Cesareia da Capadócia. Ano 372, mais ou menos.

O prefeito imperial Modesto manda chamar o bispo da cidade. Um homem de quarenta e poucos anos, de saúde arruinada, chamado Basílio. O imperador Valente é ariano e quer o Oriente inteiro alinhado. E Modesto começa pelo repertório que sempre funcionou: confisco de bens. Exílio. Tortura. Morte.

Escutem a resposta do bispo — o amigo dele, Gregório Nazianzeno, registrou a cena, e é uma das mais espantosas da história cristã.

Confisco? Não se confisca nada de quem não tem nada — a não ser que o senhor queira estes trapos e os poucos livros. Exílio? Não existe exílio para quem não está preso a lugar nenhum. Tortura? O meu corpo se quebra ao primeiro golpe. Morte? A morte é minha benfeitora: me leva mais depressa para Deus.

O prefeito fica atônito. E deixa escapar:

Ninguém jamais falou assim, com tanta ousadia, a Modesto.

E Basílio devolve, sem levantar a voz:

Talvez o senhor nunca tenha encontrado um bispo.

— São Gregório Nazianzeno, Oração 43 (Panegírico de São Basílio), 49-50

Agora a pergunta que interessa: por que esse homem estava sendo caçado?

Não era por dinheiro. Não era por política. Não era por moral.

Era por causa de uma preposição.

Na liturgia, Basílio rezava a doxologia de dois modos: “Glória ao Pai com o Filho com o Espírito Santo” — e não apenas “ao Pai por meio do Filho no Espírito Santo”. Percebem a diferença? A primeira fórmula põe as três Pessoas no mesmo nível. A segunda podia ser lida como uma escada — com o Espírito no degrau mais baixo, quase um funcionário de Deus. Denunciaram Basílio por inovação. E ele respondeu com um livro inteiro: o Sobre o Espírito Santo, escrito por volta de 375, que preparou o terreno para o Concílio de Constantinopla, em 381, definir aquilo que nós rezamos até hoje no Credo: o Espírito Santo é “Senhor que dá a vida, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”.

Guardem a lição da cena: na fé cristã, nunca se briga por palavras. Briga-se pelo que as palavras carregam. E o que estava em jogo era isto: aquele que age dentro de você é Deus mesmo — ou é uma energia criada que Deus emprestou?

O grande desconhecido

Vamos ser honestos logo no começo.

Se eu pedisse a cada um de vocês para falar dois minutos sobre o Pai, a maioria falaria. Sobre Jesus, quase todos. Agora — sobre o Espírito Santo?

Essa sala provavelmente ficaria em silêncio. Ou alguém mencionaria, meio vago, uma pomba, umas línguas de fogo, a Crisma. O Espírito Santo é, para a maioria dos batizados, uma espécie de terceiro convidado de quem se sabe o nome e nada mais.

E essa ignorância não é inofensiva. Ela empobrece exatamente a parte prática da vida cristã. Porque o Espírito não é um apêndice da fé — é o modo como Deus mora em você agora. O Catecismo abre o capítulo com clareza: “Ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ senão sob a ação do Espírito Santo” (CIC 683, citando 1Cor 12,3). Escutem bem o que isso significa: até a sua fé — aquilo que você julga ser conclusão sua — já é obra dele. Você não chegou a Deus por raciocínio próprio. Você foi conduzido. E o condutor tem nome.

O mesmo parágrafo continua com uma frase que vale a aula inteira: o Espírito é “o último na revelação das Pessoas da Santíssima Trindade” e, no entanto, “é o primeiro na ordem da nossa iniciação”, porque é ele quem nos desperta a fé (cf. CIC 683-684). Ele é o último a ser nomeado — e o primeiro a agir. Como o ar: ninguém olha para o ar. Olha-se através dele.

E é justamente por isso que ele é discreto. O Catecismo observa que o Espírito não fala de si mesmo: ele “não se faz ouvir” a si próprio, mas nos revela Cristo (cf. CIC 687). Assim como não vemos a luz, mas vemos tudo por causa dela, não percebemos o Espírito diretamente — percebemos que Cristo ficou nítido. Se, ao longo deste ano, Jesus foi se tornando mais real para você, não foi o catequista.

Foi ele.

Ele é Alguém, não alguma coisa

Este é o ponto que mais precisa de correção, porque a linguagem popular estraga tudo. Vocês já ouviram: “receber uma força”, “sentir a energia”, “deixar o Espírito fluir”. Esse vocabulário transforma a terceira Pessoa da Trindade numa espécie de eletricidade divina.

