Corinto. Por volta do ano 96.

Três homens desembarcam no porto trazendo uma carta de Roma. Dois deles são velhos — chamam-se Cláudio Efebo e Valério Bíton — e atravessaram o Adriático em plena estação ruim por causa de um assunto que hoje seria descrito num grupo de WhatsApp com uma palavra só: “confusão na paróquia”. Foi isso que aconteceu em Corinto. Um grupo de gente mais nova se levantou contra os presbíteros, depôs homens que tinham servido sem culpa durante anos — e a igreja fundada por São Paulo rachou ao meio.

Reparem bem na data. Ainda estamos no primeiro século. O apóstolo João provavelmente ainda está vivo em Éfeso. E a comunidade de Corinto — a mesma a quem Paulo escrevera, quarenta anos antes, o hino do amor que se lê em todos os casamentos — está brigando feio o bastante para que a igreja de Roma mande embaixadores e uma carta de sessenta e cinco capítulos. Essa carta, a Primeira Epístola aos Coríntios de São Clemente de Roma, é o documento cristão mais antigo que temos fora do Novo Testamento. E o assunto dela é o quê? Gente de Igreja que não consegue se suportar.

Guardem isso, porque é a chave de tudo o que vamos dizer hoje. A Igreja nunca foi um clube de pessoas que se davam bem. Foi, desde o primeiro dia, um povo reunido por Deus e formado por gente difícil — e é dentro desse povo, não apesar dele, que Deus salva. Quem espera uma comunidade limpa para então se comprometer vai esperar até o Juízo.

Ninguém crê sozinho: por que a fé é “nossa” antes de ser “minha”

Existe um mito muito confortável na cabeça do adulto de hoje: o de que a fé é uma questão íntima, resolvida entre mim e Deus, e que a Igreja é um serviço opcional para quem gosta de reunião. É falso já no nível humano — “a pessoa humana necessita da vida social; esta não constitui para ela algo de sobreposto, mas uma exigência de sua natureza” (CIC 1879). Você não aprendeu a falar sozinho. Não aprendeu a amar sozinho. E não vai aprender a crer sozinho.

Mas o argumento cristão é mais forte que isso. O Catecismo enfrenta a questão de frente: “A fé é um ato pessoal: é a resposta livre do homem à iniciativa de Deus que se revela. Mas a fé não é um ato isolado. Ninguém pode crer sozinho, assim como ninguém pode viver sozinho” (CIC 166). E logo em seguida explica de onde a sua fé veio, na prática: “É a Igreja que crê primeiro, e assim conduz, alimenta e sustenta minha fé” (CIC 168). Pensem concretamente. Quem falou de Cristo a vocês pela primeira vez? Quem ensinou a fazer o sinal da cruz? Quem guardou os Evangelhos por vinte séculos, copiando-os à mão em mosteiros gelados, para que vocês pudessem abri-los no celular? Vocês não inventaram nada disso.

Vocês receberam.

Por isso a Igreja reza de dois modos: o “Creio” do Símbolo dos Apóstolos é a fé da Igreja professada pessoalmente por cada crente, sobretudo no Batismo; o “Cremos” é a fé da Igreja confessada em conjunto, sobretudo na liturgia (cf. CIC 167). Quando você diz “creio” na Missa de domingo, não anuncia uma opinião particular — entra numa confissão que já era feita antes de você nascer e continuará depois que você morrer. E crer na Igreja não é apêndice do Credo: “Crer que a Igreja é ‘Santa’ e ‘Católica’ e que é ‘Una’ e ‘Apostólica’ é inseparável da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (CIC 750).

