Creio III — Padeceu, morreu e ressuscitou
O Mistério Pascal: paixão, morte, descida à mansão dos mortos, ressurreição e ascensão.
Jerusalém, por volta do ano 350. Um grupo de adultos se prepara para o Batismo. E o bispo que os catequiza — Cirilo — tem um privilégio que nenhum catequista teve antes, nem depois: ele prega sobre a crucifixão a poucos metros do lugar onde ela aconteceu.
Quando fala do Calvário, ele pode apontar com o dedo. Quando fala do sepulcro, os catecúmenos podem virar a cabeça — e vê-lo. Em certo momento das Catequeses, Cirilo diz aos ouvintes que ali ninguém tem desculpa para duvidar: a própria rocha do Gólgota, ainda visível, testemunha contra a incredulidade.
Guardem essa cena, porque ela diz algo decisivo sobre a nossa fé: o cristianismo não nasceu de uma ideia. Nasceu de um acontecimento. Aconteceu num lugar que se visita. Numa data que se calcula. Sob um governador romano cujo nome ficou gravado para sempre no Credo. Hoje entramos no coração de tudo: a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Não como uma história triste com final feliz — mas como o ato pelo qual você foi salvo.
E aqui vai o aviso. Esta aula não é sobre algo que aconteceu com outra pessoa, há dois mil anos. São Paulo resume a fé assim: “ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Por mim. Se você sair deste encontro sem ter se colocado dentro dessa frase — a aula falhou.
Um Credo com data e endereço
Reparem numa coisa estranha do Credo. Nele professamos realidades imensas — Deus Pai todo-poderoso, a criação do céu e da terra, a vida eterna — e, de repente, no meio de tudo isso, aparece o nome de um burocrata romano de segunda categoria: “padeceu sob Pôncio Pilatos”. Por que eternizar, na oração mais solene da Igreja, o nome de um governador medíocre de uma província distante?
Porque a Igreja quis cravar a nossa fé na história. Mitos acontecem “era uma vez”, num tempo que nunca existiu. A morte de Jesus aconteceu numa sexta-feira concreta — provavelmente no ano 30 ou 33 —, em Jerusalém, sob a administração de um prefeito romano que os historiadores conhecem por outras fontes: o pagão Tácito, nos Anais, registra friamente que “Cristo” foi supliciado por Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério. A fé cristã não teme a investigação histórica. Ela a convoca. O Catecismo dedica páginas inteiras ao processo de Jesus como fato histórico (CIC 595-598), examinando as responsabilidades reais das autoridades de então.
E então o Catecismo dá um passo que incomoda — e deve incomodar. Depois de advertir que os judeus não podem ser responsabilizados coletivamente pela morte de Jesus, ele vira o espelho para nós: a Igreja não hesita em imputar aos cristãos a responsabilidade mais grave pelo suplício de Cristo — pois são os nossos pecados que atingem o próprio Cristo (CIC 598). E chega a recordar a palavra atribuída a São Francisco de Assis: não foram os demônios que o crucificaram. Fomos nós, com eles. E ainda o crucificamos, quando nos comprazemos nos vícios e pecados.
Sentiram o peso disso? A pergunta “quem matou Jesus?” tem uma resposta que inclui o seu nome. E o meu. Isso não é retórica piedosa — é a doutrina da Igreja. E é, paradoxalmente, a melhor notícia possível. Porque se os meus pecados estão na cruz, então a cruz tem tudo a ver comigo.
Por que a cruz? Deus não precisava de sangue
Aqui tropeça muita gente séria. “Então Deus é um pai cruel, que exigiu o sangue do filho para se acalmar?” Se fosse isso, teríamos razão em nos revoltar. Mas não é isso. E nunca foi isso que a Igreja ensinou.
Primeiro: a entrega de Jesus não foi um acidente que Deus aproveitou, nem uma exigência sanguinária. Foi um desígnio de amor, decidido desde sempre (CIC 599-600). Deus não “precisava” de sangue. Nós é que precisávamos de um amor que fosse até o fim. O pecado não é uma multa que se paga com qualquer moeda — é uma ruptura de amor. E ruptura de amor só se cura com amor maior. Na cruz, Deus não recebe um pagamento de fora. Deus mesmo, na pessoa do Filho, entra na nossa miséria e a assume por dentro (CIC 603). Cristo experimentou até o abandono — “meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34) — para que nenhum abandono humano ficasse fora do alcance dele.
