Milão. Por volta do ano 378.

O Império acaba de sofrer o pior desastre militar em séculos: em Adrianópolis, os godos aniquilaram o exército romano e mataram o próprio imperador. Milhares de cidadãos foram capturados e estão sendo vendidos como escravos nos mercados do Oriente.

O bispo de Milão é Ambrósio — vocês já o conhecem bem: o ex-governador, o homem que batizou Agostinho. E ele faz uma coisa que escandaliza a metade devota da sua cidade: manda quebrar os cálices e as patenas de ouro do tesouro da igreja, fundir o metal e enviá-lo com agentes para comprar de volta os prisioneiros.

A acusação foi imediata: sacrilégio. Profanação. Um bispo destruindo vasos sagrados. Anos depois, no tratado Sobre os Deveres do Clero, Ambrósio responde às críticas — e a resposta não pede desculpa nenhuma. Ele diz que era muito melhor conservar para o Senhor as almas do que o ouro. Que a Igreja tem ouro não para guardar, mas para gastar com quem precisa. E imagina o Senhor perguntando, no juízo: por que deixastes tantos necessitados morrer de fome, por que tantos cativos continuaram na escravidão, tendo vós ouro parado? Os vasos, argumenta ele, foram consagrados para dar o sangue de Cristo — e o mesmo sangue foi derramado para resgatar aquela gente. Fundir o cálice não profanou o cálice. Completou o que o cálice significava.

Guardem essa cena. Ela é a resposta antecipada à suspeita mais comum sobre a aula de hoje — a de que a Doutrina Social da Igreja seja um verniz político moderno, uma moda dos últimos cem anos, algo que a Igreja passou a dizer para não ficar mal na foto. Não é. Muito antes de qualquer encíclica, os Padres da Igreja já diziam coisas sobre riqueza, propriedade e pobres que, se fossem ditas hoje num grupo de WhatsApp da família, fariam alguém ser chamado de comunista. Vocês vão ouvir algumas delas nesta aula. E preparem-se: os Padres são bem mais radicais do que qualquer partido brasileiro.

O que é a Doutrina Social — e por que ela não é partido

A Doutrina Social da Igreja é o conjunto orgânico do ensinamento católico sobre a vida em sociedade: economia, trabalho, política, propriedade, família, cultura, cuidado do planeta. Costuma-se datar o seu corpo moderno de 1891, quando Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum em plena revolução industrial, diante de operários trabalhando catorze horas por dia por salários de fome. Mas essa data marca o início da sistematização, não do ensino — como vocês acabaram de ver em Ambrósio.

O Catecismo é claro quanto ao estatuto dessa doutrina: “A Igreja emite um juízo moral em matéria econômica e social ‘quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem’” (CIC 2420). Reparem: juízo moral, não técnico. A Igreja não tem uma teoria própria de política monetária. Não sabe qual é a alíquota justa de imposto. Não indica candidato. O que ela tem é o critério: a pessoa humana. Sempre que um arranjo econômico ou político esmaga pessoas, a Igreja fala — e falar, aí, não é “se meter em política”. É fazer o seu trabalho.

Isso responde de saída à pergunta que talvez esteja na cabeça de alguém aqui. A Doutrina Social não é de direita nem de esquerda — e por isso incomoda os dois lados. O Catecismo condena as ideologias totalitárias e ateias ligadas ao comunismo e ao socialismo; e recusa, na prática do capitalismo, “o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano”, lembrando que regular a economia somente pela lei do mercado “é faltar à justiça social, porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado” (CIC 2425). Façam o teste: quem lê esse parágrafo inteiro e não fica desconfortável em algum ponto, provavelmente leu só a metade com que já concordava.

E por que a fé tem de dizer alguma coisa sobre isso? Porque, se não disser, não é fé. “De que serve, meus irmãos, que alguém diga ter fé, se não tem obras?… A fé, se não tiver obras, está morta em si mesma” (Tg 2,14.17). E porque o próprio Cristo colocou o critério do juízo final não numa prova de doutrina, mas numa lista de gestos concretos: comida, água, roupa, visita (Mt 25,31-46). O Catecismo resume: “A caridade para com os pobres é… uma das razões do dever de trabalhar” (CIC 2444, cf. 2443). A Doutrina Social é simplesmente a fé se recusando a ser um assunto de sacristia.