O Credo não deixa margem. Cremos no Espírito Santo — com a mesma preposição com que cremos no Pai e no Filho. O Catecismo define: “Crer no Espírito Santo é professar que ele é uma das Pessoas da Santíssima Trindade, consubstancial ao Pai e ao Filho, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado” (cf. CIC 685). E ainda: “Aquele que o Pai enviou aos nossos corações, o Espírito de seu Filho, é realmente Deus” (CIC 689).

Reparem na consequência prática, que não é pequena: você não usa o Espírito Santo. Você obedece ao Espírito Santo. Energia se aciona. Pessoa se ama, se escuta, se contraria — ou se entristece. Não é à toa que São Paulo escreve “não entristeçais o Espírito Santo de Deus” (Ef 4,30). Entristecer. Um verbo que só se aplica a alguém que tem coração.

Mas como é que três Pessoas são um só Deus sem se confundirem? A resposta mais elegante da tradição veio de São João Damasceno, o último dos Padres gregos — monge no mosteiro de São Sabas, perto de Jerusalém, já sob domínio muçulmano, no século VIII. Na sua Exposição da Fé Ortodoxa, ele descreve o que os teólogos chamam de pericorese: a inabitação mútua, a compenetração das Pessoas divinas. Escutem:

As subsistências habitam e estão firmemente estabelecidas umas nas outras, sem se fundirem nem se misturarem, mas aderindo umas às outras.

— São João Damasceno, Exposição da Fé Ortodoxa, I, 8

Cada Pessoa está inteiramente dentro das outras duas, sem que nenhuma perca o que lhe é próprio. Não são três pedaços de Deus. Não são três máscaras de um mesmo ator. São três que se possuem mutuamente numa única vida divina. Do Espírito, o Damasceno diz de um modo lindíssimo: ele procede do Pai e repousa no Verbo, manifestando-o (cf. I, 7). Ele é, por assim dizer, o Amor que circula.

E agora prestem atenção: foi nesse círculo que você foi enxertado no Batismo.

Isso não é abstração de seminário. É a razão pela qual a vida cristã não é solitária nem legalista: você foi convidado a morar dentro de uma relação. O Catecismo resume: “Deus é Amor, e o Amor é o primeiro dom” (CIC 733).

Por que a Escritura parece falar tão pouco dele

Uma objeção antiga e sincera — talvez alguém aqui já tenha pensado nela: se o Espírito é Deus, por que a Bíblia não diz isso com todas as letras, como diz do Pai? Por que ele aparece tão de lado?

Quem respondeu isso de vez foi São Gregório Nazianzeno, o poeta-teólogo da Capadócia, amigo de Basílio — o único homem da história a receber o título de “o Teólogo” junto com o evangelista João. Imaginem a cena: ano 380, uma pequena capela de Constantinopla, cidade dominada pelos arianos. Gregório prega para um punhado de católicos. Chegou a ser apedrejado. E é ali, naquele canto acuado, que ele profere os cinco Discursos Teológicos. No quinto, dedicado ao Espírito Santo, está a resposta:

O Antigo Testamento proclamou o Pai abertamente, e o Filho mais obscuramente. O Novo manifestou o Filho e insinuou a divindade do Espírito.

— São Gregório Nazianzeno, Oração 31 (Quinto Discurso Teológico), 26

E ele explica: agora o Espírito habita entre nós e nos dá uma demonstração mais clara de si mesmo. O argumento de Gregório é a revelação progressiva — a pedagogia divina. Deus não despejou tudo de uma vez porque ninguém aprende assim. A um povo cercado de politeísmo, primeiro se ensina que Deus é um. Firmada a unidade, revela-se o Filho. Firmada a divindade do Filho, revela-se o Espírito. Gregório compara com a alimentação: não se dá carne a recém-nascido. Não se ofusca com luz plena o olho acostumado ao escuro.

E isso vale para você. Deus também não lhe entrega tudo no primeiro dia. Ele revela na medida em que você consegue receber — e cobra na medida em que revelou. Quem se queixa de que Deus é lento, normalmente, está com bastante coisa já revelada e ainda não obedecida.

No mesmo discurso, Gregório fecha o cerco com uma lógica sem saída:

É Deus o Espírito? Certamente. Então é consubstancial? Sim, se é Deus.