Segundo: ninguém tirou a vida de Jesus. Ele a entregou. “Ninguém a tira de mim; eu a dou por mim mesmo” (Jo 10,18). A iniciativa é dele, do começo ao fim (CIC 609-610). Na última Ceia, ele antecipou livremente a oferta da própria vida: “isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22,19).
E setecentos anos antes, Isaías já tinha desenhado o retrato: “ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados” (Is 53,5). É o justo que toma o lugar dos culpados. Não porque um Deus frio exige uma vítima — mas porque um Deus apaixonado se oferece como ela (CIC 613-615).
Um dos primeiros Padres da Igreja entendeu isso com uma clareza comovente. São Clemente, bispo de Roma no final do século I — um homem que, segundo a tradição antiga, conheceu os apóstolos Pedro e Paulo —, escreveu à comunidade de Corinto:
“Por causa do amor que nos teve, Jesus Cristo, nosso Senhor, deu o seu sangue por nós, segundo a vontade de Deus: a sua carne pela nossa carne, a sua alma pelas nossas almas.”
— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, 49
Reparem na lógica de Clemente. Não é “por causa da ira de Deus”. É “por causa do amor que nos teve”. Carne pela carne, alma pela alma — uma troca de amante, não uma transação de contador. E isso foi escrito por volta do ano 96, quando ainda viviam pessoas que tinham visto os apóstolos. Essa é a fé da primeira geração: a cruz é amor levado ao extremo.
O sangue precioso
O mesmo Clemente nos deixou outra frase que a Igreja nunca esqueceu. Escutem:
“Fixemos os olhos no sangue de Cristo e reconheçamos como ele é precioso para Deus, seu Pai: derramado pela nossa salvação, trouxe ao mundo inteiro a graça do arrependimento.”
— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, 7
“Fixemos os olhos.” Não é um convite a uma teoria. É um convite a um olhar. O cristão maduro é alguém que aprendeu a olhar demoradamente para o crucifixo — não com sentimentalismo mórbido, mas com a consciência de Clemente: aquilo ali é o meu preço. “Fostes resgatados por um preço” (1Cor 6,20). Então, quando você se sentir barato — descartável, fracassado, sem valor —, olhe para o crucifixo e faça as contas: você custou o sangue de Deus.
E notem o alcance que Clemente dá a esse sangue: “trouxe ao mundo inteiro a graça do arrependimento”. O arrependimento não é uma conquista nossa. É uma graça comprada na cruz. Se hoje você consegue se ajoelhar num confessionário, é porque aquele sangue abriu essa porta. Ninguém se converte sozinho: somos convertidos por um amor que pagou caro para poder nos perdoar (CIC 617).
A glória das glórias: sem vergonha da cruz
Voltemos a Cirilo de Jerusalém, pregando ao pé do Gólgota. A 13ª Catequese dele, inteira dedicada à crucifixão, abre com uma afirmação que inverte todas as expectativas do mundo antigo — para o qual a cruz era o suplício mais vergonhoso que existia, reservado a escravos, impronunciável em sociedade:
“Todo feito de Cristo é glória da Igreja católica; mas a glória das glórias é a Cruz.”
— São Cirilo de Jerusalém, Catequeses, 13,1
E logo adiante, ele tira a consequência prática:
“Não nos envergonhemos, pois, da Cruz do nosso Salvador; antes, gloriemo-nos nela.”
— São Cirilo de Jerusalém, Catequeses, 13,4
Cirilo sabia o que estava pedindo. Os catecúmenos dele viviam num mundo onde declarar-se cristão ainda custava carreira, reputação — às vezes a vida. E ele exige: nada de cristianismo envergonhado. Faça o sinal da cruz, dizia ele, sobre o pão que comes e o copo que bebes, ao entrar e ao sair, ao deitar e ao levantar. O sinal da cruz em público não era um gesto decorativo. Era uma bandeira.
E nós? Quantos de nós escondem o terço no bolso? Disfarçam a oração antes da refeição no restaurante? Mudam de assunto quando a fé aparece na conversa? O mundo de hoje não nos joga aos leões. Joga-nos ao ridículo — e o ridículo tem sido suficiente para calar muitos batizados. Cirilo responde do século IV: a cruz não é o nosso constrangimento. É a nossa glória. “Quanto a mim, não me glorie eu senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).
Na mesma catequese, Cirilo abre os braços do Crucificado para o mundo inteiro:
“Estendeu as mãos na Cruz para abraçar os confins da terra.”