Santo Inácio de Antioquia — o velho acorrentado, pela última vez nesta caminhada — escreveu pelo caminho sete cartas às comunidades que encontrou. Na que enviou aos cristãos de Éfeso, ele usa uma imagem musical que diz tudo. Escutem:

O vosso presbitério, digno de Deus, está afinado com o bispo como as cordas com a cítara. Por isso, na vossa concórdia e no vosso amor harmonioso, Jesus Cristo é cantado. E vós, um a um, tornai-vos coro, para que, em harmonia de concórdia, tomando em uníssono a melodia de Deus, canteis a uma só voz ao Pai por Jesus Cristo.

— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, cap. 4

Reparem no detalhe técnico: uma corda sozinha, por mais bem tocada que seja, não faz acorde. Só produz música quando está afinada em relação às outras. E a afinação não é restrição — é o que a torna capaz de soar. A pessoa que diz “eu tenho a minha espiritualidade, não preciso de igreja” é uma corda solta na caixa do instrumento. Pode vibrar. Mas ninguém a ouve — e ela mesma não sabe se está no tom.

A comunidade tem endereço: a paróquia

Comunidade cristã não é um conceito. É um lugar com CEP. O Catecismo define a paróquia como “uma determinada comunidade de fiéis constituída estavelmente na Igreja particular, cujo cuidado pastoral é confiado ao pároco, como a seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano” (CIC 2179). E diz o que ela faz: é onde todos são reunidos para a Eucaristia dominical, onde o povo cristão é iniciado na vida litúrgica, onde se ensina a doutrina de Cristo e se pratica a caridade em obras fraternas.

Notem as três colunas: liturgia, catequese, caridade. Uma paróquia que celebra bem e não serve os pobres virou espetáculo. Uma que serve os pobres e não celebra virou ONG. As três juntas, ao redor da Eucaristia — é isso que faz a casa.

E é preciso desmontar aqui um vício muito nosso: tratar a paróquia como posto de serviços religiosos. Vou lá quando preciso do batizado do neto, da certidão, da missa de sétimo dia — e o resto do ano ela que se vire. Isso é consumo, não pertença. A comunidade cristã do primeiro século não funcionava assim, e o mesmo Inácio de Antioquia explica por quê:

Procurai reunir-vos com mais frequência para a Eucaristia e para o louvor de Deus. Porque, quando vos reunis com frequência, as forças de Satanás são destruídas, e a ruína que ele trama se desfaz pela concórdia da vossa fé.

— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, cap. 13

Inácio não está dizendo que a reunião é agradável. Nem que faz bem ao humor. Está dizendo que a assembleia cristã desarma um inimigo. O demônio trabalha por isolamento — é a tática mais antiga do manual: separar a ovelha do rebanho e depois convencê-la de que ninguém sentiu falta dela. E reparem: quem some da comunidade raramente perde a fé numa crise dramática. Perde por evaporação. Um domingo de cada vez. E o mesmo Inácio observa, no capítulo 5 da carta, que se a oração de um ou dois já tem tanta força, muito mais a de toda a Igreja reunida.

Por isso, se vocês saírem daqui hoje com uma só decisão prática, que seja esta: escolham uma comunidade concreta e apareçam nela toda semana. Mesmo sem vontade. Mesmo quando a homilia for fraca. Mesmo quando o coro desafinar. Fidelidade não se mede em picos de entusiasmo. Mede-se em presenças repetidas.

Você recebeu um dom, e ele não é seu

Agora vem a parte que muita gente adulta não acredita ao ouvir pela primeira vez: você tem alguma coisa de que a comunidade precisa. Não é retórica motivacional. É doutrina. São Paulo escreveu que “a cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (1Cor 12,7). A cada um. Sem exceção e sem currículo.

O Catecismo chama isso de carismas: “Extraordinários ou simples e humildes, os carismas são graças do Espírito Santo que, direta ou indiretamente, têm uma utilidade eclesial, ordenadas que são à edificação da Igreja, ao bem dos homens e às necessidades do mundo” (CIC 799). O critério de autenticidade de um dom não é como ele faz você se sentir — é o que ele constrói nos outros. E há um freio necessário: os carismas exigem discernimento, e “nenhum carisma dispensa da referência e da submissão aos pastores da Igreja” (CIC 801). Dom verdadeiro edifica e obedece. Dom falso divide e se exibe.

