Manhã de encerramento — Confissão dos crismandos, Ritos da Iniciação Cristã e Batismo de adultos
A manhã que coroa o caminho: confissões, ritos preparatórios e batismo dos catecúmenos adultos.
Cartago, província romana da África. Começo do ano 203.
Numa cela imunda, escura e superlotada, uma jovem de vinte e dois anos amamenta o filho de poucos meses. Chama-se Víbia Perpétua. É de família nobre. Tem instrução. Tem um pai que a ama desesperadamente — e que já veio três vezes implorar que ela desista. Foi presa com um grupo de companheiros; entre eles, Felicidade, uma escrava grávida de oito meses.
E há um detalhe que não podemos perder de vista, porque é a razão de esta história abrir a nossa última manhã: quando foram presos, Perpétua e os seus companheiros ainda eram catecúmenos. Não estavam batizados. Estavam exatamente no ponto em que muitos de vocês estão hoje. No meio do caminho. Preparando-se.
Numa das primeiras cenas do diário que ela mesma escreveu — o texto mais antigo que temos redigido por uma mulher cristã —, o pai tenta convencê-la, e ela responde apontando para um objeto no chão:
Pode este vaso ser chamado por outro nome que não seja o que ele é? … Também eu não posso chamar-me outra coisa senão o que sou: cristã.
— Martírio de Perpétua e Felicidade, cap. 1
Poucos dias depois, ainda presos, foram batizados. Perpétua registra que, ao descer àquela água, o Espírito lhe sugeriu que não pedisse dali nenhum outro dom senão a resistência da carne. Ela sabia para o que estava sendo batizada. E logo em seguida escreve a frase que atravessa dezoito séculos e chega inteira a esta sala:
O cárcere tornou-se para mim como que um palácio, e eu preferia estar ali a estar em qualquer outro lugar.
— Martírio de Perpétua e Felicidade, cap. 1
Hoje não é dia de aula. Hoje é dia de dizer sim. Vamos passar esta manhã fazendo, e não estudando: confessando, rezando, entendendo os ritos que em breve serão celebrados sobre vocês, e sendo enviados. Este roteiro acompanha a manhã inteira, momento por momento. Leiam devagar, com a caneta na mão.
Momento 1 — Acolhida e retrospectiva do ano
Começamos como a Igreja começa tudo: com o Sinal da Cruz feito devagar, e com a invocação do Espírito Santo — “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis”. Sem ele, esta manhã é um evento. Com ele, é um sacramento acontecendo.
Agora peguem o papel. Na segunda aula do ano, no dia do anúncio do querigma, cada um de vocês escreveu duas coisas: o que eu vim buscar aqui e o que descobri que Deus quer me dar. Combinamos que releríamos no fim.
O fim é hoje.
Leiam em silêncio o que escreveram há meses. E depois respondam a três perguntas, também por escrito, porque escrever obriga a ser honesto:
- O que mudou? Não o que você aprendeu — o que mudou. Um hábito, uma relação, uma decisão, um medo.
- Onde Deus falou mais alto? Alguma aula, alguma frase de um santo, alguma Missa, alguma noite. Marque o lugar; será o seu marco.
- O que ainda está travado? O ponto em que você sabe o que Deus quer e ainda não entregou. Escreva com todas as letras — daqui a pouco você vai levá-lo ao confessionário.
Cirilo de Jerusalém fazia exatamente isso com os candidatos ao Batismo, na Quaresma do ano 350. No discurso de abertura das suas catequeses, ele avisava que a hora era de decisão real, não de formalidade, e usava um exemplo tirado dos Atos dos Apóstolos — Simão, o mago, que se fez batizar sem se converter:
Foi batizado, mas não foi iluminado; mergulhou o corpo na água, mas não iluminou o coração.
— São Cirilo de Jerusalém, Procatequese, 2
É a advertência mais séria desta manhã. E ela não é para os outros. Dá para atravessar um ano inteiro de catequese, receber a Crisma, tirar a foto — e continuar exatamente o mesmo homem. Molhando o corpo. Deixando o coração apagado. Cirilo dizia também que Deus não busca de nós outra coisa senão uma intenção reta, e que, se os lábios se dizem dispostos enquanto o coração cala, aquele que conhece os corações não se engana (cf. Procatequese, 8). Ninguém aqui engana Deus. É por isso que o próximo momento é o mais importante da manhã.