— São Cirilo de Jerusalém, Catequeses, 13,28
Olhem de novo para o crucifixo. Aqueles braços abertos não são a postura de um derrotado. São o gesto de um abraço à escala do mundo. E dentro dos “confins da terra” está a sua rua. A sua casa. O seu passado. Ninguém nasceu fora desse abraço.
“Desceu à mansão dos mortos”
Jesus morreu de verdade. Não desmaiou. Não fingiu. Não “pareceu” morrer, como sonharam certas heresias antigas. O corpo dele foi sepultado, e a sua alma humana, unida à Pessoa divina, desceu à “mansão dos mortos” (CIC 632). O Credo não tem medo dessa frase estranha — e nós precisamos entendê-la bem.
“Mansão dos mortos” — o sheol dos hebreus, o hades dos gregos — não é o inferno dos condenados. É a condição de todos os que morreram antes de Cristo, justos e injustos, privados da visão de Deus (CIC 633). Abraão. Moisés. Davi. Os profetas. E também os justos anônimos de todos os povos: todos esperavam, de portas fechadas. A pergunta é inevitável: e eles? Ficariam de fora da salvação por terem nascido cedo demais?
A resposta do Credo é grandiosa: Cristo desceu até eles. “Foi pregar até aos espíritos em prisão” (cf. 1Pd 3,19); “até aos mortos foi anunciada a Boa-Nova” (1Pd 4,6). A descida à mansão dos mortos é a última etapa da missão de Jesus: levar a redenção até o ponto mais fundo da condição humana, para que ninguém — nem os mortos — ficasse fora do alcance do Evangelho (CIC 634-635). Não há porão da história onde a luz de Cristo não tenha entrado.
Santo Efrém, o grande poeta sírio do século IV, contemplou esse mistério com uma imagem inesquecível, na sua Homilia sobre Nosso Senhor:
“A morte calcou aos pés o nosso Senhor; e ele, por sua vez, fez da morte uma estrada para os seus pés.”
— Santo Efrém, o Sírio, Homilia sobre Nosso Senhor, 3-4
Entendam a ousadia da imagem. A morte pensou que estava pisando em mais uma vítima — e estava, sem saber, servindo de pavimento. Cristo atravessou a morte como quem atravessa uma ponte. E a ponte ficou aberta atrás dele. Por isso o cristão não finge que a morte não existe, nem a trata com pânico pagão: ela continua sendo inimiga — mas é uma inimiga vencida, transformada em passagem. Quando você enterrar alguém que ama, ou quando pensar na sua própria morte, lembre-se de Efrém: essa estrada já foi pisada por Alguém que conhece a saída.
Ressuscitou ao terceiro dia
“Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também a vossa fé” (1Cor 15,14). São Paulo não deixa margem: o cristianismo aposta tudo num único fato. Se o túmulo não ficou vazio, podemos fechar as igrejas e ir para casa. Por isso precisamos falar da Ressurreição com seriedade dobrada: ela é, ao mesmo tempo, um acontecimento histórico — com sinais verificáveis — e um acontecimento que transborda a história (CIC 639, 647).
Histórico. O túmulo vazio, encontrado primeiro pelas mulheres — detalhe que nenhum falsário teria inventado, porque o testemunho feminino valia pouco nos tribunais da época (CIC 640). As aparições: a Pedro, aos Doze, e “a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive” — escreve Paulo por volta do ano 55, praticamente convidando o leitor a ir conferir (1Cor 15,6). E o sinal talvez mais eloquente: a transformação dos apóstolos. Homens que fugiram na quinta-feira à noite, trancados de medo, aparecem semanas depois pregando em praça pública, enfrentando prisões e execuções sem recuar. Alguma coisa aconteceu. Coisas assim não nascem de alucinação coletiva. Nem de boato.
Transcendente. A Ressurreição não é a reanimação de um cadáver. Lázaro voltou à vida — e morreu de novo. Jesus não voltou à vida antiga: atravessou a morte para uma vida nova, com um corpo real — come, deixa-se tocar (Lc 24,39-43) —, mas glorioso, não mais limitado pelo espaço e pelo tempo (CIC 645-646). É o primeiro exemplar da humanidade nova. E a promessa do que seremos: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15,20).
E essa leitura não é invenção tardia. Escutem de novo Clemente de Roma, ainda no século I:
“Consideremos, amados, como o Senhor nos mostra continuamente a ressurreição futura, da qual fez de Jesus Cristo as primícias, ressuscitando-o dentre os mortos.”
— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, 24
E Clemente continua, apontando para a criação inteira como um ensaio da ressurreição: o dia que morre na noite e renasce na aurora. A semente que apodrece na terra e se levanta em espiga. Deus semeou a esperança da ressurreição na própria natureza — e a confirmou de uma vez por todas, naquela madrugada em Jerusalém. Cirilo, na 14ª Catequese, pôde fazer o que nenhum professor de história pode: pregar a Ressurreição diante do próprio sepulcro, tomando por testemunhas a pedra e o lugar que os ouvintes tinham diante dos olhos.
E para você, isso muda o quê? Tudo. Se Cristo ressuscitou, a morte não é a última palavra sobre ninguém que você ama. Se Cristo ressuscitou, nenhum fracasso é definitivo — nenhuma sexta-feira santa da sua vida está fora do alcance do domingo. E se Cristo ressuscitou, ele está vivo agora. Não é um personagem que estudamos. É uma Pessoa que nos espera.
O testemunho selado com sangue
Falta responder a uma pergunta que todo adulto honesto faz: “Como eu sei que os primeiros cristãos não inventaram tudo isso?” A resposta mais forte não é um argumento. É uma cena.
Esmirna, por volta do ano 155. Policarpo, bispo da cidade, tem 86 anos. Na juventude, foi discípulo do apóstolo João: os ouvidos dele escutaram um homem que tinha reclinado a cabeça no peito de Jesus. Preso e levado ao estádio, diante da multidão que urra, o procônsul lhe oferece a saída fácil: “Jura pelo gênio de César, amaldiçoa a Cristo, e eu te solto.” A resposta do velho atravessou os séculos:
“Há oitenta e seis anos que o sirvo, e nunca me fez mal algum. Como poderia blasfemar o meu Rei, que me salvou?”
— O Martírio de Policarpo, 9
Ele foi queimado vivo. A comunidade de Esmirna registrou tudo numa carta — o mais antigo relato de martírio que possuímos fora do Novo Testamento — e nela deixou também uma frase preciosa, que já distingue com precisão o culto devido a Deus da veneração devida aos santos:
“A Cristo adoramos, porque é o Filho de Deus; aos mártires amamos como discípulos e imitadores do Senhor.”
— O Martírio de Policarpo, 17
Agora pensem com frieza de investigador. Mentirosos não morrem pela própria mentira. Os apóstolos afirmavam ter visto o Ressuscitado — não “acreditavam num boato”: afirmavam ter comido com ele (At 10,41). E foram, um a um, para a prisão, o açoite e a morte — sem que nenhum deles, em nenhum momento, comprasse a vida com uma retratação. As gerações seguintes — Policarpo, e depois milhares — morreram pela fé recebida dessas testemunhas. O sangue não prova automaticamente que uma doutrina é verdadeira. Mas prova, para além de qualquer dúvida, que as testemunhas não estavam mentindo de propósito. E testemunhas oculares sinceras, múltiplas, transformadas e dispostas a morrer — é exatamente o que uma fraude não consegue produzir.
O martírio continua. O século XX matou mais cristãos por ódio à fé do que os três primeiros séculos. E neste exato momento há irmãos nossos presos por causa do nome de Jesus. A pergunta volta para nós, que arriscamos tão pouco: se a fé me custasse alguma coisa — o emprego, a reputação, a liberdade —, eu a sustentaria? A resposta se treina agora. Nas pequenas fidelidades: na cruz que não escondo, na missa que não negocio, na verdade que não calo.
Subiu aos céus, está sentado à direita do Pai
Quarenta dias depois da Páscoa, Jesus subiu ao céu (At 1,9-11). A Ascensão não é uma despedida. É uma entronização. “Sentar-se à direita do Pai” significa: a humanidade de Jesus — carne da nossa carne — foi introduzida definitivamente na glória de Deus (CIC 659-663). Reparem no que isso implica: há, desde a Ascensão, um corpo humano no coração da Trindade. A nossa natureza já chegou lá — na pessoa do nosso irmão mais velho. Ele foi “preparar-vos um lugar” (Jo 14,2).
E ele não ficou ocioso. “Cristo Jesus, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós” (Rm 8,34). Neste instante, enquanto vocês me ouvem, Cristo apresenta ao Pai as suas chagas em nosso favor — advogado que nunca perde a causa, sacerdote cuja oferta nunca envelhece (CIC 662, 667). Quando você rezar hoje à noite, não estará gritando para um céu vazio. Estará se unindo a uma intercessão que já está em andamento.
