Creio V — A santa Igreja Católica, a comunhão dos santos e a vida eterna
A Igreja una, santa, católica e apostólica; o perdão dos pecados; a ressurreição da carne.
Ano 107, mais ou menos. Um velho atravessa a Ásia Menor acorrentado.
O nome dele é Inácio. Bispo de Antioquia — a cidade onde os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez (At 11,26). Está sendo levado a Roma para morrer devorado por feras no anfiteatro. Vai algemado a um destacamento de soldados que o maltrata por esporte. E ele descreve a escolta com um humor sombrio que atravessou dezenove séculos. Escutem:
Da Síria até Roma combato com feras, por terra e por mar, de noite e de dia, acorrentado a dez leopardos — isto é, a um destacamento de soldados, que só se tornam piores quando recebem algum benefício.
— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Romanos, cap. 5
Agora reparem no que esse homem fez com o pouco tempo que lhe restava.
Não escreveu testamento. Não pediu socorro. Não redigiu defesa. Nas paradas do caminho, escreveu cartas às comunidades cristãs — e o assunto é quase sempre o mesmo: fiquem unidos, fiquem com o bispo, não se deixem arrancar do corpo. Aos cristãos de Roma, suplicou que não interferissem para salvá-lo: “sou trigo de Deus, e sou moído pelos dentes das feras, para que eu seja encontrado pão puro de Cristo” (Romanos 4). E, ao explicar aos cristãos de Esmirna por que a unidade importava tanto, usou uma expressão que ali aparecia pela primeira vez em toda a literatura cristã:
Onde aparecer o bispo, aí esteja a comunidade; assim como, onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja católica.
— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Esmirnenses, cap. 8
“Igreja católica.”
A palavra que hoje está na placa da nossa paróquia foi cunhada por um condenado à morte, no ano 107, para dizer uma coisa simples e enorme: onde está Cristo, está a Igreja inteira.
Hoje nós fechamos o Credo. Os artigos que sobraram: a santa Igreja católica, a comunhão dos santos, o perdão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna. E vocês vão ver que eles não são um apêndice institucional pregado no fim de uma confissão de fé sobre Deus. São o lugar onde Deus decidiu chegar até você.
“Creio a santa Igreja”: uma preposição que muda tudo
Começo por um detalhe de gramática que os Padres levavam a sério — e vocês já viram, nesta caminhada, que preposição derruba império.
No Símbolo dos Apóstolos dizemos “creio em Deus Pai”, “creio em Jesus Cristo”, “creio no Espírito Santo”. E então, ao chegar à Igreja, a fórmula latina muda: Credo… sanctam Ecclesiam catholicam. Sem o “em”. O Catecismo explica: professamos crer a Igreja santa, e não na Igreja, “para não confundir Deus com as suas obras e para atribuir claramente à bondade de Deus todos os dons que Ele próprio pôs na sua Igreja” (CIC 750).
Isso resolve o mal-entendido mais comum. A Igreja não é um quarto deus. Ninguém aqui adora uma instituição. Cremos em Deus — e cremos que Deus fez uma Igreja, e que a fez por um motivo. “A Igreja não tem outra luz senão a de Cristo” (CIC 748). Os Padres a comparavam à lua, cuja luz é toda reflexo da do sol. Uma lua não é um sol. Mas quem já andou de noite sabe a diferença que faz.
A própria palavra ajuda: ekklesía vem de ek-kalein, “chamar para fora” (CIC 751). Significa convocação. Não é um clube em que a gente se inscreve por afinidade — é uma assembleia em que a gente é convocado por Alguém. O mesmo termo traduzia, na Bíblia grega, a assembleia de Israel no Sinai. Deus sempre salvou fazendo povo. Nunca colecionando indivíduos.
E de onde nasceu essa Igreja? “Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja” (CIC 766); manifestada depois em Pentecostes (CIC 767). Assim como Eva foi tirada do lado de Adão adormecido, a Igreja nasceu do coração trespassado de Cristo morto.
