Sobre a Mentira
Agostinho define a mentira pela intenção do coração, classifica oito tipos e conclui: nem a mentira piedosa deixa de ser pecado.
Agostinho escreveu o De mendacio por volta de 395, ainda no início de seu ministério, e o considerava um texto difícil: nas Retratações confessa que a obra lhe deu tanto trabalho que quase a suprimiu, e que precisou retomar o assunto anos depois, num segundo tratado (Contra o Mentir). O problema era prático e urgente. Cristãos perguntavam se seria lícito mentir para salvar a vida de um inocente, para esconder um perseguido, para preservar alguém do pecado — ou, no caso que mais o preocupava, se seria lícito fingir-se herege para desmascarar hereges.
O passo decisivo do tratado é a definição. Mentira não é dizer algo factualmente falso: é dizer o contrário do que se tem no coração, com vontade de enganar.
“Mente, portanto, aquele que tem uma coisa na mente e enuncia outra por palavras, ou por sinais de qualquer espécie.” (n. 3)
Daí decorre uma consequência que Agostinho aceita: quem diz uma falsidade acreditando que é verdade não mente; e quem diz a verdade acreditando estar mentindo, mente. A seguir, ele monta uma escala de oito tipos de mentira (n. 25), da mais grave à menos grave: a que corrompe a doutrina da religião; a que prejudica injustamente alguém; a que beneficia um às custas de outro; a que se comete por puro prazer de enganar; a que quer agradar na conversa; a que ajuda alguém sem prejudicar ninguém; a que salva a vida de um condenado; e a que preserva alguém da impureza.
A conclusão, porém, não é a graduação, mas a recusa: por menor que seja, nenhuma mentira deixa de ser pecado — e a caridade nunca precisa da falsidade para socorrer o próximo.
Na catequese, o tratado sustenta a aula 18, sobre o oitavo mandamento, a verdade e o testemunho cristão.
O link abre o texto já traduzido automaticamente para o português (original em inglês, New Advent).