“E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos” (Credo; CIC 668-682). A história não é um círculo sem sentido, nem uma linha que se perde no nada: ela caminha para um encontro. O Juiz que vem não é um estranho — é o mesmo que morreu por nós. O julgamento será o encontro definitivo com a Verdade e com o Amor, diante do qual toda a nossa vida ficará à vista (CIC 678-679). Para quem vive de costas para Deus, não há pensamento mais incômodo. Para quem o ama, não há esperança maior: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20) é a última oração da Bíblia. O tempo presente é o tempo da decisão. E ninguém sabe quanto tempo tem.
Objeções respondidas
“A ressurreição não seria uma lenda que cresceu com o tempo?”
Lendas precisam de tempo e de distância — gerações, séculos, até que não reste testemunha viva para desmentir. A fé na ressurreição não teve nem um nem outro. O credo primitivo que Paulo cita em 1Cor 15,3-5 — “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia… apareceu a Cefas e depois aos Doze” — é datado pelos estudiosos, incluindo não crentes, de poucos anos após os fatos: Paulo o “recebeu” já pronto, provavelmente em Jerusalém, na década de 30. A pregação da ressurreição começou na própria cidade onde ficava o túmulo: bastaria exibir o corpo para encerrar o assunto. E ninguém o exibiu. E a carta de Clemente de Roma, que citamos três vezes hoje, foi escrita por volta do ano 96, por um homem formado na pregação direta dos apóstolos. Entre o evento e os documentos não há um abismo de séculos. Há uma geração. Lenda nenhuma corre tão rápido — nem leva tanta gente ao martírio.
“Um Deus que entrega o Filho à tortura é um Deus cruel.”
A objeção seria imbatível se o Filho fosse um terceiro, arrastado à força para pagar a dívida alheia. Mas o cristianismo afirma outra coisa: o Filho é Deus. Na cruz não há um Deus irado descontando num inocente. Há Deus mesmo assumindo, por dentro, o custo do nosso mal. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Cor 5,19). A iniciativa é do próprio ofendido: é o credor que paga a dívida do devedor. É o juiz que cumpre a pena do réu. E a entrega foi livre: “ninguém tira a minha vida; eu a dou por mim mesmo” (Jo 10,18; CIC 609). Clemente já tinha entendido: “por causa do amor que nos teve”. Se ainda restar incômodo — talvez seja o incômodo certo: o de descobrir que o pecado custa caro, e que alguém pagou por você o que você não podia pagar.
Para viver
Compromissos para esta semana — assuma-os diante de Deus:
- Reze diante do crucifixo, cinco minutos por dia. Sem pressa e sem fórmulas: olhe e deixe-se olhar. Repita devagar Gl 2,20: “ele me amou e se entregou por mim.”
- Leia a Paixão segundo São João (Jo 18–19) de uma só vez, e no domingo leia o capítulo 20. Leia como quem estava lá — porque, pelos seus pecados e pelo amor dele, você estava.
- Recupere a sexta-feira. Todas as sextas do ano são dias de penitência para o católico: ofereça um jejum, uma abstinência de carne ou outra renúncia concreta em memória da Paixão.
- Faça o sinal da cruz em público — antes das refeições, ao passar diante de uma igreja — com a lição de Cirilo: sem pressa e sem vergonha. É a glória das glórias, não um cacoete.
- Viva o próximo domingo como Páscoa semanal. Chegue antes, participe por inteiro, comungue (confessando-se antes, se necessário): cada missa dominical é o memorial da morte e ressurreição do Senhor — não uma obrigação social.
Para rezar
Encerrem diante de um crucifixo, em silêncio, por um minuto. Depois, rezem juntos, lentamente:
Senhor Jesus Cristo, que estendeste os braços na cruz para abraçar os confins da terra: não deixes que eu fique fora desse abraço por escolha minha. Eu fixo os olhos no teu sangue precioso, derramado pela minha salvação, e reconheço: foste trespassado pelas minhas transgressões, e pelas tuas feridas fui curado. Desce, Senhor, às regiões mortas da minha vida — aos pecados antigos, aos medos enterrados, às esperanças sepultadas — e faze delas uma estrada para os teus pés. Dá-me a fé de Policarpo, para que eu nunca me envergonhe de ti; e quando vieres em tua glória julgar os vivos e os mortos, reconhece em mim um amigo. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amém.
Terminem professando juntos, de pé, o Credo — detendo-se com fé renovada nas palavras: “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia”.