Serviço: Ordem — uma vida entregue ao povo de Deus
O sacramento da Ordem, seus três graus, o celibato e o discernimento de uma vocação para servir a Igreja.
Antioquia da Síria. Por volta do ano 371.
Dois amigos inseparáveis, jovens e brilhantes, são apontados pela cidade inteira como futuros bispos. Um se chama Basílio. O outro, João — o mesmo que a história chamará de Crisóstomo, “Boca de Ouro”.
Os bispos vêm buscá-los. E João faz uma coisa que nenhum manual de santidade recomenda.
Foge. E se esconde.
Deixa que Basílio seja levado sozinho e ordenado. O amigo só descobre o desaparecimento de João quando já não havia volta. Magoado, procura-o e cobra explicações.
João responde escrevendo seis livros: o tratado Sobre o Sacerdócio. Sua defesa é, no fundo, um elogio altíssimo do ministério. O argumento cabe numa frase: não fugi porque o sacerdócio é pequeno; fugi porque é grande demais, e eu me sabia pequeno.
Anos depois, João foi ordenado assim mesmo. Tornou-se o maior pregador do Oriente, foi feito arcebispo de Constantinopla contra a vontade, enfrentou a imperatriz por causa dos pobres e morreu numa estrada, a caminho do exílio.
Guardem a cena. Hoje se fala de vocação como carreira: salário, satisfação, reconhecimento, qualidade de vida. A Ordem nasce de outra pergunta: por quem estou disposto a gastar a minha vida?
O padre não recebe o sacramento para ter uma profissão religiosa. Recebe uma missão para que o povo tenha a Palavra, a Eucaristia, o perdão e um pastor. É justamente por isso que ninguém deveria encarar esse chamado com vaidade — nem recusá-lo apenas por medo.
Um sacramento a serviço da comunhão
O Catecismo coloca a Ordem entre os sacramentos “a serviço da comunhão” (CIC 1533-1535). Batismo, Confirmação e Eucaristia dão a todos a vocação comum à santidade. A Ordem confere uma missão particular para a construção do Povo de Deus.
O princípio é simples: quem recebe esse sacramento é colocado a serviço da salvação dos outros. O ministro também é santificado, mas precisamente ao entregar-se ao povo que lhe foi confiado (cf. CIC 1534).
Isso corrige duas caricaturas.
O padre não é um funcionário contratado pela comunidade. Também não é um ser superior que deve ser servido por todos. É um homem retirado do meio do povo e colocado diante dele para representar sacramentalmente Cristo Cabeça e Pastor.
“Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto” (Jo 15,16). A iniciativa é de Cristo. Mas a resposta precisa ser humana, livre e formada.
Os três graus da Ordem
A palavra ordem vem do latim ordo, que indicava um corpo com função pública. A ordenação integra sacramentalmente um homem nesse corpo por um gesto antiquíssimo: o bispo impõe as mãos sobre sua cabeça e pronuncia a oração de consagração (CIC 1538, 1573).
O sacramento possui três graus.
Bispo
O bispo recebe a plenitude da Ordem (CIC 1557). É sucessor dos Apóstolos, mestre da doutrina, sacerdote do culto e pastor da diocese — a parte do povo de Deus confiada aos seus cuidados. Pela consagração, entra no colégio episcopal, o corpo formado por todos os bispos em comunhão com o Papa (CIC 1558-1560).
Isso significa que a Igreja não recomeça do zero a cada geração. A missão recebida pelos Apóstolos atravessa a história pela sucessão dos bispos. A mesma imposição de mãos que aparece no Novo Testamento continua acontecendo diante dos nossos olhos.
Presbítero — o padre
O padre é colaborador do bispo. É ordenado para anunciar o Evangelho, conduzir o povo e celebrar o culto, principalmente a Eucaristia e a Reconciliação (CIC 1562-1566).
Ele não é dono de uma paróquia nem profissional autônomo. É enviado. Por isso pode ser transferido e deve trabalhar unido ao bispo e aos outros padres. A comunidade pode amá-lo profundamente, mas não pode possuí-lo.