A Epístola a Diogneto, escrita por um cristão anônimo no século II para explicar a um pagão curioso quem eram aquelas pessoas, já descrevia essa presença de um modo insuperável:

Habitam a sua própria pátria, mas como forasteiros. Participam de tudo como cidadãos e tudo suportam como estrangeiros. Toda terra estranha é pátria para eles, e toda pátria lhes é terra estranha. São pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e de tudo abundam.

Epístola a Diogneto, cap. 5

E, no capítulo seguinte, a imagem que dá o título de nobreza à presença cristã no mundo:

O que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo.

Epístola a Diogneto, cap. 6

Pensem na força disso. A alma não abandona o corpo nem se confunde com ele: está espalhada por todos os membros, dá vida a tudo e, ao mesmo tempo, não pertence à matéria. É assim que o cristão está na sociedade — dentro, participando, pagando imposto, votando, trabalhando; e ao mesmo tempo com uma cidadania maior, que o impede de idolatrar qualquer projeto humano. Um cristão que se dissolve inteiro num partido perdeu a alma da metáfora. Um cristão que se retira do mundo para não se sujar perdeu a outra metade.

O fundamento: a dignidade da pessoa humana

Toda a Doutrina Social se apoia numa única pedra — e se essa pedra rachar, tudo desaba: cada ser humano tem valor absoluto e não negociável, porque é imagem de Deus (Gn 1,27) e foi resgatado pelo sangue de Cristo. “A pessoa humana… é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais” (CIC 1881). Não a nação. Não o mercado. Não a classe, não o partido. A pessoa.

Isso implica que ninguém pode ser tratado como meio. Nem o funcionário como custo, nem o eleitor como voto, nem o pobre como estatística, nem o idoso como despesa, nem o nascituro como projeto adiável. O Catecismo insiste que a igualdade fundamental entre todos os homens exige o reconhecimento efetivo dessa dignidade e denuncia as desigualdades “escandalosas” que atingem milhões (CIC 1935, 1938).

Os cristãos foram os primeiros a levar isso a sério num mundo que não levava. A mesma Epístola a Diogneto observa, quase de passagem, que os cristãos geram filhos e não os abandonam — coisa banal para nós, revolucionária então, quando expor bebês indesejados era prática legal e comum; vocês lembram do papiro de Hilarião. E Lactâncio — o retórico africano da aula sobre a vida, que viveu a perseguição de Diocleciano antes de se tornar preceptor do filho de Constantino — funda a justiça exatamente nesse ponto nas suas Instituições Divinas:

A bondade é o maior vínculo da sociedade humana; e quem a rompeu deve ser considerado ímpio e parricida.

— Lactâncio, Instituições Divinas, VI, 10

O argumento dele, no mesmo capítulo, é de uma simplicidade desarmante: se todos derivamos a origem de um só homem criado por Deus, somos claramente de um só sangue; e se um só Deus nos inspira e anima a todos, o que somos senão irmãos? E notem onde isso é dito: num império inteiramente estruturado sobre a desigualdade — senhores e escravos, cidadãos e bárbaros, patrícios e plebe. Lactâncio está dizendo que essas divisões não descrevem a realidade profunda: diante de Deus não há senhor nem escravo. Há irmãos. E disso ele tira uma consequência prática que continua incômoda:

Sê generoso com o cego, o débil, o coxo, o desamparado, que morrerão se não lhes deres o teu auxílio. São inúteis para os homens, mas úteis para Deus.

— Lactâncio, Instituições Divinas, VI, 11

“Inúteis para os homens, mas úteis para Deus.” Lactâncio está criticando explicitamente Cícero, que ensinava a fazer o bem a pessoas “adequadas” — gente digna, capaz de retribuir, que aumentasse o prestígio do benfeitor. O cristianismo inverte a regra: a caridade se mede pela incapacidade de retribuição de quem a recebe. Ele chega a dizer que a casa do homem justo e sábio não deve estar aberta aos ilustres, mas aos humildes e desprezados. Traduzam para hoje: o critério não é quem pode me ajudar depois. Não é quem vai me dar visibilidade. Não é quem merece. É quem precisa.

Bem comum, subsidiariedade, solidariedade

Sobre a pedra da dignidade, a Doutrina Social levanta três pilares. Vale conhecê-los pelo nome, porque são as ferramentas com que um católico adulto pensa qualquer questão pública.