Foi sobre isso que Clemente escreveu aos coríntios. Diante de uma comunidade onde os mais capazes desprezavam os menos capazes e os mais novos queriam derrubar os mais velhos, ele recorre à imagem que Paulo já usara naquela mesma cidade:

Tomemos o nosso corpo como exemplo. A cabeça nada é sem os pés, e os pés nada são sem a cabeça; e os menores membros do nosso corpo são necessários e úteis ao corpo inteiro. Mas todos trabalham em harmonia e se submetem a uma só ordem, para a conservação de todo o corpo.

— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, cap. 37

E, na mesma passagem, a frase que devia estar escrita na porta de toda sacristia: o grande não pode subsistir sem o pequeno, nem o pequeno sem o grande.

Traduzindo: a senhora que limpa a igreja na sexta-feira à tarde não é o degrau de baixo de uma escada que termina no pároco. Ela é um órgão do mesmo corpo — e o corpo adoece se ela parar. O mesmo vale para quem toca, quem lê, quem recebe na porta, quem organiza a fila da sopa, quem cuida das contas, quem visita doente, quem reza pela paróquia sem sair de casa porque não anda mais. Não existe cristão de arquibancada. Existe cristão que ainda não descobriu qual é o seu órgão.

Clemente lembra ainda aos coríntios como eles eram antes da briga, e o retrato é constrangedoramente bonito: eram todos humildes, sem nenhuma soberba, obedecendo mais do que mandando, e dando com mais alegria do que recebendo (cap. 2). Agora façam o teste — em silêncio, cada um por si: na sua relação com a Igreja, você tem sido alguém que dá, ou alguém que cobra? A resposta define se você é membro ou cliente.

Os leigos e o mundo: santificar por dentro

Há um engano que atravessa gerações: pensar que “trabalhar para a Igreja” significa trabalhar dentro do templo. É meia verdade — e a metade que falta é a maior. O Catecismo define os leigos como os fiéis que, incorporados a Cristo pelo Batismo, participam à sua maneira do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo e exercem a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo (cf. CIC 897). E delimita o campo próprio: “Aos leigos pertence, por vocação própria, procurar o Reino de Deus, gerindo os assuntos temporais e ordenando-os segundo Deus” (CIC 898).

Ou seja: o seu escritório é território de missão. A sua obra. O seu consultório. A sua sala de aula, a sua loja, o seu grupo de amigos. É ali que a maior parte da evangelização do mundo tem de acontecer — porque é ali que você está e o padre não está. O Catecismo é explícito: a iniciativa dos leigos é particularmente necessária para descobrir os meios de impregnar de exigências cristãs as realidades sociais, políticas e econômicas (cf. CIC 899). Ninguém vai fazer isso por você.

E aqui volta o texto mais elegante de toda a literatura cristã antiga — a Epístola a Diogneto, que já nos acompanhou na aula passada. Um autor anônimo do século II explica a um pagão curioso quem eram aqueles cristãos de quem tanto se falava. E a resposta desmonta qualquer ideia de gueto religioso:

Os cristãos não se distinguem dos outros homens nem por região, nem por língua, nem pelos costumes. Não habitam cidades próprias, não usam um falar diferente, não levam um gênero de vida excêntrico. Habitando cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e seguindo os costumes locais no vestir, no comer e no resto do viver, mostram um modo de vida admirável e reconhecidamente extraordinário. Habitam a própria pátria, mas como peregrinos. Como cidadãos, participam de tudo; como estrangeiros, tudo suportam.