Mistério, não organização
Quando eu digo “a Igreja”, o que vem à cabeça de vocês?
Sejamos francos: hierarquia, prédios, documentos — e escândalos no noticiário. Tudo isso existe. E nada disso é o principal. “Só com os olhos da fé é que se pode ver na sua realidade visível… uma realidade espiritual, portadora de vida divina” (CIC 770).
O Novo Testamento não define a Igreja: descreve-a com imagens. Três dizem quase tudo.
Ela é Povo de Deus — no qual não se entra por nascimento biológico, mérito ou classe social, mas por um novo nascimento na água e no Espírito, com Cristo por cabeça e a dignidade dos filhos de Deus por condição (cf. CIC 781-786).
Ela é Corpo de Cristo — e esta é a imagem mais radical. Lembrem da estrada de Damasco. Saulo perseguia cristãos, foi derrubado no chão, e a voz não disse “por que persegues os meus”. Disse: “por que me persegues?” (At 9,4). Ele estava prendendo pescadores e viúvas — e Cristo chamou aquilo de “mim”. Desde então Paulo escreve que somos “membros uns dos outros” (Ef 4,25) e que “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Cor 12,26). Não é metáfora piedosa. É identificação real.
E ela é Templo do Espírito Santo: o Espírito é a alma desse corpo, e é ele quem distribui carismas diferentes — diferentes de propósito — para o bem de todos. Sem essa terceira imagem, a Igreja seria organização humana com boas intenções, e já teria morrido como todas elas. Não morreu. Enterrou impérios. E continua batizando gente na periferia do mundo hoje de manhã.
O efeito prático das três imagens juntas é um só: não existe cristianismo por conta própria. Não existe membro de um corpo vivendo separado do corpo. A isso se dá outro nome — e não é vida.
As quatro notas: una, santa, católica, apostólica
O Credo não elogia a Igreja. Descreve-a com quatro adjetivos que ela não confere a si mesma: “É Cristo que, pelo Espírito Santo, concede à sua Igreja que seja una, santa, católica e apostólica, e é ainda Ele que a chama a realizar cada uma destas qualidades” (CIC 811). São dons recebidos e tarefas a cumprir — e é por isso que a distância entre o que a Igreja é e o que ela aparenta não anula nenhuma das quatro.
Una
A Igreja é una porque Deus é um: “o supremo modelo e princípio deste mistério é a unidade na Trindade das pessoas” (CIC 813). Um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Ef 4,5). Isso não é uniformidade — desde a origem há diversidade de povos, ritos, temperamentos e dons, e “a grande riqueza desta diversidade não se opõe à unidade da Igreja” (CIC 814). O que se opõe à unidade é o pecado. E nomeadamente o pecado de rasgar.
A página decisiva sobre isso foi escrita em pleno terremoto. Cartago, ano 251. A perseguição de Décio tinha exigido de todo cidadão um certificado de sacrifício aos deuses do Império — e milhares de cristãos cederam. Passada a tempestade, esses “caídos” batem à porta querendo voltar. A comunidade racha entre rigoristas e laxistas. Surgem bispos paralelos, altares paralelos, igrejas paralelas. É nesse incêndio que São Cipriano escreve o Tratado sobre a Unidade da Igreja. Escutem a imagem:
Assim como há muitos raios do sol, mas uma só luz; e muitos ramos numa árvore, mas um só tronco firmado numa raiz tenaz; e como de uma só fonte correm muitos regatos, e a multiplicidade parece difundir-se na abundância transbordante, ainda assim a unidade se conserva na origem.
— São Cipriano de Cartago, Sobre a Unidade da Igreja, cap. 5
A unidade não está na semelhança dos raios entre si. Está na fonte comum. Por isso dois católicos podem ser politicamente opostos e ainda assim comungar do mesmo altar. E por isso separar-se da fonte não gera um sol novo — gera escuridão. Cipriano acrescenta um argumento tirado do Calvário: os soldados dividiram entre si as vestes de Jesus, mas diante da túnica sem costura, pararam.