O bem comum. Definição do Catecismo: “o conjunto das condições sociais que permitem, tanto aos grupos como a cada um dos seus membros, atingir a sua perfeição, do modo mais completo e adequado” (CIC 1906). Não é a soma dos interesses individuais. Não é a vontade da maioria. É o conjunto de condições — segurança, justiça, saúde, educação, liberdade religiosa, paz — sem as quais ninguém floresce. O Catecismo lhe atribui três elementos: o respeito à pessoa e aos seus direitos fundamentais; o bem-estar social e o desenvolvimento do grupo; e a paz, entendida como estabilidade e segurança de uma ordem justa (CIC 1907-1909). E acrescenta algo que a nós, brasileiros, deveria pesar: cada um é obrigado a contribuir para o bem comum conforme a sua posição (CIC 1913-1917), e a autoridade política existe precisamente para servi-lo (CIC 1910). Corrupção, sonegação, “jeitinho”, furar fila, ocupar vaga de deficiente — não são delitos de trânsito da alma. São pequenas dilapidações do bem comum. E a dilapidação do bem comum machuca sempre os mais fracos primeiro.

A subsidiariedade. Princípio pouco conhecido e imensamente prático: “uma sociedade de ordem superior não deve interferir na vida interna de uma sociedade de ordem inferior, privando-a de suas competências, mas deve antes apoiá-la em caso de necessidade” (CIC 1883). O Estado não deve fazer o que a comunidade faz. A comunidade não deve fazer o que a família faz. A família não deve fazer o que a pessoa é capaz de fazer. E, ao mesmo tempo, cada instância superior tem o dever de socorrer a inferior quando ela não dá conta. O Catecismo diz que esse princípio se opõe a toda forma de coletivismo e que Deus não quis reservar a si sozinho o exercício de todos os poderes, mas confia a cada um funções conforme a sua capacidade (CIC 1884-1885). Traduzindo: assistência que humilha, que substitui e que cria dependência não é caridade cristã. O objetivo nunca é gerir pobres. É que eles deixem de precisar.

A solidariedade. O Catecismo a chama também de “amizade” ou “caridade social”, e diz que é “uma exigência direta da fraternidade humana e cristã” (CIC 1939). Ela não é sentimento: é o compromisso firme de trabalhar pelo bem de todos, e se exerce na “repartição dos bens e na remuneração do trabalho” (CIC 1940), na luta contra os “vícios sociais”, na solidariedade entre nações e — este ponto é fácil de esquecer — na partilha dos bens espirituais, que “é ainda mais importante do que a dos bens materiais” (CIC 1942, 1948).

Guardem os três juntos, porque eles se corrigem mutuamente. Bem comum sem subsidiariedade vira Estado que engole a pessoa. Subsidiariedade sem solidariedade vira “cada um por si” com nome bonito. Solidariedade sem bem comum vira assistência avulsa que nunca muda a estrutura que produz a miséria. É por não ter esses três na cabeça ao mesmo tempo que tanto católico discute política brasileira repetindo slogans de outra gente.

O destino universal dos bens: a página mais dura dos Padres

Aqui está o ensinamento que mais surpreende quem nunca leu os Padres. A doutrina católica afirma duas coisas ao mesmo tempo, e é preciso segurar as duas.

Primeira: “No princípio, Deus confiou a terra e seus recursos à gestão comum da humanidade” (CIC 2402). Os bens da criação são destinados a todo o gênero humano — este é o princípio primeiro, chamado destino universal dos bens.

Segunda: a propriedade privada é legítima e necessária, “adquirida ou recebida de modo justo”, pois garante a liberdade e a dignidade das pessoas e as ajuda a prover às suas necessidades (CIC 2402-2403). A Igreja nunca defendeu a abolição da propriedade.

Mas notem a hierarquia — e ela é o ponto: a propriedade privada é um direito real, e subordinado. “O direito à propriedade privada, adquirida pelo trabalho ou recebida de outrem por herança ou por dom, não anula a doação original da terra a toda a humanidade” (CIC 2403). E mais: “Ao usar esses bens, o homem não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a ele mas também aos outros” (CIC 2404). Quem tem, administra. E presta contas.

Foi exatamente isso que Ambrósio escreveu, com uma clareza que ainda hoje faz cristão engasgar:

A natureza derramou todas as coisas para o uso comum de todos os homens. E Deus ordenou que todas as coisas fossem produzidas de modo que houvesse alimento em comum para todos, e que a terra fosse possessão comum de todos. A natureza, portanto, produziu um direito comum a todos; a usurpação é que o transformou em direito de poucos.