Epístola a Diogneto, cap. 5

Nenhuma roupa especial. Nenhum bairro separado. Nenhum dialeto próprio. Indistinguíveis por fora — completamente distintos por dentro. E o autor chega então à imagem que ficou célebre:

O que a alma é no corpo, isso os cristãos são no mundo. A alma está espalhada por todos os membros do corpo, e os cristãos, por todas as cidades do mundo.

Epístola a Diogneto, cap. 6

E remata dizendo que os cristãos estão retidos no mundo como numa prisão, e são justamente eles que conservam o mundo. Pensem na alma: ela não faz barulho, não aparece em nenhuma radiografia — e sem ela o corpo é um cadáver. Essa é a sua função onde você trabalha. Não fazer proselitismo no expediente. Ser aquele que não mente no relatório. Que não humilha o subordinado. Que não entra na conversa suja. Que trata o entregador pelo nome. Invisível e indispensável — exatamente como uma alma.

A comunidade real: conflito, fofoca e panelinhas

Agora chegamos ao ponto em que todo mundo aqui já se machucou. Porque a comunidade concreta é feita de pecadores — e dói.

A fofoca é o pecado mais praticado e menos confessado das nossas paróquias. Chega no confessionário disfarçada de “desabafo”, de “preocupação com o irmão”, de “só estou comentando”. O Catecismo não deixa espaço para essa maquiagem: fala do juízo temerário, da maledicência — revelar sem motivo válido os defeitos alheios a quem não os conhecia — e da calúnia (cf. CIC 2477). E dá a regra de ouro do trato entre irmãos: “todo cristão deve esforçar-se por interpretar, o quanto possível, no bom sentido os pensamentos, palavras e ações do próximo” (CIC 2478). O quanto possível. Não quando for fácil. Não quando a pessoa merecer.

A panelinha é o outro veneno. Nasce quando um grupo que serve junto confunde serviço com propriedade — “a pastoral é nossa”, “esse horário é meu”, “quem entrou depois que espere a vez”. Foi isso que rachou Corinto. E a solução que Clemente propõe é tão radical que arde. Escutem:

Quem entre vós é generoso? Quem é compassivo? Quem está cheio de caridade? Que diga: se por minha causa houve revolta, discórdia e cismas, eu me retiro, vou para onde quiserdes e farei o que o povo mandar; contanto que o rebanho de Cristo viva em paz com os presbíteros que lhe foram dados.

— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, cap. 54

Escutem de novo, devagar. O critério cristão de grandeza não é ter razão. É estar disposto a perder posição para que a paz permaneça. Quantas brigas de pastoral acabariam se uma pessoa — uma só — dissesse isso em voz alta numa reunião?

Mas caridade não é omissão, e a Igreja nunca pregou o silêncio covarde diante do erro. Jesus deu um procedimento em três passos: “se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo a sós, entre ti e ele. Se te ouvir, ganhaste teu irmão. Se não te ouvir, leva contigo mais uma ou duas pessoas… Se recusar ouvi-los, dize-o à Igreja” (Mt 18,15-17). Reparem na ordem: primeiro a sós. Não no grupo. Não com indireta postada. Nove em cada dez conflitos morreriam ali, se tivéssemos coragem para essa conversa. E o que fazemos é o inverso exato: falamos com todo mundo — menos com a pessoa.

E, quando a ferida já existe, resta o perdão — que não é sentimento. É decisão. O Catecismo é de uma honestidade rara: “Não está em nosso poder não mais sentir a ofensa e esquecê-la; mas o coração que se oferece ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão” (CIC 2843). Você não precisa sentir que perdoou. Precisa começar a rezar pela pessoa. O sentimento vem depois — ou não vem. E o perdão vale do mesmo jeito.

Clemente resume tudo numa página sobre a caridade que parece escrita por Paulo:

O amor cobre a multidão dos pecados. O amor tudo suporta, tudo tolera. Nada há de baixo no amor, nada de arrogante. O amor não conhece cisma, o amor não provoca revoltas, o amor tudo faz na concórdia.

— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, cap. 49

A torre e as pedras que não encaixam

Vocês lembram de Hermas — o da torre, da aula da Confissão? Ele volta agora, e desta vez a visão inteira é para nós. Por volta do mesmo período, esse cristão de Roma — provavelmente um escravo liberto — escreveu o livro O Pastor, cheio de visões. Numa delas, uma senhora de idade, que é a própria Igreja, lhe mostra uma construção:

Não vês diante de ti uma grande torre, edificada sobre as águas, com pedras quadradas e resplandecentes? As pedras tiradas do fundo eram todas colocadas na construção; e, tendo sido polidas, encaixavam-se de tal modo umas nas outras que nem se viam as junturas.

— Hermas, O Pastor, Visão 3, cap. 2

A torre é construída sobre as águas — as águas do Batismo — e Hermas pergunta o que ela significa. A resposta é direta: a torre que vês construir sou eu, a Igreja (Visão 3, cap. 3). Você é uma pedra dessa obra. E nem todas as pedras entram do mesmo jeito.

Algumas são tiradas do fundo do mar, polidas, e encaixam tão bem que a junta desaparece — são os que viveram em concórdia e sofreram pelo Senhor. Outras chegam rachadas, e o pedreiro as põe de lado. Outras caem perto da água e não conseguem rolar até ela — são os que gostariam de se converter mas não se decidem, e ficam a vida inteira na beira. E há um grupo curioso: pedras brancas e bonitas, mas redondas — que não servem justamente porque não têm ângulo, não fazem canto, não travam com as vizinhas. O anjo explica:

Assim como a pedra redonda não pode tornar-se quadrada sem que se lhe corte e retire alguma coisa, também os que são ricos neste mundo não podem ser úteis ao Senhor se não lhes forem cortadas as riquezas.

— Hermas, O Pastor, Visão 3, cap. 6

Guardem esta imagem, porque ela resolve duas coisas de uma vez.

Primeira: paciência com você mesmo. Você é uma pedra sendo aparada. Aquilo que dói na convivência — ceder um horário, engolir uma decisão que você acha errada, conviver com alguém de temperamento insuportável — muitas vezes é exatamente o cinzel. Ninguém entra numa parede sem perder canto. Se você só aceita comunidades que não lhe custam nada, vai continuar redondo e bonito a vida inteira. E fora da construção.

Segunda: paciência com os irmãos. Hermas nota que as pedras postas ao lado da torre, e não jogadas longe, são as dos que pecaram e querem se converter: continuam ali perto porque ainda podem servir, se mudarem enquanto a obra está em andamento. Olhem para o banco ao lado no domingo. Há gente rachada. Gente redonda. Gente que range alto no processo. E você é uma delas. Enquanto a torre não está pronta, ninguém é caso perdido.

A comunhão dos santos: a economia invisível

Existe uma dimensão da vida em comunidade que não se vê na reunião de pastoral — e que é talvez a maior de todas. A Igreja a chama de comunhão dos santos: “Como todos os fiéis formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros… Deve-se, pois, crer que existe uma comunhão de bens na Igreja” (CIC 947).

Uma comunhão de bens. Bens espirituais que circulam. O Catecismo detalha: comunhão na fé, que não diminui quando é partilhada; comunhão nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia; comunhão dos carismas e dos bens materiais; comunhão na caridade (cf. CIC 949-953). E então vem a afirmação mais impressionante: “o menor de nossos atos feito na caridade repercute em benefício de todos” (CIC 953).

Entendam o alcance disso. A Missa que você reza pela sua mãe doente não é só uma boa intenção: entra num circuito. A esmola dada em silêncio, a noite mal dormida oferecida, a tentação vencida sem plateia — tudo isso é injetado num sistema que atravessa o tempo e a morte, e do qual fazem parte os santos do céu, as almas que se purificam e nós que ainda caminhamos. Você não sabe quem foi sustentado hoje pela sua oração. Nem quem rezou por você quando você não conseguia rezar.