Quanto à túnica, porque não era costurada, mas tecida de alto a baixo, disseram uns aos outros: não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela.
— São Cipriano de Cartago, Sobre a Unidade da Igreja, cap. 7
E o comentário de Cipriano é uma facada. Soldados pagãos, no auge da brutalidade, respeitaram a túnica inteira de Cristo. E cristãos batizados rasgam a Igreja — por vaidade, por mágoa, por disputa de poder.
Agora a pergunta doméstica. Não precisa responder em voz alta: quantas vezes você já ajudou a rasgar o que podia ter ficado inteiro?
Santa
Este é o adjetivo que provoca riso amargo em muita gente. E a Igreja o professa mesmo assim.
Ela é santa porque “Cristo amou a Igreja como sua esposa, entregou-Se por ela para a santificar” (CIC 823). A santidade dela não é a média moral dos seus membros — é a presença de Cristo e do Espírito, e os meios de salvação que ela guarda.
Mas o Catecismo não se esconde atrás disso. Prestem atenção, porque pouquíssimas instituições no mundo dizem isso de si mesmas por escrito: “a Igreja, que no seu próprio seio encerra pecadores, é simultaneamente santa e chamada a purificar-se… Todos os membros da Igreja, inclusive os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores” (CIC 827). Nenhuma pretensão de assepsia. É a confissão de um hospital que sabe que é hospital.
Santo Agostinho, pregando aos catecúmenos que seriam batizados na Páscoa — gente na mesma situação de vocês —, resumiu essa dupla verdade num brasão:
Esta é a santa Igreja, a Igreja una, a Igreja verdadeira, a Igreja católica, que combate contra todas as heresias: combater, ela pode; ser vencida, não pode.
— Santo Agostinho, Sobre o Credo: Sermão aos Catecúmenos, 14
Agostinho não estava sendo ingênuo. Estava dizendo que a Igreja apanha, sangra, erra, se envergonha — e não acaba.
Católica
“Católico” traduz o grego katholikós: segundo a totalidade, segundo a integridade. E o Catecismo, ao explicar o termo, cita justamente o nosso velho acorrentado: a Igreja é católica “porque Cristo está presente nela: onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica” (CIC 830).
Católica primeiro por plenitude, não por tamanho. Ela guarda a fé íntegra, a vida sacramental completa e o ministério ordenado na sucessão apostólica — e nesse sentido já era católica em Pentecostes, quando cabia num andar de uma casa em Jerusalém. O segundo sentido é o conhecido: universal, enviada a todos (CIC 831).
Daí uma consequência prática que eu quero que vocês guardem: a menor capela do interior não é sucursal de Roma, porque “nestas comunidades, ainda que muitas vezes pequenas e pobres ou dispersas, está presente Cristo” (CIC 832). A Igreja inteira está ali. Você nunca reza sozinho — mesmo quando são seis pessoas num dia de chuva.
Apostólica
A Igreja é apostólica em três sentidos (CIC 857): está construída sobre o alicerce dos Apóstolos; guarda o depósito recebido deles; e continua a ser ensinada e pastoreada pelos sucessores deles, o colégio dos bispos em união com o sucessor de Pedro. Não é nostalgia. É cadeia de transmissão verificável — nome por nome, imposição de mãos por imposição de mãos.
Voltem a Inácio para sentir o peso disso. Quando ele insiste em nada fazer sem o bispo, não está defendendo autoritarismo: está protegendo a única garantia concreta de que o Cristo pregado em Esmirna era o mesmo que morrera em Jerusalém setenta anos antes — e não uma versão inventada pelo mestre da moda.