— Santo Ambrósio, Sobre os Deveres do Clero, I, 28, 132

Escutem a última frase de novo, porque é a mais afiada: o direito comum é o original; o direito exclusivo é derivado. Ambrósio não está pregando revolução — ele mesmo administrava os bens da sua igreja e reconhecia a propriedade. Está estabelecendo uma ordem de prioridades. E dela ele tira, em outro escrito, a conclusão que o Magistério repetiria por séculos: quando você dá ao pobre, não está fazendo um presente do que é seu. Está devolvendo o que é dele. Por isso, na tradição da Igreja, socorrer quem passa necessidade extrema é matéria de justiça — não de generosidade opcional.

O maior pregador social da Antiguidade, porém, foi outro. João Crisóstomo — o Boca de Ouro, o que fugiu da ordenação, lembram? —, patriarca de Constantinopla, exilado e morto no caminho do desterro por não ter aprendido a calar diante do luxo da corte. Nas suas Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, ele prega para uma cidade que enchia as igrejas de ouro e as ruas de mendigos. A homilia 50 é a página mais famosa — e é uma bomba dentro da Missa. Escutem:

Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando ele está nu. Não o honres aqui com vestes de seda, enquanto lá fora o deixas perecer de frio e de nudez.

— São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus, hom. 50, 4

O Catecismo cita essa passagem quando fala da Eucaristia (CIC 1397), e a lógica de Crisóstomo é implacável. Acompanhem. Ele lembra que Aquele que disse “isto é o meu corpo”, e com a sua palavra confirmou o fato, foi o mesmo que disse “vistes-me com fome e não me destes de comer”. Ou seja: é a mesma autoridade. A mesma presença. A mesma identificação de Cristo com algo que os nossos olhos não veem. Se você crê que aquele pedaço de pão é Cristo, com base na palavra dele, então precisa crer, com base na mesma palavra, que aquele homem que dorme na calçada da paróquia também é Cristo. Não dá para escolher um artigo e recusar o outro.

E Crisóstomo remata com a frase que deveria estar escrita na porta de toda sacristia rica do mundo:

Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro.

— São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus, hom. 50, 4

Cuidado, porém, com o mal-entendido fácil: nem Crisóstomo nem Ambrósio pregam liturgia pobre ou igreja feia. Crisóstomo diz explicitamente que enfeitar a igreja é bom — e que não fazer o outro é péssimo. O Catecismo, do mesmo modo, defende a beleza no culto e o dever para com os pobres, sem opor as duas coisas. O que ambos condenam é a esquizofrenia: o ouro no altar servindo de álibi para o desprezo na rua.

Nem todo rico está perdido: o equilíbrio de Clemente

Se a aula parasse aqui, alguém sairia com a impressão de que ter bens é pecado — e essa não é a doutrina católica. Quem dá o contrapeso é Clemente de Alexandria — o mestre do Pedagogo, nosso velho conhecido —, no fim do século II, num opúsculo com o título mais direto da história: Quem é o Rico que Será Salvo? Ele escreve para cristãos abastados de Alexandria, angustiados com a frase do camelo e do fundo da agulha (Mc 10,25), tentados a concluir que para eles não havia esperança — ou, pior, que a fé não era para eles.

Clemente pega o episódio do jovem rico e faz uma leitura cirúrgica:

Ele não lhe manda lançar fora a substância que possuía e abandonar a sua propriedade; manda-lhe banir da alma as suas noções sobre a riqueza, a sua excitação e o seu sentimento doentio a respeito dela.

— Clemente de Alexandria, Quem é o Rico que Será Salvo?, 11

E explica por quê: o que Cristo pede não é o ato exterior, que outros já tinham praticado, mas algo maior, mais divino e mais perfeito — despojar a alma das próprias paixões (cap. 12). Pensem: alguém pode ficar sem nada e continuar devorado pela cobiça. E alguém pode administrar bens consideráveis com o coração inteiramente livre. Clemente completa com uma imagem que resolve a questão:

Tal instrumento é a riqueza. És capaz de usá-la retamente? Ela serve à justiça. Alguém a usa mal? Torna-se, ao contrário, ministra da injustiça.

