o pudor, que não é vergonha do corpo, mas guarda da intimidade — protege o mistério das pessoas e do seu amor, e recusa desvelar o que deve permanecer velado (CIC 2521-2522). E acrescenta que existe um pudor social: a pureza cristã exige uma purificação do clima social, resistindo à permissividade que os meios de comunicação difundem (CIC 2525). Numa cultura que chama exposição de autenticidade, guardar o olhar é ato de resistência. E a promessa é altíssima: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).
O décimo: a inveja é veneno que mata quem a bebe
“Não cobiçarás a casa do teu próximo… nem coisa alguma que lhe pertença” (Ex 20,17). O décimo mandamento proíbe a avareza e o desejo desregrado de riquezas e do poder que elas dão, assim como a vontade de cometer injustiça prejudicando o próximo nos seus bens temporais (CIC 2536). E chama pelo nome o pecado que costuma se disfarçar de senso crítico: “A inveja é um pecado capital. Designa a tristeza experimentada diante do bem do próximo e o desejo desordenado de o possuir, mesmo que indevidamente” (CIC 2539).
Escutem de novo: tristeza diante do bem do outro. Não é querer o que ele tem. É sofrer porque ele tem. É a alegria que murcha quando o colega é promovido. Quando a irmã engravida. Quando o vizinho compra o carro. Quando o outro grupo da paróquia cresce. E o Catecismo é severo: quando deseja um mal grave ao próximo, a inveja é pecado mortal (CIC 2539) — porque é recusa da caridade (CIC 2540).
São Cipriano — o bispo de Cartago que já conhecemos, mártir no ano 258 — escreveu um tratado inteiro sobre isso, Sobre o Ciúme e a Inveja. E nele fez o diagnóstico mais preciso que já se escreveu:
“Que verme roedor da alma é este, que peste dos nossos pensamentos, que ferrugem do coração, ter inveja de outro.”
— São Cipriano, Sobre o Ciúme e a Inveja, 7
Verme. Peste. Ferrugem. As três imagens dizem a mesma coisa: a inveja não ataca o invejado. Ataca o invejoso. Ela come por dentro, silenciosamente, e o dono da casa é o único ferido. E Cipriano insiste no que a torna um inferno portátil:
“O ciúme não tem limite; é um mal que dura continuamente, e um pecado sem fim.”
— São Cipriano, Sobre o Ciúme e a Inveja, 7
Sem fim — porque sempre haverá alguém à frente. O avarento pode, em tese, chegar ao bastante. O invejoso, nunca: o padrão dele é móvel e está fora dele. Por isso Cipriano fecha o cerco com a frase que devia estar escrita em todo espelho:
“Não podes fugir de ti mesmo… o teu inimigo está sempre no teu próprio peito; a tua desgraça está trancada dentro de ti.”
— São Cipriano, Sobre o Ciúme e a Inveja, 9
E notem de onde ele faz a inveja descer: da queda. Cipriano recorda que “pela inveja do diabo entrou a morte no mundo” (Sb 2,24) e que o primeiro fratricídio nasceu do ciúme de Caim contra o irmão justo. A inveja é o pecado mais antigo do universo — é o pecado dos anjos. E não tem sequer o prazer perverso dos outros vícios. O luxurioso goza. O glutão come. O avarento acumula. O invejoso só sofre.
O remédio é preciso e prático: agradecer pelo bem do outro em voz alta. Rezar nominalmente por quem você inveja. Alegrar-se de propósito, com a vontade, até que o coração alcance. É antinatural no começo. E é exatamente por isso que funciona.
Ter sem ser possuído
Chegamos ao coração destes três mandamentos — e ele não está no bolso. Está em quem manda no coração. O primeiro cristão a escrever um tratado inteiro sobre riqueza foi São Clemente de Alexandria, no fim do século II, e o título é uma pergunta angustiada dos ricos da comunidade dele: Quem é o Rico que Será Salvo?. Diante do episódio do jovem rico (Mc 10,17-27), Clemente faz uma leitura que salvou muita gente do desespero — e não salvou ninguém do compromisso. Quando o Senhor manda vender tudo, o que ele manda expulsar primeiro não é o dinheiro do bolso. É o dinheiro do coração:
“Manda-o banir da alma as suas ideias a respeito da riqueza, o seu apego e a sua paixão doentia por ela.”