Momento 2 — A meditação que prepara a Confissão
Antes de irmos aos padres, é preciso entender bem o que vai acontecer — sobretudo quem está afastado há anos e chega a esta manhã com o estômago apertado.
O que a Confissão é, de fato
Não é uma conversa terapêutica. Não é um relatório entregue a um funcionário. O Catecismo diz o que se recebe ali: “Os que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a ele e, ao mesmo tempo, reconciliam-se com a Igreja, a quem feriram pecando” (CIC 1422). As duas coisas juntas: Deus e a Igreja. Porque o pecado nunca é assunto privado — “é antes de tudo ofensa a Deus, ruptura da comunhão com ele; e ao mesmo tempo atenta contra a comunhão com a Igreja” (CIC 1440).
E o efeito é maior do que quase todo penitente imagina: “Toda a força da Penitência consiste em nos restituir à graça de Deus e unir-nos a ele numa grande amizade” (CIC 1468). Não é um alívio psicológico — é uma amizade restaurada. E o Catecismo acrescenta uma imagem que devia estar escrita na porta de todo confessionário: neste sacramento, “o pecador, entregando-se ao juízo misericordioso de Deus, antecipa de certa maneira o juízo a que será submetido no fim desta vida terrena” (CIC 1470). Escutem bem: você pode escolher em qual dos dois tribunais quer ser julgado. Um deles tem um advogado que morreu por você — e um juiz que já pagou a sua conta.
O sacramento tem quatro partes, e o Catecismo as descreve nos parágrafos 1450-1460: contrição (a dor da alma e a detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar — CIC 1451), confissão dos pecados, absolvição dada pelo sacerdote e satisfação, isto é, a penitência e a reparação do dano causado.
Duas notas práticas. Sobre a contrição: ela é perfeita quando nasce do amor a Deus, e imperfeita — o Catecismo a chama de atrição — quando nasce do medo da condenação ou da feiura do pecado; e a Igreja ensina que a contrição imperfeita já basta para obter o perdão no sacramento (cf. CIC 1452-1453). Se você veio hoje mais por medo do que por amor — venha assim mesmo. Deus trabalha com o material que houver. Sobre a satisfação: “a absolvição tira o pecado, mas não remedia todas as desordens que o pecado causou” (cf. CIC 1459). Se você roubou, devolva. Se caluniou, desminta. Se abandonou, volte. A penitência que o padre der não é castigo. É fisioterapia.
Exame de consciência de adulto
O Catecismo recomenda: “É bom preparar-se para receber este sacramento por um exame de consciência feito à luz da Palavra de Deus” (CIC 1454). Vamos fazê-lo agora. De verdade. Em silêncio, tema por tema. Não corram. Anotem, se ajudar — e destruam o papel depois.
Santo Antão, no deserto do Egito, dizia aos discípulos algo que serve exatamente para este momento: que cada um anotasse diariamente as próprias ações, de dia e de noite, como se fosse ter de contá-las a outro (cf. Atanásio, Vida de Antão, 55). Ele explicava que a vergonha de ser conhecido já basta para nos fazer parar de pecar. Hoje vocês vão fazer de uma vez o que ele fazia todo dia.
1. Deus no centro. Deus tem o primeiro lugar na minha vida, ou eu o encaixo nas sobras? Rezo todos os dias, ou só quando aperta? Vou à Missa dominical — e chego a tempo, ou entro no ofertório e saio antes da bênção? Recebi a comunhão em estado de pecado grave? Consultei búzios, tarô, mapa astral, “energias”, buscando em outro lugar o que só Deus dá? Blasfemei, usei o nome de Deus em vão, jurei em falso? Tive vergonha de ser reconhecido como católico?
2. A palavra e a verdade. Menti para me proteger, para me promover, para me livrar de um problema? Menti no trabalho, na declaração de imposto, no currículo? Falei mal de alguém pelas costas? Repassei uma história sem checar? Julguei intenções que não conheço? Traí um segredo que me foi confiado? Devo um pedido de desculpas a alguém e não o fiz por orgulho?