E a questão é de vocês também. Como é que você sabe que o Jesus em que você crê não é apenas o Jesus que você gostaria que existisse? A resposta católica não é “porque eu senti”. É: porque recebi de quem recebeu de quem recebeu — e a corrente tem nomes.
“Fora da Igreja não há salvação”: o que isso quer dizer de verdade
Nenhuma frase da tradição católica é hoje mais mal citada do que essa. Ela vem do mesmo Cipriano, no calor daquela crise de Cartago — e o contexto é decisivo: ele falava a cristãos batizados que estavam saindo da Igreja para fundar a sua própria. Não a hindus, judeus ou ateus do outro lado do mundo.
Não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe.
— São Cipriano de Cartago, Sobre a Unidade da Igreja, cap. 6
O que a Igreja ensina hoje, em três tempos.
Primeiro, o sentido positivo: “toda a salvação vem de Cristo-Cabeça pela Igreja que é o seu Corpo” (CIC 846). Por isso quem, sabendo que Deus fundou a Igreja Católica como necessária, se recusa a entrar nela ou a nela perseverar, não se pode salvar. Escutem onde está o peso: naquele “sabendo”. É advertência a vocês — que estão aqui, e estão entendendo. Não é condenação de quem nunca teve a chance.
Segundo, o limite explícito: “Esta afirmação não visa aqueles que, sem culpa da sua parte, ignoram Cristo e a sua Igreja” (CIC 847). Podem salvar-se os que, ignorando sem culpa o Evangelho, procuram Deus de coração sincero e se esforçam por cumprir a sua vontade conforme a consciência lhes dita. Deus não condena ninguém por não ter recebido uma carta que nunca lhe foi entregue.
Terceiro, a consequência que quase todo mundo esquece: se Deus pode salvar por caminhos só dele conhecidos, isso aumenta — e não diminui — a obrigação de anunciar (CIC 848). A doutrina não é um mapa para calcular quem está fora. É um mandato para quem está dentro.
E Cipriano não escreveu aquilo de um gabinete. Guardem a cena: 14 de setembro de 258. O procônsul lê a sentença de decapitação. E Cipriano responde duas palavras: Deo gratias. Graças a Deus.
A comunhão dos santos: a família inteira, viva e morta
Logo depois de “a santa Igreja católica”, o Credo acrescenta “a comunhão dos santos”. Este artigo explicita o anterior: “que é a Igreja senão a assembleia de todos os santos? A comunhão dos santos é precisamente a Igreja” (CIC 946). A expressão tem dois sentidos entrelaçados (CIC 948): comunhão nas coisas santas — os sacramentos, a fé, a Palavra, os carismas — e comunhão entre as pessoas santas. Na Igreja existe um fundo comum: “uma vez que todos os crentes formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros” (CIC 947).
Agora escutem esta frase devagar, porque ela muda o tamanho da sua vida escondida: “O mais insignificante dos nossos actos, realizado na caridade, reverte em proveito de todos… Pelo contrário, todo o pecado prejudica esta comunhão” (CIC 953).
A sua oração escondida às seis da manhã. A paciência com a sua mãe doente. A dor que você ofereceu em silêncio. Nada disso se perde — e tudo isso chega a gente que você nunca vai conhecer. E o seu pecado, mesmo o secreto, empobrece o corpo inteiro. Não existe pecado privado. Existe pecado escondido.
Essa família tem três estados (CIC 954). A Igreja peregrina: nós, que ainda caminhamos na terra, ainda podendo cair e ainda podendo crescer. A Igreja purgante: os que morreram na graça de Deus mas ainda em purificação — não porque a misericórdia seja insuficiente, mas porque o amor precisa terminar de queimar em nós o que não é amor (CIC 1030-1031). A Igreja triunfante: os que já veem Deus face a face. E o ponto capital: a morte não corta a comunicação. “De modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo” (CIC 955).
Daí as duas práticas católicas que mais estranheza causam a quem vem de fora — e que agora deveriam parecer óbvias.