— São Gregório Nazianzeno, Oração 31, 10

E arremata com o argumento decisivo — tirado não de especulação, mas do que a Igreja faz:

Se ele não deve ser adorado, como me diviniza pelo Batismo? E se deve ser adorado, é objeto de adoração; e se é objeto de adoração, como não seria Deus?

— São Gregório Nazianzeno, Oração 31, 28

Traduzo. Você foi batizado “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Três nomes — uma só fórmula — um só nome: “em nome”, no singular. Se o terceiro fosse criatura, a Igreja estaria misturando Deus e criatura na porta de entrada da salvação. Impossível. Portanto, o Espírito é Deus.

Os nomes, os títulos e os símbolos

O Catecismo dedica uma bela seção a como o Espírito é nomeado e figurado (CIC 691-701). Vamos percorrê-la juntos, porque cada imagem ensina uma coisa diferente sobre o que ele faz em você.

O nome próprio é “Espírito Santo” — o que adoramos e glorificamos com o Pai e o Filho (CIC 691). “Espírito” traduz o hebraico ruah: sopro, ar, vento. Aquilo que é invisível, indispensável — e que se percebe pelos efeitos.

Os títulos vêm sobretudo de Jesus na Última Ceia (CIC 692-693): Paráclito — palavra grega que significa ao mesmo tempo Consolador e Advogado de defesa; Espírito da Verdade; e ainda Espírito da promessa, Espírito de adoção, Espírito de Cristo, Espírito de glória. Guardem um: “Advogado”. Num mundo em que o acusador trabalha dia e noite dentro da sua cabeça, você tem defensor contratado morando em você.

Os símbolos (CIC 694-701) formam um pequeno catecismo visual:

  • A água (694): o Espírito é a água viva que jorra de Cristo; é por ela que renascemos no Batismo. Água limpa, mata a sede e faz crescer — as três coisas que ele faz.
  • A unção (695): o óleo penetra e não fica na superfície. Por isso o crisma da Crisma: ele entra.
  • O fogo (696): “transforma em Deus o que toca”. Fogo aquece, ilumina, purifica e queima o que não presta. Se a sua fé está fria, é dele que você precisa.
  • A nuvem e a luz (697): a nuvem do Êxodo, a nuvem da Transfiguração. Ele revela escondendo — nem sempre você entenderá o que Deus faz enquanto ele o faz.
  • O selo (698): marca indelével. O Batismo, a Crisma e a Ordem imprimem um caráter que não se apaga, nem pelo pecado. Você é propriedade marcada.
  • A mão (699): impor as mãos é gesto de transmissão do Espírito — está em todos os sacramentos.
  • O dedo (700): “é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios” (Lc 11,20). O dedo é o que escreve — e o que escreveu a Lei em pedra agora escreve nos corações.
  • A pomba (701): sobre Jesus no Jordão. A pomba de Noé que volta com o ramo de oliveira: sinal de que o dilúvio acabou e a guerra entre Deus e o homem terminou.

Não decorem a lista. Usem a lista. Quando estiver seco, peça a água. Quando estiver frio, peça o fogo. Quando não entender nada, lembre-se da nuvem. Quando se sentir sujo demais, lembre-se do selo — que não foi apagado.

Pentecostes: o dia em que a Igreja saiu do quarto

Cinquenta dias depois da Páscoa. Um punhado de homens trancado num andar de cima, com medo.

Reparem: eles tinham visto o Ressuscitado. E estavam trancados mesmo assim. Sinal de que ver não basta.

Então “veio do céu um ruído, como de vento impetuoso, e apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (cf. At 2,2-4). Minutos depois, a porta se abre. E Pedro — o mesmo Pedro que tinha negado Cristo diante de uma empregada — prega em praça pública para milhares e ganha três mil pessoas num dia.

Não houve curso. Não houve treinamento. Não houve tempo. Houve o Espírito. O Catecismo comenta: em Pentecostes “a Santíssima Trindade é plenamente revelada” (CIC 732) e o mistério pascal se consuma na efusão do Espírito, que constitui a Igreja (cf. CIC 731). E acrescenta que a Igreja, desde então, é “o lugar onde o Espírito Santo floresce” (cf. CIC 749).