3. A família. Como trato quem mora comigo? Sou paciente com meu cônjuge ou descarrego nele o cansaço do dia? Fui infiel — de corpo, de olhar, de conversa, de aplicativo? Cuido dos meus filhos ou os entrego à tela e ao acaso? Eduquei-os na fé, ou deixei que aprendessem sozinhos? Como trato meus pais idosos? Guardo mágoas antigas de família que envenenam todos os almoços de domingo?
4. Trabalho e justiça. Sou honesto no que faço? Entrego o que prometo? Uso o horário e os recursos da empresa para mim? Pago o que devo, pago quem trabalha para mim com justiça? Humilhei subordinado, assediei alguém, calei diante de uma injustiça que eu podia ter denunciado? Fui indiferente ao pobre que passa todo dia pela minha porta?
5. Sexualidade. Aqui a maior parte dos adultos mente para si mesma. Pornografia — com que frequência, e há quanto tempo? Uso a sexualidade como consumo? Trato as pessoas como corpos disponíveis? Vivo uma união que sei irregular e nunca procurei a Igreja para regularizar? Trouxe ao mundo dor por causa de uma relação que comecei sabendo que era errada? Participei ou consenti num aborto? Se sim, escute isto desde já: existe perdão para isso, e existe hoje. Traga.
6. Dinheiro. Sou escravo do que tenho? Comprei o que não podia para aparentar o que não sou? Dou aos pobres alguma coisa que me custe, ou só o que sobra? Devo dinheiro e me escondo do credor? Fiz alguém sofrer por causa de herança, de sociedade, de dívida?
7. Corpo e domínio de si. Bebo além da conta? Uso alguma substância que me domina? Estou preso a apostas, jogos, compras compulsivas, redes sociais? Cuido da saúde que Deus me deu ou a destruo aos poucos, por descuido ou por desprezo?
8. Ira e perdão. Guardo rancor de alguém há anos? Existe alguém a quem eu me recuso a dirigir a palavra? Fui violento — de mão, de boca, de silêncio? Desejei mal a alguém? Alimentei vingança na imaginação?
9. Omissão. Este é o item que quase ninguém confessa e que o Confiteor coloca no meio: pequei por pensamentos e palavras, atos e omissões. Que bem eu deveria ter feito e não fiz? Que conversa eu deveria ter tido? Que perdão eu deveria ter pedido? Quem precisou de mim e me encontrou ocupado?
10. A pergunta final. Se você morresse hoje — e um dia isso vai acontecer —, o que você não gostaria que Deus encontrasse na sua vida? É exatamente isso que você vai dizer ao padre daqui a pouco.
Como se confessar, passo a passo
Para quem está há dez, vinte, trinta anos sem se confessar, o que trava não costuma ser a vergonha do pecado — é o medo de não saber a mecânica. Então aqui está ela, sem mistério.
- Entre. Você pode se ajoelhar atrás da grade ou sentar frente a frente com o padre. As duas formas são normais; escolha a que te deixar mais livre.
- Comece com o Sinal da Cruz e diga: “Abençoe-me, padre, porque pequei.”
- Diga há quanto tempo não se confessa. Uma frase basta: “Faço quinze anos que não me confesso.” O padre vai ouvir isso com alegria, não com espanto. É o dia dele.
- Diga os pecados. Em linguagem simples, sem rodeios e sem discurso. Os pecados graves devem ser ditos por espécie e número, na medida em que a memória alcança (cf. CIC 1456) — “quantas vezes, mais ou menos”. Não conte a história inteira, não explique a culpa dos outros, não peça opinião: acuse-se. Se travar, diga “padre, não sei como dizer isso” e deixe que ele ajude. É a profissão dele conduzir você.
- Termine com uma fórmula qualquer: “de todos estes pecados e dos que não me lembro, peço perdão a Deus e a penitência ao senhor.”
- Ouça. O padre dirá uma palavra e dará uma penitência — uma oração, um gesto, uma reparação.
- Reze o Ato de Contrição (está na folha de orações básicas; se não souber, o padre reza com você).