Pedimos a intercessão dos santos porque “eles não cessam de interceder a nosso favor diante do Pai” e “a nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude fraterna” (CIC 956). Ninguém adora santo. Ninguém substitui Cristo. Pede-se a um santo o que se pede a um amigo vivo: reze por mim. Façam a conta comigo: se é lícito pedir oração ao irmão do banco ao lado — que é pecador e distraído —, por que seria ilícito pedi-la a quem já chegou e vê Deus?
E rezamos pelos mortos porque “é um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam livres de seus pecados” (2Mac 12,46, em CIC 958). É a coisa mais concreta que se pode fazer por alguém que a gente enterrou. Aqui não existe aquele abismo de olhar uma foto sem nada a oferecer. Existe missa. Existe oração. Existe esmola pelos defuntos (CIC 1032).
Creio no perdão dos pecados
O artigo seguinte cabe numa linha — mas traz uma observação que passa batida: no Credo, o perdão dos pecados vem ligado ao Espírito Santo e à Igreja (CIC 976). Não é por acaso. Foi soprando o Espírito sobre os Apóstolos que Cristo ressuscitado lhes entregou o próprio poder divino de perdoar: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20,22-23).
O primeiro e principal sacramento do perdão é o Batismo (CIC 977). Mas o Catecismo pergunta — e a pergunta é sobre cada um de nós: “Neste combate contra a inclinação para o mal, quem seria suficientemente forte e vigilante para evitar todas as feridas do pecado?” (CIC 979).
Ninguém. Por isso era preciso que a Igreja pudesse perdoar as faltas de todo penitente, “até mesmo ao último dia da sua vida”.
Agostinho, no mesmo sermão aos catecúmenos, resume o caminho inteiro:
De três modos se perdoam os pecados na Igreja: pelo Batismo, pela oração e pela humildade maior da penitência.
— Santo Agostinho, Sobre o Credo: Sermão aos Catecúmenos, 16
Três portas. Nenhuma trancada. E o mesmo Agostinho, num outro sermão sobre o Credo que o Catecismo cita, diz o que aconteceria se essa porta não existisse:
Se na Igreja não houvesse a remissão dos pecados, nada haveria a esperar, não existiria qualquer esperança de uma vida eterna, de uma libertação eterna. Demos graças a Deus, que deu à sua Igreja um tal dom.
— Santo Agostinho, citado no Catecismo, n. 983
Guardem isto para a aula da Confissão: “Não há nenhuma falta, por mais grave que seja, que a santa Igreja não possa perdoar” (CIC 982).
Nenhuma.
Se você entrou nesta sala carregando um episódio que nunca disse em voz alta — é exatamente disso que estamos falando. Está previsto. Tem endereço, tem horário e tem quem escute.
A ressurreição da carne e a vida eterna
O Credo termina onde ninguém esperaria que terminasse uma confissão de fé sobre Deus: falando do seu corpo. “O Credo cristão culmina na proclamação da ressurreição dos mortos no fim dos tempos, e na vida eterna” (CIC 988).
Reparem no escândalo. Nós não dizemos “creio na imortalidade da alma” — isso qualquer platônico assinaria sem constrangimento. Dizemos ressurreição da carne. E “carne” designa o homem na sua condição de fraqueza e mortalidade, de modo que, depois da morte, “os nossos corpos mortais retomarão a vida” (CIC 990). O destino cristão não é virar espírito. Não é virar anjo. Não é virar lembrança boa. É ressuscitar inteiro. Com corpo. Reconhecível.
São Gregório de Nissa, escrevendo o Grande Catecismo por volta de 385 para instruir os catequistas do seu tempo, usa uma imagem de oleiro para explicar por que a morte não é o fim nem é castigo puro. Como um vaso de barro quebrado e contaminado, o homem se dissolve no pó — mas o oleiro dissolve o material justamente para poder remodelá-lo. Escutem:
Aquele que fez o nosso vaso, agora que a maldade se misturou à nossa parte sensível, dissolverá a matéria que recebeu o mal e a remodelará de novo pela Ressurreição, sem mistura da matéria contrária.