Clemente termina a sua carta com uma longa oração de intercessão — pede a Deus que seja o auxílio e o amparo de todos, que salve os que estão na tribulação, tenha piedade dos humildes e levante os caídos (cap. 59). Vamos rezá-la juntos daqui a pouco. Mas notem desde já o que ele faz: reza pelos que o estavam desobedecendo. É esse o antídoto contra o ressentimento eclesial. É muito difícil continuar odiando alguém por quem você reza todos os dias pelo nome.

“Vede como se amam”

Tertuliano, escrevendo por volta do ano 197, registrou com evidente orgulho a frase que os pagãos diziam ao observar as comunidades cristãs: vede como se amam. Reparem: não era elogio à doutrina. Nem à liturgia. Era espanto diante de um fato social — pobres e ricos, escravos e senhores, sentando à mesma mesa e cuidando uns dos outros. Foi assim que o cristianismo conquistou o Império. Não por argumento. Por evidência.

E é assim ainda hoje. Jesus não disse “por isto conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes os argumentos certos”. Disse: “por isto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). A qualidade das relações dentro da comunidade é a nossa apologética mais forte — e o nosso escândalo mais grave. Quem vem de fora, cansado e desconfiado, decide em três domingos se aquilo é família ou clube.

Por isso vale trazer aqui outra frase de Inácio, curta como um golpe:

É melhor calar-se e ser cristão do que falar e não o ser.

— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, cap. 15

Uma comunidade que fala muito de amor e trata mal os seus é pior do que uma comunidade silenciosa. E escutem esta, porque é prática: se você tiver de escolher entre defender a fé nas redes sociais e perdoar a pessoa da sua pastoral que te magoou — escolha a segunda. Evangeliza mais.

Duas objeções honestas

“Eu gosto de Deus, mas as pessoas da Igreja me decepcionam.” É a objeção mais comum entre adultos, e merece resposta séria, não piada.

Primeiro: sim, elas decepcionam. E vão continuar decepcionando. Não são só os leigos — houve papas indignos, bispos covardes, padres que cometeram crimes hediondos. A Igreja nunca escondeu isso na sua doutrina, ainda que às vezes o tenha escondido nos seus arquivos: o Catecismo confessa que ela é “ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, procurando sem cessar a penitência e a renovação” (CIC 827). Quem prometeu a vocês uma Igreja de puros mentiu — e não foi Cristo, que escolheu doze e teve um traidor, um negador e dez que fugiram.

Segundo: pensem no que essa objeção supõe. Que você viria à Igreja pelas pessoas. Mas você não vem pelas pessoas — vem por Cristo, que está ali no sacrário e no altar independentemente do caráter de quem está no banco ao lado ou no presbitério. Se a Eucaristia dependesse da santidade do celebrante, nenhum de nós teria certeza de nada. O tesouro está em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7) — e os vasos são feios de propósito, para que ninguém confunda o barro com o tesouro.

Terceiro, o mais duro: você é uma dessas pessoas para alguém. Alguém já saiu magoado de uma conversa sua. Alguém já se escandalizou com a sua língua, com a sua frieza, com o seu carro na vaga de idoso na porta da matriz. A comunidade não é um público que você avalia. É um espelho em que você aparece. Hermas diria: somos todos pedras redondas achando que o problema é a parede.

“Eu não tenho tempo nem perfil para pastoral.” É verdade que muita gente se afoga em atividades paroquiais e abandona a própria família — inversão grave, porque a primeira comunidade que você tem de santificar mora na sua casa. Mas ninguém está pedindo que você presida um conselho. Serviço começa pequeno: levar a comunhão a um doente uma vez por mês, dar carona a uma senhora, arrumar a instalação elétrica da capela, cuidar das contas com honestidade, rezar por nome pelos que servem. Quanto ao “perfil”: Clemente já disse que os menores membros do corpo são necessários. Deus não recruta currículos. Recruta disponibilidades.