- Receba a absolvição em silêncio, prestando atenção nas palavras: “…eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.” Nesse instante — e não antes — tudo o que você trouxe deixou de existir.
- Cumpra a penitência ainda hoje, antes de ir embora.
Duas garantias antes de você entrar. Primeira: o sigilo é absoluto. Sem nenhuma exceção, em nenhuma circunstância. Um padre é obrigado a preferir a prisão ou a morte a revelar uma única palavra ouvida ali. Segunda: você não vai chocar ninguém. O padre já ouviu tudo, muitas vezes; e o Catecismo lembra que ali ele cumpre “o ministério do bom pastor que procura a ovelha perdida, o do bom samaritano que trata das feridas, o do pai que espera o filho pródigo” (CIC 1465). Ninguém vem ao confessionário para ser reprovado. Vem para ser carregado de volta nos ombros.
Momento 3 — O tempo das confissões
Enquanto os padres atendem, esta capela fica em silêncio, com o Santíssimo exposto. Silêncio de verdade — sem celular, sem conversa na porta. Quem espera, reza. Quem já se confessou, agradece. Escolham uma destas sugestões e fiquem nela:
- Salmo 51 (50), o Miserere, rezado devagar, uma frase de cada vez: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo o teu amor… Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (Sl 51,3.12).
- Lucas 15 — a ovelha, a moeda, o filho pródigo. Prestem atenção num detalhe do texto: o pai o viu “quando ainda estava longe” e correu (Lc 15,20). O pai correu. Ele já está correndo enquanto você espera na fila.
- Lucas 23,39-43 — o bom ladrão. O último a ser perdoado por Cristo vivo foi um criminoso condenado, a poucos minutos da morte, sem tempo de reparar nada. “Hoje estarás comigo no paraíso.”
- Adoração silenciosa, olhando a hóstia e dizendo apenas: “Senhor, eu sou teu.”
- A folha de orações básicas: reze devagar o Pai Nosso, a Ave-Maria, o Credo e o Ato de Contrição, pesando cada frase.
Depois da absolvição, faça uma coisa que quase ninguém faz e que muda tudo: fique. Não saia correndo. Sente-se por dez minutos e agradeça. São João Crisóstomo, pregando aos catecúmenos de Antioquia por volta de 388, descreve o que acontece com a alma que recebe a graça: ela brilha e se torna mais luminosa, porque a luz brilha nas trevas (cf. Instruções aos Catecúmenos, Segunda Instrução, 1). Essa luz está em você agora. Não a atropele com pressa.
Momento 4 — Os Ritos da Iniciação Cristã de Adultos (RICA)
Alguns de vocês vão ser batizados na Vigília Pascal. Todos vão assistir. E ninguém deve assistir a esses ritos como quem vê uma cerimônia bonita sem entender: cada gesto tem quinze séculos de história e diz uma coisa precisa.
O Catecismo explica a lógica: “Desde os tempos apostólicos, para se tornar cristão, segue-se um caminho e uma iniciação com várias etapas” (CIC 1229). Esse caminho foi quase esquecido no Ocidente quando o batismo de crianças se tornou a regra (cf. CIC 1231), até que “o Concílio Vaticano II restaurou, para a Igreja latina, o catecumenato dos adultos, dividido em diversas etapas” (CIC 1232). É o que hoje chamamos RICA — Ritual da Iniciação Cristã de Adultos. E a meta é sempre a mesma: a iniciação começa com o ingresso no catecumenato e culmina “numa única celebração dos três sacramentos: Batismo, Confirmação e Eucaristia” (cf. CIC 1233).
As etapas, na ordem:
1. Evangelização e pré-catecumenato. É o tempo do primeiro anúncio — o querigma, que ouvimos na segunda aula deste ano. Não se ensina doutrina a quem ainda não encontrou a Pessoa. Nada aqui é obrigatório e nada é definitivo: é tempo de simpatia, de perguntas, de fé inicial.