— São Gregório de Nissa, O Grande Catecismo, cap. 8
Ele define ainda a ressurreição como o retorno dos elementos separados a uma união que nunca mais será quebrada (Grande Catecismo, 16). A morte separa o que Deus unira; a ressurreição une para sempre o que a morte separou.
E Gregório explica também por que Deus escolheu esse caminho tortuoso — encarnação, cruz, sepultura — em vez de resolver tudo por decreto. A divindade, diz ele, escondeu-se sob o véu da nossa natureza,
para que, como acontece com os peixes vorazes, o anzol da Divindade fosse engolido junto com a isca da carne; e assim, sendo introduzida a vida na casa da morte, e brilhando a luz nas trevas, se desvanecesse aquilo que é diametralmente oposto à luz e à vida.
— São Gregório de Nissa, O Grande Catecismo, cap. 24
A imagem é rude de propósito. Deus não venceu a morte por fora, com um golpe de força. Entrou nela. Deixou-se engolir. E, uma vez dentro, a vida não pôde ser digerida. A morte engoliu Cristo e se engasgou.
Engolirá você — e vai se engasgar de novo.
O que vem depois, a aula 24 vai abrir inteiro. Por ora, em resumo: Céu é “esta vida perfeita com a Santíssima Trindade, esta comunhão de vida e de amor com Ela, com a Virgem Maria, com os anjos e todos os bem-aventurados” (CIC 1024). Purgatório é a purificação final dos que morrem na graça de Deus mas não de todo purificados — distinta do castigo dos condenados (CIC 1030-1031). Inferno — e aqui o Catecismo não o descreve como vingança de Deus, e sim como consequência da liberdade: morrer em pecado mortal sem arrependimento significa “permanecer separado d’Ele para sempre, por nossa própria livre escolha” (CIC 1033). O inferno é uma porta trancada por dentro. E, no fim, “novos céus e nova terra” (2Pd 3,13; CIC 1043), quando Deus for “tudo em todos” (1Cor 15,28).
Santo Agostinho, no Enquirídio — o manual que escreveu para um leigo chamado Lourenço, que queria a fé cristã resumida num livro de mão —, organiza tudo isso em três palavras: Deus é adorado com fé, esperança e amor, e quem sabe o que deve crer, o que deve esperar e o que deve amar sabe o essencial (Enquirídio, 3). É exatamente o que o Credo faz: diz o que cremos e, nos últimos artigos, o que esperamos. Por isso ele termina no futuro.
Um cristão é alguém que sabe como a história acaba.
Duas objeções que precisam de resposta
“Eu creio em Deus, mas não preciso de igreja. Minha fé é entre mim e Ele.”
Quem aqui nunca ouviu essa frase? Talvez de alguém da própria casa.
Comecem pela lógica: se Cristo fundou uma Igreja — e fundou: entregou chaves, mandou batizar, instituiu a Eucaristia —, dispensá-la não é intimidade com Deus. É correção do plano dele.
Depois, pela experiência. Uma fé sem Igreja não sobrevive a três coisas. Ao erro — porque não há quem te corrija, e a fé que só se alimenta de si mesma vira o retrato do próprio dono. Ao tempo — porque o entusiasmo religioso solitário tem prazo de validade curto. E à dor — porque no dia em que a vida quebrar, você vai precisar de gente com nome, endereço e mãos. Agostinho disse aos catecúmenos que eles começam a ter Deus por Pai quando nascem da Igreja como Mãe (Sobre o Credo: Sermão aos Catecúmenos, 1). Filiação e maternidade andam juntas: é ela quem te gera para Deus, te alimenta com a Palavra e os sacramentos — e te enterra rezando.