Diácono
O diácono é ordenado para o serviço da Palavra, da liturgia e da caridade (CIC 1569-1571). Pode batizar, proclamar e pregar o Evangelho, assistir ao Matrimônio, presidir funerais e coordenar o serviço aos necessitados. Não celebra a Missa nem absolve pecados.
O diaconato não é um “quase padre”. É um grau próprio da Ordem. Na Igreja latina, homens casados podem receber o diaconato permanente. Sua própria vida anuncia que toda autoridade cristã deve tomar a forma do serviço.
O sacerdócio do povo e o sacerdócio do padre
Antes de continuar, uma correção necessária: todo batizado participa do sacerdócio de Cristo.
São Pedro escreve: “Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus” (1Pd 2,9). O Catecismo chama isso de sacerdócio comum dos fiéis (CIC 1546-1547).
Sacerdote é quem oferece sacrifício. E o que o leigo oferece? A própria vida: “Oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1).
Seu altar cotidiano pode ser a mesa da cozinha às seis da manhã, o computador do trabalho ou a cama da criança com febre. Na Missa, quando o padre apresenta o pão e o vinho, você não está assistindo de fora. Coloca ali sua semana, seu trabalho, seus sofrimentos e sua caridade para que tudo seja unido ao sacrifício de Cristo.
O sacerdócio comum e o ministerial diferem “essencialmente, e não apenas em grau” (CIC 1547). O padre não é apenas um leigo com mais autorização. Pelo sacramento, recebe uma forma própria de participar do único sacerdócio de Cristo — inteiramente destinada a servir a vida batismal do povo.
Sem o povo, o ministro não tem rebanho. Sem o ministro, o povo fica sem Eucaristia. Não são concorrentes. São dons que Cristo fez um para o outro.
Na pessoa de Cristo
A expressão técnica é in persona Christi Capitis: o ministro ordenado age “na pessoa de Cristo Cabeça” (CIC 1548).
Quando o padre diz “isto é o meu corpo”, o “meu” não aponta para o corpo do padre. Quando diz “eu te absolvo”, não perdoa por ser melhor que o penitente. É Cristo quem age sacramentalmente por meio daquele homem.
Daí uma consequência que precisa ser ouvida por quem se afastou da Igreja por causa de um padre ruim: a presença de Cristo no sacramento não significa que o ministro esteja livre de fraqueza ou pecado (CIC 1550). A graça do sacramento não depende da santidade pessoal do padre (CIC 1584).
Isso não diminui a gravidade dos escândalos. Aumenta. Quanto maior o dom carregado, maior a responsabilidade de quem o trai.
Foi por entender esse peso que João Crisóstomo fugiu. Escutem:
O ofício sacerdotal exerce-se, é verdade, sobre a terra, mas pertence à ordem das coisas celestes; e com toda a razão: pois não foi homem, nem anjo, nem arcanjo, nem qualquer outro poder criado, mas o próprio Paráclito quem instituiu este ministério.
— São João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio, III, 4
O Paráclito é o Espírito Santo. O ministério acontece na terra, com homens frágeis, mas sua origem não é uma decisão administrativa.
Crisóstomo continua:
A alma do sacerdote deveria ser mais pura que os próprios raios do sol, para que o Espírito Santo nunca o deixe desamparado.
— São João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio, VI, 2
Notem do que ele não fala. Não fala de popularidade, carisma de palco ou capacidade de reunir seguidores. Fala de pureza da alma.
A arte das artes
Roma, ano 590. A cidade enfrenta peste, fome e invasões. Um monge chamado Gregório é retirado do mosteiro e feito Papa contra a vontade.
Logo no início escreve a Regra Pastoral, livro que formaria pastores por mais de mil anos. A abertura é uma advertência contra o improviso:
A arte das artes é o governo das almas.
— São Gregório Magno, Regra Pastoral, I, 1
E explica:
Ninguém presume ensinar uma arte sem antes tê-la aprendido com meditação atenta.
— São Gregório Magno, Regra Pastoral, I, 1
Ninguém aceitaria um cirurgião que nunca estudou medicina. Gregório pergunta por que alguém se atreveria a cuidar de almas sem oração, doutrina, prudência e conhecimento das pessoas.