— Clemente de Alexandria, Quem é o Rico que Será Salvo?, 14

Riqueza é ferramenta. E ferramenta se julga pelo uso. Isso não é abrandamento do Evangelho — Clemente é duríssimo com quem acumula sem dar. É precisão. A pergunta certa não é “quanto você tem?”. É: quem manda em quem? Você usa o dinheiro, ou o dinheiro usa você? Você poderia perder metade do que tem sem perder a paz? Se a resposta é não — o dono da casa não é você.

Trabalho, salário e os pobres com nome

Do princípio vêm as aplicações. Três, muito concretas.

O trabalho. Não é castigo nem mercadoria: é participação na obra do Criador. “O trabalho é um dever… o trabalho honra os dons do Criador e os talentos recebidos” (CIC 2427). E porque o trabalhador é pessoa, “o trabalho é para o homem, e não o homem para o trabalho” — a economia existe para servir gente, não o contrário (cf. CIC 2426, 2428). Disso decorre o direito ao descanso — e escutem: o domingo não é folga, é dignidade —, a segurança no emprego, o direito de associação e, em condições sérias, a greve como recurso legítimo (CIC 2429-2435).

O salário justo. O Catecismo é de uma dureza pouco conhecida: “O salário justo é o fruto legítimo do trabalho. Recusá-lo ou retê-lo pode constituir grave injustiça” (CIC 2434). E acrescenta que o acordo entre as partes não basta para justificar moralmente o valor: a remuneração deve assegurar ao trabalhador e à sua família uma vida digna no plano material, social, cultural e espiritual. Traduzindo para o Brasil, e vou ser concreto: pagar o mínimo legal a quem trabalha na sua casa pode ser legal e ainda assim injusto. Atrasar o pagamento de um pedreiro porque “ele não vai reclamar” é matéria de confissão. Contratar sem registro para economizar encargos é tirar do outro direitos que são dele. A Escritura chama isso de pecado que grita: “Eis que o salário que roubastes aos trabalhadores… clama, e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor” (Tg 5,4).

A opção preferencial pelos pobres. Não significa que Deus ame menos os outros. Significa que quem tem menos precisa mais — e que o amor vai primeiro onde a necessidade é maior. O Catecismo é explícito: “Deus abençoa os que socorrem os pobres e reprova os que deles se afastam” (CIC 2443), e recorda o duro princípio de Crisóstomo — não partilhar com os pobres os próprios bens é roubá-los, e os bens que possuímos não são nossos, mas deles (CIC 2446). Daí as obras de misericórdia, corporais e espirituais (CIC 2447): dar de comer, dar de beber, vestir, acolher, visitar doentes e presos, enterrar os mortos; instruir, aconselhar, consolar, corrigir, perdoar, suportar, rezar pelos vivos e pelos mortos. E reparem: metade da lista não custa dinheiro nenhum. Custa tempo e paciência — que muita gente dá com mais dificuldade que dinheiro.

E o cuidado da criação entra aqui, não como pauta ambiental da moda, mas como consequência direta do destino universal dos bens: os recursos não são só nossos, são também das gerações futuras. “O domínio concedido pelo Criador… não é absoluto; é regulado pela preocupação com a qualidade de vida do próximo, inclusive das gerações vindouras” (CIC 2415). Desperdiçar água, poluir o rio da cidade, comprar por impulso o que será lixo em três meses — isso tem nome moral.

A Epístola a Diogneto dá o critério que resume tudo isso e, de quebra, define o que é ser grande:

Feliz não é aquele que domina os seus vizinhos, nem o que possui mais que os fracos, nem o que é rico e oprime os inferiores; ninguém pode imitar a Deus por essas coisas. É feliz quem toma sobre si o fardo do seu próximo.

— cf. Epístola a Diogneto, cap. 10

Carregar o fardo do outro: é essa a imitação de Deus. Não é uma metáfora piedosa — é uma descrição do que Deus fez em Cristo. E do que ele espera de quem leva o nome dele.