Agora reparem no que mudou naquela manhã: o medo. É o único indicador infalível. Um grupo aterrorizado torna-se um grupo destemido — e nenhum deles jamais voltou atrás, nem sob tortura. Querem saber se o Espírito está trabalhando em alguém? Não olhem para emoções, nem para fenômenos. Olhem para a coragem de dizer a verdade e para a paz debaixo da pressão. Foi por isso que Basílio pôde falar com Modesto do jeito que falou.

Mas atenção: o Espírito não começou em Pentecostes. Ele “pairava sobre as águas” na primeira página da Bíblia (Gn 1,2). Ele falou pelos profetas. Ele levantou o exército de ossos secos no vale de Ezequiel (Ez 37). Ele cobriu Maria com a sua sombra em Nazaré, e por ele o Verbo se fez carne (cf. CIC 721-726). Toda a história da salvação é obra conjunta: o Filho é a mão visível, o Espírito a mão invisível — a imagem é de Santo Irineu, que fala das “duas mãos do Pai”.

Santo Ambrósio, bispo de Milão, escreveu por volta de 381, a pedido do imperador Graciano, o primeiro grande tratado latino sobre o Espírito Santo — o texto que depois formaria o pensamento de Agostinho, seu catecúmeno e discípulo. E Ambrósio corta pela raiz a tentação de rebaixar o Espírito à condição de criatura:

O Espírito Santo não é, pois, da substância das coisas corpóreas… nem da substância das criaturas invisíveis, pois estas recebem dele a santificação.

— Santo Ambrósio, Sobre o Espírito Santo, livro I, cap. 5

O raciocínio é limpo, e serve de teste geral: quem santifica não pode ser da mesma ordem do que é santificado. Os anjos recebem santidade; o Espírito a distribui. Logo, ele está do lado de Deus, não do lado das criaturas. Ambrósio abre o tratado com uma leitura alegórica de Gedeão e o velo (Jz 6): o orvalho que primeiro molhou apenas a lã e depois encharcou toda a eira é figura do Espírito, que primeiro repousou sobre Israel e depois se derramou sobre todos os povos.

Vocês estão na eira.

A lei da oração: o argumento de Basílio

Voltemos a Basílio — porque o método dele é uma lição para toda discussão de fé.

Como provar que o Espírito é Deus, se não existe um versículo que diga exatamente “o Espírito Santo é Deus”? Basílio não força os textos. Ele aponta para outra coisa: o modo como a Igreja reza desde sempre. Escutem:

Dos dogmas e pregações conservados na Igreja, alguns os temos do ensino escrito; outros, recebemo-los transmitidos em mistério pela tradição dos Apóstolos. E ambos têm a mesma força para a piedade.

— São Basílio Magno, Sobre o Espírito Santo, 27, 66

E ele provoca os adversários com exemplos que eles próprios praticavam:

Quem nos ensinou por escrito a assinalar com o sinal da cruz os que esperam no nome de nosso Senhor Jesus Cristo? Que escrito nos ensinou a voltar-nos para o Oriente na oração?

— São Basílio Magno, Sobre o Espírito Santo, 27, 66

O golpe é certeiro. Ninguém vai achar na Bíblia a ordem de fazer o sinal da cruz — e todos faziam. A Igreja vive de uma Tradição viva, e dentro dela a liturgia é testemunha: a lei da oração estabelece a lei da fé. Se a Igreja sempre adorou o Espírito junto com o Pai e o Filho, é porque sempre creu que ele é Deus. A prática antecede e sustenta a fórmula.

E isso tem uma aplicação para vocês que é maior do que parece. Quando você reza, você crê de um jeito que ainda não sabe explicar. A oração é o lugar onde a fé é aprendida antes de ser formulada. Por isso, se alguém perguntar como aumentar a fé, a resposta católica não é “leia mais”. É “reze mais — e depois leia”.

E Basílio descreve o efeito do Espírito numa alma com uma imagem que é das mais belas de toda a patrística. Escutem devagar:

Assim como, quando um raio de sol cai sobre corpos brilhantes e transparentes, eles mesmos se tornam luminosos e emitem de si um novo esplendor, assim as almas em que habita o Espírito, iluminadas por ele, tornam-se elas mesmas espirituais e enviam a sua graça aos outros.

— São Basílio Magno, Sobre o Espírito Santo, 9, 23

Duas coisas nessa imagem. Primeira: a condição é ser transparente. O raio de sol não faz nada numa pedra opaca. E o que torna a alma opaca? O pecado consentido. A duplicidade. A vida em dois compartimentos. Segunda: quem é iluminado ilumina. Não existe santidade privada. Se o Espírito estiver realmente em você, a sua casa e o seu trabalho vão perceber antes de você.