2. Rito de admissão ao catecumenato. Na porta da igreja, o candidato declara publicamente o que procura. O celebrante pergunta o seu nome e o que ele pede à Igreja de Deus, e ele responde: a fé. Então recebe o sinal da cruz na testa — e muitas vezes também nos ouvidos, nos olhos, nos lábios, no peito, nos ombros e nas mãos. É uma tomada de posse: cada sentido é marcado com a cruz porque cada sentido vai ter de servir a Cristo. A partir desse dia ele já pertence à Igreja: é catecúmeno, tem direito às exéquias cristãs e pode casar-se na Igreja. Não é mais um estranho.
3. Catecumenato. O tempo longo — meses ou anos — da catequese propriamente dita, com as entregas graduais da Palavra, a participação na Liturgia da Palavra aos domingos e as bênçãos e exorcismos menores. Foi o que vocês viveram este ano.
4. Eleição ou inscrição do nome. No primeiro domingo da Quaresma, diante do bispo ou do pároco, os nomes dos candidatos são escritos. Deixam de se chamar catecúmenos e passam a chamar-se eleitos — escolhidos. Cirilo de Jerusalém acompanhava exatamente esse grupo, e lhes dizia:
Tens quarenta dias para a penitência: tens tempo de sobra para te despires, te lavares, te vestires e entrares.
— São Cirilo de Jerusalém, Procatequese, 4
Quarenta dias. Não é decoração litúrgica. É prazo.
5. Escrutínios. Nos terceiro, quarto e quinto domingos da Quaresma, celebram-se três escrutínios sobre os eleitos, com as leituras da samaritana, do cego de nascença e de Lázaro. São ritos de libertação: a Igreja reza sobre a pessoa, impõe as mãos e pede que tudo o que ainda é fraco, doentio e escravizado nela seja curado e expulso. Não é folclore. É a Igreja levando a sério que existe um adversário — e que ele não entrega território sem briga.
6. Entrega do Credo e do Pai-Nosso. A comunidade entrega aos eleitos aquilo que ela guarda: primeiro o Símbolo da fé, depois a oração do Senhor. Semanas mais tarde vem a redditio — a devolução: o eleito recita de cor, diante da Igreja, o Credo que recebeu. Você devolve com a boca o que recebeu com os ouvidos. Cirilo, que fazia isso, avisava os seus eleitos de que lhes era entregue um mistério e uma esperança da vida futura, e que deviam guardá-lo para aquele que dá a recompensa (cf. Procatequese, 12).
7. Os sacramentos na Vigília Pascal. O ponto de chegada, na noite mais importante do ano.
8. Mistagogia. O tempo depois — a Páscoa até Pentecostes —, em que os recém-batizados, agora chamados neófitos, recebem a explicação dos mistérios que já viveram. Cirilo pregava as suas cinco catequeses mistagógicas justamente nessa semana, e o método é sábio: primeiro se vive, depois se compreende. Ninguém explica um beijo antes que ele aconteça.
Momento 5 — O Batismo de adultos, rito por rito
Vamos percorrer a Vigília Pascal como quem entra nela pela primeira vez.
O fogo e o Círio. A noite começa no escuro, do lado de fora. Acende-se uma fogueira, prepara-se o Círio pascal, e ele entra na igreja às escuras enquanto as velas de todos vão sendo acesas a partir dele. Uma única chama enche o templo. Vocês vão entender fisicamente o que significa “a luz brilha nas trevas, e as trevas não a dominaram” (Jo 1,5).
A ladainha e a bênção da água. Invocam-se todos os santos pelo nome — os do céu vêm buscar os que vão nascer. Depois o sacerdote benze a água mergulhando nela o Círio, recordando as águas da criação, do dilúvio, do Mar Vermelho, do Jordão e do lado aberto de Cristo (cf. CIC 1217-1222).
A renúncia. Aqui está o gesto mais dramático de todo o cristianismo, e ele é antiquíssimo. Cirilo de Jerusalém descreve o que se fazia em Jerusalém no século IV: os candidatos entravam na antessala do batistério e, voltados para o Ocidente — a região onde o sol morre, símbolo das trevas —, estendiam a mão e falavam ao demônio como se ele estivesse presente:
Renuncio a ti, Satanás, tirano perverso e cruelíssimo!