O envio: a comunidade não é abrigo, é base

Terminamos com o ponto que dá sentido a todo o resto — e ele muda a direção da nossa cadeira. A comunidade cristã não existe para nos proteger do mundo. Existe para nos lançar nele.

As últimas palavras de Jesus antes de subir ao céu não foram “fiquem juntos e se cuidem”. Foram: “ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). E, se você foi batizado, essa ordem tem o seu nome. Os leigos cumprem a missão profética “pela evangelização, isto é, o anúncio de Cristo feito pelo testemunho da vida e pela palavra”, e nos leigos ela adquire “uma característica específica e uma eficácia particular pelo fato de realizar-se nas condições comuns do século” (CIC 905). Nas condições comuns do século. No seu horário de almoço. No grupo da família.

E o Catecismo liga isso à sua vida moral: “A fidelidade dos batizados é uma condição primordial para o anúncio do Evangelho e para a missão da Igreja no mundo” (CIC 2044). Acrescenta que os cristãos edificam a Igreja “pela firmeza de suas convicções e de seus costumes” (CIC 2045) e que, vivendo conforme o Senhor Jesus, “apressam a vinda do Reino de Deus” (CIC 2046). Escutem isso: você apressa o Reino. É essa a dignidade do batizado. E é essa a conta que será pedida.

Este ano de catequese está terminando, e existe um risco que todo catequista conhece de cor: receber o sacramento e sumir. A Crisma como linha de chegada em vez de linha de partida. Por isso o pedido de hoje é concreto: escolha um lugar de serviço nesta paróquia antes do fim do mês. Não para “ajudar a Igreja”, como quem faz um favor. Para não ficar de fora daquilo para o que Deus te fez.

Para viver

  1. Escolha uma pastoral e vá a uma reunião esta semana. Uma só. Sem compromisso de assinar nada — mas vá de fato, com nome e horário anotados hoje.
  2. Reze todos os dias pelo nome por alguém da comunidade que te irrita ou te magoou. Trinta dias seguidos. Não peça que a pessoa mude; peça o bem dela.
  3. Corte uma fofoca esta semana. Quando a conversa virar para os defeitos de alguém, mude de assunto ou diga com calma: “prefiro não falar disso sem ele aqui”. Vai custar; é o cinzel.
  4. Faça a conversa que você está evitando. Se há alguém com quem você tem uma pendência, siga Mt 18,15: a sós, primeiro, sem plateia e sem indireta.
  5. Adote uma pessoa esquecida da comunidade — um doente, um viúvo, alguém que parou de vir. Uma visita ou um telefonema por mês, começando esta semana. E assuma o dízimo como decisão consciente, parte da comunhão de bens (cf. CIC 952), não como troco de bolso.

Para rezar

Rezemos juntos, com as palavras que Clemente de Roma dirigiu a Deus quando a comunidade dele estava rachada:

Senhor, sê o nosso auxílio e o nosso amparo. Salva os que entre nós estão na tribulação, tem piedade dos humildes, levanta os caídos.

Pai santo, tu que dos muitos fazes um só corpo: afina-nos como cordas de uma cítara, para que a nossa vida cante uma só melodia diante de ti. Dá-nos paciência com os irmãos que ainda estão sendo aparados, e humildade para aceitar os cortes que faltam em nós. Cura a nossa língua, guarda os nossos pastores, e não permitas que ninguém saia desta casa por causa da nossa dureza. Faz de nós, no mundo, o que a alma é no corpo. E envia-nos, Senhor — porque não nos reuniste para nos escondermos, mas para que o mundo creia. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Nossa Senhora, Mãe da Igreja, que perseveraste em oração no meio dos Apóstolos (cf. At 1,14), rogai por esta comunidade.

Referências desta aula