Basílio termina a lista dos efeitos do Espírito com uma escalada que culmina em algo idêntico ao que Atanásio dizia da Encarnação — lembram, da aula passada? O Espírito conduz o homem a tornar-se semelhante a Deus e, o mais alto de tudo, a ser feito deus — por participação, sempre. É o mesmo destino. Agora pela outra mão do Pai.

Sete dons, doze frutos

Todo mundo que se prepara para a Crisma ouve falar dos sete dons. Poucos entendem o que são.

Não são sete habilidades que Deus distribui como prêmios. São disposições permanentes que tornam a pessoa dócil às moções do Espírito (CIC 1830). Ou seja: não te dão força para agir sozinho — te dão sensibilidade para ser conduzido.

A lista vem de Isaías 11,1-2, profecia sobre o Messias: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus (CIC 1831). Reparem: são dons dele, e nós os recebemos por participação, porque somos membros do Ungido. Agora traduzindo para o concreto, um por um:

  • Sabedoria: gosto pelas coisas de Deus — não saber muito, mas achar bom.
  • Entendimento: penetrar o sentido daquilo que se crê; o dia em que uma frase decorada de repente se abre.
  • Conselho: acertar a decisão prática quando não há tempo nem manual.
  • Fortaleza: continuar quando doer e não houver plateia.
  • Ciência: ver as criaturas no seu justo lugar, sem endeusá-las.
  • Piedade: tratar Deus como Pai e não como chefe.
  • Temor de Deus: não o medo de castigo, mas o horror de magoar quem se ama.

Os frutos são o resultado visível: “caridade, alegria, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência, castidade” (CIC 1832; cf. Gl 5,22-23). Guardem a distinção: dons se recebem, frutos aparecem. E fruto é o critério de discernimento que o próprio Jesus deu — “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16).

O Catecismo acrescenta ainda a ajuda mais consoladora de todas — para quem aqui acha que não sabe rezar: “O Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza, pois não sabemos o que pedir na oração como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (cf. CIC 741; Rm 8,26). Quando você se ajoelhar e não souber o que dizer, saiba disto: você já está sendo rezado por dentro.

Como reconhecer o Espírito — e como não apagá-lo

“Não extingais o Espírito”, escreve São Paulo (1Ts 5,19). O verbo é o de apagar fogo. Portanto: dá para apagar. Vale saber como se apaga — e como se reconhece.

Sinais de que o Espírito está agindo. Uma paz que não depende de as circunstâncias terem melhorado. Atração real pela oração e pela Palavra. Desconforto crescente com o pecado que antes era confortável. Capacidade de perdoar quem não pediu perdão. Coragem de dizer a verdade quando custa. E um amor concreto pelos pobres e pelos chatos. Notem: nenhum desses sinais é emocional. O Espírito não se mede em arrepios.

Sinais de que outra coisa está agindo. Agitação. Pressa. Superioridade sobre os irmãos. Desprezo pela Igreja institucional. Avidez por experiências extraordinárias. E uma “certeza” interior que não aceita ser examinada. O Espírito que fala numa alma nunca contradiz o Espírito que fala na Igreja.

Como se apaga o Espírito. Pelo pecado grave consentido, que expulsa a graça santificante. Pela negligência dos sacramentos, especialmente da Confissão. Pela pressa crônica, que não deixa silêncio nenhum onde ele possa falar. Pelo hábito de calar a consciência com barulho, tela ou trabalho. E por decisões tomadas sem nunca perguntar nada a Deus.

Como se reaviva. Com a Confissão frequente. Com a Eucaristia recebida com fé. Com silêncio diário — quinze minutos bastam para começar. Com obediência imediata àquela pequena moção que você já sabe qual é: o telefonema que você adia, o perdão que você deve, o hábito que você defende. E com a invocação explícita — porque o Espírito é o único que espera ser chamado pelo nome. “Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lho pedirem” (Lc 11,13). É a única coisa que Jesus promete dar sempre a quem pede.