— São Cirilo de Jerusalém, Catequese Mistagógica 1, 4
E a renúncia era tríplice: a Satanás, a todas as suas obras e a toda a sua pompa. Cirilo explica que as “obras” são todos os atos e pensamentos contrários à razão, e a “pompa”, os espetáculos e vaidades do mundo. João Crisóstomo ensinava a mesma fórmula em Antioquia — renuncio a ti, Satanás, e à tua pompa, e ao teu serviço (cf. Instruções aos Catecúmenos, Segunda Instrução, 4) — e era brutalmente concreto ao dizer o que isso significava na prática de cada um: o luxo, a superstição, os costumes que a pessoa trazia.
Depois da renúncia, o candidato gira o corpo para o Oriente, onde o sol nasce, e professa a fé. Cirilo comenta que esse voltar-se do Ocidente para o Oriente é o símbolo da volta do homem à luz e ao paraíso. Reparem: não basta dizer “não” ao mal. É preciso virar-se e dizer “sim” a Alguém. Costas para o que se abandona. Rosto para quem se ama.
O mergulho e a fórmula. Vem então o essencial do rito: a tríplice imersão na água — ou a tríplice infusão sobre a cabeça — enquanto se pronuncia “N., eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (cf. CIC 1239-1240). O Catecismo explica que o mergulho “significa e realiza a morte para o pecado e a entrada na vida da Santíssima Trindade, por configuração ao Mistério pascal de Cristo” (CIC 1239). Crisóstomo listava, uma por uma, as palavras que a Igreja usa para nomear isso: banho de regeneração, iluminação, batismo, sepultura, circuncisão, cruz (cf. Instruções aos Catecúmenos, Primeira Instrução, 2). São nomes que dizem morte antes de dizerem vida — porque é isso que acontece ali. Você entra na água como quem entra num túmulo. E sai como quem sai de um.
A unção com o Crisma, a veste branca e a vela. Segue-se a unção com o santo Crisma, sinal do dom do Espírito. Nos adultos, na Igreja latina, a Confirmação segue imediatamente ao Batismo (cf. CIC 1242) — é a mesma noite. Depois vem a veste branca, que significa que o batizado se revestiu de Cristo, e a vela acesa no Círio pascal, com as palavras “recebe a luz de Cristo” (cf. CIC 1243). E, finalmente, a primeira comunhão eucarística (cf. CIC 1244): tudo o que este ano ensinou converge para aquele instante.
Sobre a veste branca, Crisóstomo tem um aviso curto que serve para todos nós:
Guardai, pois, a veste que recebestes.
— São João Crisóstomo, Instruções aos Catecúmenos, Segunda Instrução, 2
Momento 6 — O envio: o dia seguinte
Agora a parte que decide tudo — e é preciso dizer com franqueza, olhando nos olhos: existe uma epidemia silenciosa de gente que recebe a Crisma e desaparece. Recebe o sacramento como quem recebe um diploma. E some no domingo seguinte. Se isso acontecer com você, esta manhã terá sido uma cerimônia bonita e nada mais.
Crisóstomo enfrentava o mesmo problema em Antioquia no século IV, e por isso insistia com os recém-batizados que arrancassem o hábito velho para não voltarem a ele depois do batismo (cf. Instruções aos Catecúmenos, Segunda Instrução, 3). Ele sabia que o perigo não vem da grande tentação — vem da rotina antiga voltando pela porta dos fundos. E dava um conselho prático que continua imbatível: tira todo o adorno e põe-no nas mãos de Cristo, por meio dos pobres — ele te guardará toda a tua riqueza (cf. Segunda Instrução, 4). Perseverança se sustenta com caridade concreta. Não com boas intenções.
Santo Antão, que passou oitenta anos no deserto, tinha um segredo simples, e Atanásio o registrou:
Não pensava no passado, mas cada dia, como se estivesse no começo da sua vida ascética, empenhava-se com mais esforço no progresso, repetindo para si a palavra de Paulo: “Esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está diante.”
— Santo Atanásio, Vida de Antão, 7
Cada dia como se fosse o primeiro. Não é motivação — é método. Quem espera manter o fervor de hoje o ano inteiro vai desanimar na terceira semana. Quem recomeça toda manhã não precisa manter nada. E Antão dizia ainda aos seus:
Se vivermos como quem morre a cada dia, não pecaremos. E o sentido disso é: ao levantar-nos cada dia, pensemos que não chegaremos à noite.