E há o argumento do qual é mais difícil escapar. Você não pode se batizar sozinho. Não pode se absolver sozinho. Não pode se dar a Eucaristia sozinho. Cristo escolheu chegar a você por mãos humanas. Recusar as mãos é recusar o que elas trazem.
“A Igreja é cheia de pecadores — e não são pecadorezinhos: é gente que abusou, roubou, encobriu.”
Sim. E o mais grave: a Igreja diz isso de si mesma antes de qualquer crítico (CIC 827). O joio está misturado ao trigo até o fim dos tempos (Mt 13,24-30). Mas reparem em três coisas.
Primeira: você também está na lista. A tentação, ao apontar a corrupção da Igreja, é se colocar do lado de fora, no lugar de juiz — e esse lugar não existe. A frase honesta não é “a Igreja é cheia de pecadores”. É “a Igreja é cheia de pecadores, e eu sou um deles”. Isso não anula a indignação: indignar-se diante do abuso é obrigação cristã, e encobrir crime é pecado grave. Mas muda o tom de quem se indigna.
Segunda: a santidade da Igreja nunca foi a média dos seus membros. Se fosse, ela teria caído no primeiro século — quando um dos Doze traiu e o primeiro Papa negou três vezes. Ela é santa porque Cristo está nela. E é por isso que o pecado dos seus membros escandaliza tanto: contradiz o que ela é.
Terceira: julguem a árvore pelos melhores frutos, não só pelos podres. A mesma instituição que produziu bispos indignos produziu Cipriano decapitado, Inácio devorado, Agostinho convertido, Francisco de Assis, Teresa de Calcutá — e a rede de hospitais e escolas mais antiga da história humana. Se a Igreja fosse apenas humana, os próprios pecados dela já a teriam destruído há dezessete séculos. Ela continua de pé. E Agostinho já sabia por quê: combater, ela pode; ser vencida, não pode.
Para viver
- Reze pelos seus mortos, com nome. Esta semana, escolha três pessoas que você enterrou e mande rezar uma missa por elas — ou reze um terço por cada uma. A comunhão dos santos deixa de ser doutrina no dia em que você a usa.
- Escolha um santo e faça amizade. Não um santo de calendário: um santo cuja vida se pareça com o seu problema. Leia dez páginas sobre ele e peça a sua intercessão todos os dias desta semana.
- Não rasgue nada. Identifique uma relação que você está rompendo — na família, no trabalho, na comunidade — e dê um passo concreto de reconciliação antes do próximo encontro. Lembre-se dos soldados que não rasgaram a túnica.
- Vá à Missa dominical como quem vai a um encontro de família. Chegue cinco minutos antes, olhe para as pessoas ao redor e reze por três delas pelo nome ou pelo rosto. Elas são o seu corpo.
- Marque a Confissão. Ponha na agenda, agora, o dia e a hora em que você vai se confessar antes do fim deste bloco. Não há falta que a Igreja não possa perdoar (CIC 982) — mas ela não perdoa o que ninguém traz.
Para rezar
Terminemos rezando o artigo que estudamos, devagar, como quem assina um documento:
Creio na santa Igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.
E depois, esta oração:
Senhor Jesus Cristo, que do teu lado aberto fizeste nascer a tua Igreja: perdoa-nos por tê-la tratado tantas vezes como um serviço que decepciona, e ensina-nos a amá-la como Mãe. Dá-nos a coragem de Inácio, que amou a unidade até as feras; a firmeza de Cipriano, que preferiu a morte à divisão; a humildade de Agostinho, que se soube pecador dentro dela. Recebe os nossos mortos e purifica-os depressa. Perdoa os nossos pecados, também os que não ousamos dizer em voz alta. E ressuscita-nos, inteiros, no último dia — para que, com a Igreja peregrina, purgante e triunfante, sejamos um só povo diante do teu rosto, para sempre. Amém.
Santa Maria, Mãe da Igreja, rogai por nós. Todos os santos e santas de Deus, rogai por nós.