— São Clemente de Alexandria, Quem é o Rico que Será Salvo?, 11
Isso não é uma saída de emergência para ricos. É uma exigência mais difícil. É fácil doar um bem. É dificílimo deixar de ser governado por ele. Clemente sabe disso e por isso completa com a imagem que resume tudo:
“Tal instrumento é a riqueza. És capaz de usá-la retamente? Ela se põe a serviço da justiça.”
— São Clemente de Alexandria, Quem é o Rico que Será Salvo?, 14
Instrumento. O dinheiro é um martelo: constrói casa ou quebra cabeça, conforme a mão. Mas Clemente adverte também o outro lado — e a advertência atinge tanto o pobre quanto o rico: quem carrega as riquezas na alma, e em vez do Espírito de Deus traz no coração ouro e terras, esse não consegue nem sequer desejar o Reino (cf. Quem é o Rico, 16). Ou seja: é perfeitamente possível ser materialmente pobre e espiritualmente avarento. O décimo mandamento não é para os ricos. É para os desejosos. E isso inclui todos nós.
O Catecismo diz a mesma coisa com outras palavras ao ensinar que os discípulos devem preferir Cristo a tudo, e que o desprendimento das riquezas é necessário para entrar no Reino dos céus (CIC 2544). E acrescenta a chave de leitura de toda esta aula: “O abandono à providência do Pai do céu liberta da inquietação pelo amanhã” (cf. CIC 2547). Quem confia não precisa acumular por medo.
O Cristo nu e o cálice de ouro
Mas Clemente sozinho seria confortável demais — e a Tradição não deixa. São João Crisóstomo, pregando em Antioquia e depois em Constantinopla no fim do século IV, olhava para as igrejas cada vez mais ornamentadas e para os mendigos deitados na porta delas. E não teve papas na língua. Na Homilia 50 sobre Mateus, disse ao rosto dos seus fiéis ricos:
“Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando está nu; não o honres aqui com vestes de seda, enquanto lá fora o deixas perecer de frio e nudez.”
— São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, 50, 4
“Fazes-lhe um cálice de ouro, e não lhe dás um copo de água fria? E qual é o proveito?”
— São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, 50, 4
Entendam a força do argumento. Crisóstomo não é contra a beleza do culto — ele é o autor da liturgia mais solene do Oriente. Ele está dizendo que o mesmo Cristo está no altar e na calçada, e que quem enfeita um e ignora o outro não entendeu nem o altar nem a calçada. Agora apliquem sem misericórdia à nossa vida: a reforma da capela e o vizinho sem comida. A coleta da festa e o desempregado da rua de trás. A missa bonita de domingo e o salário atrasado da diarista na segunda. O Catecismo cita o próprio Crisóstomo ao dizer que não fazer os pobres participarem dos próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida, e que os bens que retemos pertencem aos pobres (CIC 2446). Isso está no sétimo mandamento. Não na seção de conselhos opcionais.
São Cipriano diz o mesmo em Obras e Esmolas — e diz de forma que quem tem dinheiro guardado sente na pele:
“Como a água extingue o fogo, assim a esmola apaga o pecado.”
— São Cipriano, Obras e Esmolas, 2
E, aos que hesitam calculando o orçamento, ele responde com uma ironia que atravessa dezessete séculos: você tem medo de que o seu patrimônio acabe se começar a ser generoso com ele — e não percebe, infeliz, que enquanto teme perder o patrimônio está perdendo a própria vida e a salvação (cf. Obras e Esmolas, 10). A pergunta de Cipriano continua de pé: o que exatamente você está protegendo? E à custa de quê?
Bem-aventurados os pobres em espírito
Tudo isto desemboca numa bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). O Catecismo trata dela sob o título de pobreza de coração (CIC 2544-2547) e explica que não se trata de miséria nem de desprezo pelos bens, mas da liberdade de quem não põe a segurança no que possui. Ser pobre em espírito é ter as mãos abertas: capaz de receber sem se apegar e de dar sem se rasgar.
E existe um sinal para saber se chegamos lá. Não é quanto você tem. É o que acontece dentro de você quando perde. Se a perda de um bem, de um cargo, de um reconhecimento derruba a sua paz — aquele bem não era seu. Você é que era dele. O Catecismo termina toda a exposição do Decálogo apontando o único desejo que não escraviza: o desejo de ver a Deus, que é a sede verdadeira do coração humano e a única saciável (cf. CIC 2548, 2557). Todos os outros desejos prometem repouso e entregam mais sede. Este entrega o que promete.
Objeções de gente honesta
“Mentira branca não faz mal a ninguém. Você vai dizer à sua avó que o bolo está ruim?”