Objeções respondidas

“Isso tudo é discurso de esquerda. A Igreja devia ficar na religião e não se meter em economia e política.” Duas respostas. A primeira é histórica: nada do que vocês ouviram hoje foi escrito por autor moderno. Ambrósio escreveu no século IV. Crisóstomo, no IV-V. Lactâncio, no III-IV. Clemente, no II. E o autor de Diogneto, talvez antes ainda. Nenhum deles conheceu ideologia política moderna alguma; todos leram o mesmo Evangelho que vocês leem. Chamar isso de “esquerda” é anacronismo — como acusar Ambrósio de plagiar um livro escrito quinze séculos depois dele. A segunda é doutrinal: a Igreja não se mete em técnica econômica, e o Catecismo é explícito ao dizer que ela intervém emitindo juízo moral quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigem (CIC 2420). Ela não sabe qual é a taxa de juros justa. Sabe que uma economia que produz gente morrendo na rua é imoral. E não percam de vista o outro lado da moeda: o mesmo corpo doutrinal defende a propriedade privada (CIC 2403), a subsidiariedade contra o coletivismo (CIC 1885), a liberdade de iniciativa econômica (CIC 2429) e condena os regimes ateus totalitários (CIC 2425). Nenhum partido brasileiro assina esse pacote inteiro. Se a Doutrina Social coubesse confortavelmente numa legenda, não seria da Igreja.

“A Igreja tem ouro, imóveis, obras de arte. Por que não vende tudo e dá aos pobres?” Essa objeção é tão antiga que Ambrósio já a respondeu — e reparem: ele respondeu na direção oposta à que se espera. Ele de fato fundiu os vasos de ouro para libertar cativos, e foi criticado por isso pelos católicos rigoristas do seu tempo. Ou seja: quando a necessidade é extrema, a tradição da Igreja não só permite como manda usar o patrimônio, porque “a Igreja tem ouro não para guardar, mas para gastar com quem precisa”. Três precisões, porém. Primeira: a maior parte do que se chama “riqueza da Igreja” são bens de uso e patrimônio cultural inalienável — catedrais, arquivos, obras de arte que pertencem à humanidade e cuja venda enriqueceria colecionadores particulares, não pobres. Segunda: a Igreja Católica é, hoje, a maior rede não estatal de assistência do planeta — hospitais, escolas, asilos, casas de acolhida, obras que só existem porque há estrutura por trás. Terceira, e a mais incômoda: essa objeção quase sempre é usada para adiar uma pergunta pessoal. A pergunta que o Evangelho faz não é o que a Igreja faz com o dela. É o que você faz com o seu. E essa você não pode terceirizar.

Para viver

  1. Reveja um pagamento seu esta semana. Quanto recebe quem limpa, cuida, entrega, constrói para você? É um valor que sustenta uma vida digna, ou apenas o que dá para pagar? Se descobrir uma injustiça, corrija — e, se for o caso, peça desculpas.
  2. Adote uma obra de misericórdia por nome, não por causa. Escolha uma pessoa concreta — o vizinho idoso sozinho, o interno do hospital, o preso que ninguém visita, a família da sua rua que está passando aperto — e faça algo por ela nesta semana, sem contar a ninguém.
  3. Entre numa obra da paróquia (Pastoral da Criança, Vicentinos, Pastoral Carcerária, distribuição de alimentos, catequese) e assuma uma tarefa fixa. Solidariedade avulsa comove; solidariedade organizada transforma.
  4. Faça um exame de consciência sobre o bem comum: sonegação, “jeitinho”, propina pequena, pirataria, lixo na rua, desperdício de água, uso indevido de recurso público. Escolha um item e corte.
  5. Estude antes de opinar. Leia, nesta semana, os números 2419-2449 do Catecismo (são poucas páginas) antes da próxima discussão política que você tiver. E assuma o compromisso de nunca defender um candidato, um partido ou uma pauta sem passá-los pelo critério da dignidade da pessoa e do bem comum.

Para rezar

Rezemos com a oração atribuída a São Francisco, e depois em silêncio, cada um pensando num nome concreto:

Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver trevas, que eu leve a luz; onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Senhor Jesus Cristo, que sendo rico vos fizestes pobre para nos enriquecer com a vossa pobreza (cf. 2Cor 8,9): abri os nossos olhos para vos reconhecer no rosto de quem tem fome, de quem trabalha e não recebe o justo, de quem ninguém visita. Livrai-nos da avareza que se disfarça de prudência e da indiferença que se disfarça de realismo. Ensinai-nos a usar os bens que nos confiastes como administradores, e não como donos. E fazei da nossa comunidade um lugar onde ninguém seja tratado como coisa. Amém.

Nossa Senhora, que cantastes que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, e enche de bens os famintos (cf. Lc 1,52-53): rogai por nós.

Referências desta aula