Ele também ensina que não se fala do mesmo modo com todos. O desanimado precisa de uma palavra; o arrogante, de outra. O pobre e o rico, o casado e o solteiro, o jovem e o idoso não carregam as mesmas perguntas. O pastor não muda a verdade. Aprende a entregá-la de modo que cada pessoa consiga ouvi-la.
Pouco antes, em Milão, Santo Ambrósio havia vivido outro começo improvável. Era governador e ainda catecúmeno — nem sequer havia sido batizado — quando o povo o aclamou bispo. Foi batizado e consagrado em poucos dias. Depois escreveu Sobre os Deveres do Clero e confessou:
Fui arrancado do tribunal e das insígnias do cargo para o sacerdócio, e comecei a ensinar-vos aquilo que eu mesmo ainda não havia aprendido.
— Santo Ambrósio, Sobre os Deveres do Clero, I, 1
Deus não espera pessoas prontas. Chama pessoas disponíveis — e depois as forma. Mas disponibilidade não é desculpa para permanecer despreparado. Quem é chamado começa a estudar, rezar e deixar-se corrigir.
Ambrósio desce até uma disciplina que vale para todo ministro — e para todo catequista:
Quantos vi caírem em pecado por falar, e quase nenhum por calar; por isso é mais difícil saber calar do que saber falar.
— Santo Ambrósio, Sobre os Deveres do Clero, I, 5
Quem recebe autoridade para falar em nome da Igreja precisa aprender também a hora de escutar, a hora de guardar confidência e a hora de não transformar opinião pessoal em ensinamento de Cristo.
Celibato: o que é e o que não é
O celibato não é dogma. É uma disciplina da Igreja latina. Nas Igrejas Católicas orientais, homens casados podem ser ordenados padres; no rito latino, homens casados podem ser ordenados diáconos permanentes (CIC 1580).
Também não é desprezo pelo Matrimônio. A mesma Igreja chama o casamento de sacramento. Nem é explicação suficiente para os crimes de abuso: violência sexual existe em ambientes onde não há celibato. O abuso é perversão de poder e de sexualidade, e deve ser enfrentado com proteção das vítimas, investigação e justiça.
Então por que a Igreja latina preserva o celibato dos padres?
Primeiro: configuração a Cristo. Jesus viveu celibatário. O padre é chamado a tornar visível a forma de vida do próprio Pastor.
Segundo: coração indiviso. São Paulo observa que quem não é casado pode dedicar-se de maneira particular às coisas do Senhor (cf. 1Cor 7,32-35). Um padre precisa estar disponível para uma família que o chama de madrugada, para uma comunidade que não escolheu e para uma missão que pode mudar de cidade.
Terceiro: sinal do mundo futuro. Jesus ensina que, na ressurreição, não haverá Matrimônio (Mt 22,30). O celibatário lembra, com o corpo, que a vida presente não é tudo e que Deus pode preencher inteiramente um coração humano.
Celibato não significa não amar. Significa amar de modo não exclusivo uma família espiritual inteira. Isso só é possível como dom e disciplina. Sem oração, amizade saudável, vida comunitária e maturidade afetiva, o celibato pode virar isolamento. A formação precisa cuidar do homem inteiro, não apenas de suas notas.
Como discernir uma vocação à Ordem
Talvez alguém esteja pensando: “Como saber se Deus me chama?”
O chamado costuma aparecer como uma atração persistente: desejo de celebrar os sacramentos, anunciar a Palavra, acompanhar pessoas e entregar a vida à Igreja. Não é necessário sentir certeza absoluta desde o primeiro dia. É necessário ter coragem para investigar.
Algumas perguntas ajudam.
A ideia volta quando você reza? Não apenas quando vê um padre admirado, mas também depois que a emoção passa?
Você ama a Igreja real? Não uma Igreja imaginária, sem defeitos, mas este povo concreto, que às vezes cansa e decepciona?
Existe capacidade de servir e obedecer? O padre não escolhe sozinho onde vai morar nem faz apenas o trabalho de que gosta.