— Santo Atanásio, Vida de Antão, 19
Perpétua e Felicidade viveram isso literalmente. Felicidade estava grávida de oito meses e temia ser deixada de fora do martírio, porque a lei romana proibia executar grávidas; deu à luz na prisão, dois dias antes dos jogos, gritando de dor. Um carcereiro debochou: se você grita agora, o que vai fazer diante das feras? Escutem a resposta dela — uma das frases mais impressionantes da literatura cristã:
Agora sou eu que sofro o que sofro; mas então haverá outro em mim, que sofrerá por mim, porque também eu hei de sofrer por ele.
— Martírio de Perpétua e Felicidade, cap. 5
Haverá outro em mim. É exatamente isso que o Batismo e a Crisma fazem: põem Outro dentro de você — e é ele quem carrega o que você não conseguiria carregar. Em 7 de março de 203, no anfiteatro de Cartago, elas entraram juntas. A nobre e a escrava. De mãos dadas. Antes de morrer, Perpétua se voltou para os irmãos — entre eles o catequista Sátiro e outros catecúmenos — e deixou o seu testamento:
Permanecei firmes na fé, amai-vos uns aos outros e não vos escandalizeis com os nossos sofrimentos.
— Martírio de Perpétua e Felicidade, cap. 6
Ferida por uma novilha e ainda viva, foi entregue a um gladiador jovem e inexperiente, cuja mão tremia. Perpétua tomou a mão dele e guiou-a até a própria garganta. Foi ela quem conduziu o próprio golpe — uma mulher de vinte e dois anos, batizada havia poucos meses.
Ela era catecúmena um ano antes.
Como vocês.
Para viver
Os compromissos que sustentam o dia seguinte. Escolham hoje, por escrito, e digam em voz alta a alguém:
- Missa todos os domingos, sem exceção e sem negociação. É o primeiro mandamento da Igreja (cf. CIC 2042) e o fio que segura todo o resto.
- Confissão regular — no mínimo uma vez por ano, como manda a Igreja (cf. CIC 1457), mas o realista é a cada dois meses. Marque a próxima hoje, no calendário do celular.
- Oração diária, com horário fixo, dez ou quinze minutos, usando a folha de orações básicas e um trecho do Evangelho. Cada dia como se fosse o primeiro.
- Um lugar de serviço na paróquia dentro do próximo mês, e um grupo que te conheça pelo nome e sinta a sua falta quando você não aparecer.
- Um santo padroeiro escolhido de propósito — de preferência um dos que encontramos neste ano — e a leitura da vida dele. Perpétua, Antão, Policarpo, Agostinho, Martinho: escolha um e leve para casa.
Para rezar
Fiquemos de pé para o envio.
Senhor Jesus Cristo, tu que chamaste Perpétua na prisão e Antão no deserto, olha para estes teus filhos no fim deste caminho. Tu já perdoaste, esta manhã, o que eles não conseguiam nem dizer em voz alta. Agora guarda o que perdoaste. Dá-lhes a coragem de renunciar de verdade, de virar as costas ao que os escravizava e o rosto para ti, que és a luz nascente. Dá-lhes a graça de recomeçar cada dia como se fosse o primeiro, de perseverar quando ninguém estiver olhando, e de não confundir uma cerimônia com uma vida. Sê tu o Outro que sofre neles quando as forças faltarem. Amém.
Nossa Senhora, Mãe da Igreja, que estiveste com os Apóstolos no Cenáculo, rogai por nós. São Cirilo de Jerusalém e São João Crisóstomo, mestres dos catecúmenos, rogai por nós. Santa Perpétua e Santa Felicidade, batizadas e fiéis até o fim, rogai por nós. Santo Antão, que recomeçava todos os dias, rogai por nós.
E que a bênção de Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça para sempre.
Ide em paz — e não parem aqui.
Levem a folha de orações básicas: ela é o mínimo que se reza numa casa cristã, e será, nos meses difíceis, o fio que continua ligado quando tudo o mais se calar.