Não vou. E não preciso mentir para isso. Existe uma diferença enorme entre afirmar o falso e escolher o que dizer com caridade: posso agradecer sinceramente, elogiar o esforço, falar da alegria de estar ali. A moral cristã nunca obrigou ninguém a ser brutal; o Catecismo diz expressamente que a caridade e o respeito da verdade devem ditar a resposta (CIC 2489). O problema é que a “mentira branca” quase nunca fica branca. Ela é o treino diário que torna fácil a mentira cinza — a desculpa no trabalho, o número maquiado, o “estou chegando” quando nem saí. Quem afina o ouvido para a verdade nas pequenas coisas ganha uma coluna vertebral nas grandes. Agostinho, que era um homem prático apesar da fama de rigoroso, entendeu isso: a alma se molda no que repete.
“Mas eu não roubo nada. Este mandamento não é comigo.”
Então respondam três perguntas. Você entrega, no trabalho, o tempo pelo qual é pago? Você pagaria hoje uma dívida antiga que ninguém mais cobra? E o que você faz com o que sobra depois do necessário? A doutrina da destinação universal dos bens (CIC 2402-2403) e a palavra de Crisóstomo citada pelo próprio Catecismo (CIC 2446) dizem que a partilha com os pobres não é generosidade opcional. É justiça. A maioria de nós não é ladra. Muitos de nós somos devedores que nunca abriram a conta.
“Não posso controlar o que sinto. Se a inveja e o desejo vêm sozinhos, como podem ser pecado?”
Sentir não é consentir. O Catecismo distingue com clareza: as paixões, em si, não são boas nem más moralmente; tornam-se moralmente qualificadas na medida em que dependem da razão e da vontade (cf. CIC 1767). O primeiro movimento de inveja que atravessa o peito quando alguém é elogiado não é pecado. É sintoma. Pecado é o que você faz com ele nos dez minutos seguintes: alimentar, remoer, comentar, diminuir o outro. Por isso os dois últimos mandamentos existem. Eles não punem o que sentimos — ensinam a governar o que fazemos com o que sentimos. E, como toda a vida moral, isso se aprende com a graça, na oração e na Confissão. Não pela força do punho.
Para viver
- Restitua alguma coisa. Uma dívida esquecida, um objeto emprestado, um imposto sonegado, uma hora de trabalho não entregue. Escolha uma e resolva esta semana — o Catecismo chama isso de dever, não de gesto bonito (CIC 2412).
- Sete dias sem falar de ausentes. Nada de juízo temerário, nada de “você soube que…”. Quando o assunto surgir na roda, mude-o ou defenda quem está sendo triturado. Anote o que descobrir sobre si mesmo.
- Regra das três perguntas antes de encaminhar: é verdade, é necessário, é caridoso? Aplique a cada mensagem esta semana, sem exceção. E, se você já espalhou algo falso sobre alguém, desdiga no mesmo grupo em que disse.
- Ataque a inveja pelo avesso. Escreva o nome da pessoa de quem você tem inveja e reze por ela todos os dias, pedindo que lhe vá ainda melhor. Ao fim da semana, elogie-a na frente de alguém.
- Uma esmola que doa. Não o troco que sobra: um valor que altere alguma escolha sua nesta semana, entregue a alguém concreto ou a uma obra que você conheça pelo nome. Guarde em segredo (Mt 6,3).
Para rezar
Oração pela verdade e pelo coração livre
Senhor Jesus, que sois a Verdade, e diante de quem nenhuma máscara se sustenta: dai-me a coragem de ser verdadeiro. Livrai-me da mentira que me embeleza, da desculpa que me protege, do silêncio covarde que deixa o inocente sozinho. Guardai a minha língua da fofoca, o meu juízo da pressa, os meus dedos da mensagem que espalha o que eu não verifiquei. E, onde eu já feri a fama de alguém, dai-me a humildade de reparar.
Purificai o meu olhar, para que eu veja pessoas onde a cultura me ensina a ver corpos, e irmãos onde o meu interesse me ensina a ver degraus. Arrancai de mim o verme da inveja, para que eu saiba alegrar-me de coração com o bem dos outros; e curai em mim a cobiça, que promete descanso e entrega sede.
Ensinai-me a usar o que tenho como instrumento e não como senhor: aberto de mãos, leve de coração, pronto a partilhar. Que eu não vos honre com ouro no altar enquanto vos deixo com fome na calçada. E dai-me, no fim, a única riqueza que não se perde: ver-vos face a face, com os puros de coração. Amém.
Pai-Nosso. Ave-Maria. Glória.
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3).