Há liberdade afetiva? Seminário não é fuga de uma desilusão amorosa, de conflito familiar, da própria sexualidade ou do medo de formar uma família.
Pessoas maduras reconhecem sinais desse chamado? A vocação é pessoal, mas é confirmada pela Igreja. Ninguém se ordena a si mesmo.
O próximo passo não é anunciar ao mundo que será padre. É conversar com o pároco ou com o responsável vocacional da diocese, aprofundar a oração e permitir que a Igreja ajude a discernir.
E uma palavra às famílias: não peçam vocações apenas nas intenções da Missa e depois entrem em pânico quando um filho manifesta interesse. Se o sacerdócio é um dom para a Igreja, pode ser um dom saído da sua casa.
Como amar — e como cobrar — os padres
Rezem pelo padre da paróquia pelo nome. Uma Ave-Maria diária já cria fidelidade. Digam que estão rezando; muitos vivem solidão e cansaço que quase ninguém percebe.
Não façam fofoca. Se existe um problema, conversem diretamente com ele quando for adequado. Se o fato for grave ou persistente, procurem o bispo ou os canais responsáveis, com dados concretos. Silenciar abuso não é lealdade. Espalhar suspeita sem prova também não é justiça.
E cobrem aquilo que deve ser cobrado: horário acessível de Confissão, homilia preparada, sacramentos celebrados com dignidade, transparência administrativa, cuidado dos pobres e catequese fiel.
O próprio Jesus mandou pedir vocações: “A messe é grande, mas os operários são poucos. Rogai ao Senhor da messe que envie operários” (Mt 9,37-38). Mas rezar por vocações e nunca apresentar esse caminho a um jovem é rezar de boca fechada.
Duas objeções
“Depois de tantos escândalos, como confiar em padres?”
Não se deve confiar cegamente em nenhum ser humano. A Igreja precisa de regras, prestação de contas e proteção efetiva dos vulneráveis. Ao mesmo tempo, o pecado de um ministro não apaga Cristo nem torna todos culpados. Justiça nomeia responsáveis; preconceito condena um grupo inteiro. Procure uma comunidade séria, denuncie o que deve ser denunciado e não abandone os sacramentos por causa de quem os traiu.
“Se sinto medo, significa que não tenho vocação?”
Não. João Crisóstomo fugiu porque sentiu o peso. O medo pode revelar lucidez. O que precisa ser examinado é se, debaixo dele, existe um desejo estável de entrega. Coragem não é ausência de medo. É dar o próximo passo certo apesar dele.
Para viver
- Reze pelo pároco pelo nome, todos os dias desta semana, e ofereça por ele uma pequena renúncia.
- Leia 1Timóteo 3,1-13 e anote as qualidades humanas e espirituais que Paulo exige dos ministros.
- Convide um padre ou diácono para contar sua vocação ao grupo, incluindo dúvidas, formação e dificuldades reais.
- Fale de vocação com um jovem da família. Diga explicitamente que sacerdócio e vida consagrada podem ser vidas felizes e fecundas.
- Se o chamado à Ordem volta ao seu coração, marque uma conversa com o pároco ou com a pastoral vocacional. Não prometa nada; apenas pare de fugir da pergunta.
Para rezar
Senhor Jesus, sumo e eterno Sacerdote, que escolheste homens frágeis para levar tua Palavra, teu Corpo e teu perdão ao povo: dá à tua Igreja ministros santos.
Sustenta os que estão cansados. Converte os que se perderam. Consola os que se sentem sozinhos. Dá justiça às vítimas feridas pelos teus ministros e coragem à Igreja para nunca esconder a verdade.
Chama entre nós aqueles que quiseres para o altar. Dá-lhes liberdade para responder, humildade para aprender, pureza de coração e amor pelo povo real que lhes será confiado.
E faz de todos nós um povo sacerdotal: que ofereça o trabalho, a família, a dor e a alegria unidos ao teu sacrifício.
Senhor da messe, envia operários para a tua messe. Amém.
São João Maria Vianney, rogai por nossos padres. São João Crisóstomo e São Gregório Magno, rogai por nossos pastores.