Objeções honestas

“Isso de Espírito Santo não é coisa de carismático? Não é meu perfil.” O Espírito Santo é de todo batizado — foi ele que fez de você cristão, e não há cristianismo sem ele. O que varia são os temperamentos e os carismas: São Paulo é explícito, há “diversidade de dons, mas um só Espírito” (1Cor 12,4). Há quem o receba em lágrimas e quem o receba em silêncio seco. Há o mártir, o contemplativo, a mãe fiel, o teólogo. Basílio não era carismático no sentido moderno: era um bispo doente, organizado, que construiu hospitais e brigou com o Império. Estava cheio do Espírito.

“Eu não sinto nada. Recebi a Crisma e continuo igual.” Duas respostas. Primeira: o Espírito não é sentimento, e a maior parte da ação dele é silenciosa — como o crescimento de uma criança, que ninguém vê acontecer e todos constatam depois. Compare-se com você mesmo de cinco anos atrás, não com o entusiasmo de ontem. Segunda: os sacramentos dão a graça de verdade, mas o fruto depende de cooperação. Um dom recebido e nunca usado parece inexistente. Se você recebeu a Crisma e nunca mais pediu nada ao Espírito Santo, o problema não é a torneira. É que ninguém abriu.

“Se o Espírito guia a Igreja, por que houve tanta miséria na história dela — pecados de padres, escândalos, gente indigna em cargos altos?” Porque o Espírito garante à Igreja a indefectibilidade na fé, não a impecabilidade dos seus membros. Ele preserva o depósito da verdade e os sacramentos; não anula a liberdade de ninguém. E é por isso, aliás, que a sobrevivência da Igreja é um argumento, não um problema: uma instituição conduzida por dois mil anos de gente falível como nós já teria desmoronado dez vezes se dependesse só de nós. Ela não depende.

“Como sei que uma inspiração vem de Deus e não da minha cabeça?” Por quatro critérios — e estes valem a pena anotar. Primeiro: conformidade — nunca contradiz a Escritura nem o ensinamento da Igreja. Segundo: fruto — produz humildade, paz e caridade, não agitação nem orgulho. Terceiro: duração — o que vem de Deus resiste ao tempo e ao exame; o impulso emocional evapora em três dias. Quarto: submissão — quem é guiado pelo Espírito aceita ser aconselhado por um sacerdote ou um guia espiritual. Uma inspiração que se recusa a ser examinada já se denunciou.

Para viver

  1. Reze a Sequência de Pentecostes ou o “Vinde, Espírito Santo” todos os dias, ao acordar, até o dia da Crisma. Não como fórmula: peça mesmo, em voz alta, chamando-o pelo nome.
  2. Faça quinze minutos de silêncio diário, sem celular por perto. O Espírito fala baixo; num barulho de fábrica ninguém ouve um sussurro.
  3. Escolha um dos sete dons — aquele de que você mais precisa esta semana, e você sabe qual é — e peça-o explicitamente todos os dias, dizendo por que precisa dele.
  4. Obedeça a uma moção concreta em até 24 horas: aquela ligação, aquele pedido de perdão, aquela conversa adiada. Obediência rápida é o modo de ganhar sensibilidade; adiar é o modo de perdê-la.
  5. Marque a sua Confissão, se faz tempo. É o sacramento que retira a opacidade da alma de que fala Basílio — sem ele, o raio de sol bate e não atravessa.
  6. Faça um exame de consciência de dois minutos antes de dormir, com esta pergunta única: em que momento de hoje eu percebi que Deus me pedia alguma coisa — e o que eu fiz?

Para rezar

Rezemos juntos, devagar, a oração mais antiga da Igreja ao Espírito:

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra.

E depois, em silêncio, cada um por si:

Espírito Santo, Senhor que dais a vida, que com o Pai e o Filho sois adorado e glorificado: eu confesso que vivi anos sem vos dirigir a palavra, tratando-vos como uma força, quando sois Alguém.

Vós sois a água: matai a minha sede, porque nada mais mata. Vós sois o fogo: queimai em mim o que não presta e aquecei o que esfriou. Vós sois o Advogado: defendei-me do acusador que fala dentro da minha cabeça. Vós sois o selo: lembrai-me de quem eu sou quando eu me esquecer.

Tornai-me transparente, para que a vossa luz me atravesse e alcance os outros. Dai-me a coragem que destrancou aquela porta em Jerusalém, e a liberdade com que Basílio falou aos poderosos. Não permitais que eu apague o vosso fogo por pressa, por medo ou por costume.

Vinde, Espírito Santo, e fazei de mim aquilo que Deus imaginou quando me pensou. Amém.

Referências desta aula