Creio I — Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra
A fé como resposta; Deus uno e trino; a criação e a providência.
Jerusalém, Quaresma do ano 350. Ainda está escuro quando eles começam a chegar.
São homens e mulheres adultos que, no primeiro dia da Quaresma, deram o nome ao bispo, declarando que querem ser batizados na noite de Páscoa. A Igreja os chama de photizómenoi — “os que estão sendo iluminados”. Durante toda a Quaresma, eles se reúnem de manhã na grande basílica que Constantino mandou construir sobre o Gólgota — literalmente em cima do lugar da crucificação — para ouvir, por horas, um catequista minucioso e exigente chamado Cirilo.
E ele não é um professor simpático. Ele avisa: quem entrou nessa preparação por motivo humano — para agradar alguém, para conseguir um casamento — está brincando com fogo. A porta está aberta para sair. Não para fingir. E então, num certo dia da Quaresma, ele faz o gesto mais importante do curso inteiro: entrega a eles, oralmente, o Credo. Palavra por palavra. E dá esta ordem:
Guardai na memória o que eu recitar, e repeti-o com toda a diligência entre vós, não o escrevendo em papel, mas gravando-o pela memória no vosso coração. […] Guardai isto como provisão para todo o curso da vossa vida, e além disto não recebais nenhum outro.
— São Cirilo de Jerusalém, Catequeses, V, 12
Aquilo tinha nome técnico: traditio symboli, a entrega do Símbolo. Semanas depois, na Vigília Pascal, cada um teria de devolvê-lo de cor, em voz alta, diante da comunidade — a redditio symboli — antes de descer à água. E esse rito não morreu. Ele está vivo, hoje, no roteiro do catecumenato de adultos que muitos de vocês vão percorrer este ano. Por isso começamos aqui. Nós não estamos abrindo uma “matéria nova”. Estamos entrando numa sala onde gente adulta se prepara para ser batizada há dezessete séculos — e onde a primeira coisa que se recebe não é uma explicação. É um texto para decorar. E defender com a vida.
Cirilo explica por quê, e a imagem que ele usa é de banco: a fé é como um depósito confiado, e Deus vai pedir a prestação de contas do que foi depositado (cf. Catequeses, V, 13). Escutem isso: você não é o autor da sua fé. Você é o depositário dela.
O que é um Credo — e por que existe
Nós chamamos o Credo de “Símbolo”. A palavra hoje soa vaga — mas na Antiguidade, symbolon era um objeto muito concreto: um pedaço de cerâmica ou de metal quebrado ao meio, do qual duas pessoas ficavam cada uma com uma parte, para que anos depois pudessem se reconhecer encaixando os pedaços. Um sinal de reconhecimento entre quem pertence.
Foi exatamente assim que os antigos entenderam. Rufino de Aquileia — que por volta do ano 404 escreveu o mais antigo comentário latino ao Símbolo dos Apóstolos, o texto que estamos estudando — dá duas explicações para o nome. A primeira: signum, sinal. Numa época em que apareciam pregadores itinerantes anunciando qualquer coisa em nome de Cristo, o Credo permitia distinguir quem pregava a fé recebida de quem inventava a sua. A segunda: collatio, contribuição comum — porque Rufino transmite a tradição segundo a qual os Apóstolos, antes de se dispersarem pelo mundo, se reuniram e compuseram juntos essa fórmula:
Estando, pois, todos reunidos e cheios do Espírito Santo, compuseram este breve formulário da sua futura pregação, contribuindo cada um com a sua sentença para um resumo comum.
— Rufino de Aquileia, Comentário sobre o Credo dos Apóstolos, 2
Sejamos honestos sobre o que essa página é — e o que não é. Os historiadores não conseguem documentar aquela reunião. O que se documenta é o Símbolo batismal usado na Igreja de Roma, já formado no século II, que cresceu diretamente da pregação apostólica e da fórmula do Batismo. A tradição que Rufino recolhe é antiga e bela, e o essencial dela é verdadeiro num sentido mais profundo que o cronológico — é o que o Catecismo afirma: o Símbolo dos Apóstolos “é justamente considerado como o resumo fiel da fé dos Apóstolos” (cf. CIC 194). Não foi um comitê que inventou o conteúdo. O conteúdo veio de quem viu.
E notem onde nasce o Credo: na pia batismal. Não na universidade. Ele é a resposta articulada às três perguntas que se fazem a quem vai ser batizado — crês em Deus Pai? crês em Jesus Cristo? crês no Espírito Santo? Por isso são três partes, e não quatro (cf. CIC 190). Por isso o Catecismo diz que professar o Credo é voltar ao dia do próprio Batismo, quando toda a nossa vida foi confiada “à regra de doutrina” (cf. CIC 197). O Credo não é uma prova. É uma aliança relembrada.
Uma última precisão de gramática — e ela vale ouro. Nós dizemos “creio em Deus”, e não apenas “creio que Deus existe”. A tradição latina distingue com cuidado três coisas: crer que alguém existe; crer no que alguém diz; e crer em alguém — entregando-se. Só a terceira é fé no sentido cristão. O demônio crê que Deus existe (cf. Tg 2,19) — e não é por isso crente. O Catecismo é direto: “‘Creio em Deus’: é esta a primeira afirmação da profissão de fé e também a mais fundamental” (CIC 199). Tudo o mais são consequências.
“Deus”: o único, e o Nome que ele revelou
A primeira coisa que o Credo afirma não é uma qualidade de Deus. É que ele é um só. Israel guardou essa verdade sozinho durante séculos — num mundo em que cada cidade tinha o seu deus e cada deus a sua função — e a rezava todos os dias: “Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4).
O momento decisivo dessa revelação está na sarça ardente. Moisés pede o nome. E recebe uma resposta que é quase uma recusa — e, ao mesmo tempo, a maior das revelações: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14). O Catecismo comenta que, ao revelar o seu nome misterioso de YHWH, Deus diz quem é e com que nome deve ser chamado (cf. CIC 206). Parem nisso um instante, porque é a afirmação mais radical desta aula: Deus não é um ser entre outros seres. Não é o maior de uma lista. Ele é o Ser. Tudo o mais existe por empréstimo — você, a sua casa, as galáxias, o tempo. Ele existe por si. É a única coisa no universo que não precisa de explicação. Porque é a explicação.
E isso tem uma consequência espiritual imediata, nada abstrata: se Deus é o único que existe por si, então nada do que você tem é seu. A saúde. O emprego. As pessoas que você ama. Tudo é recebido. Tudo é devolvível. Quem entende isso vive mais leve e ama melhor — porque para de exigir eternidade de coisas que não a têm.
Mas o Deus de Israel não é só uma resposta metafísica. A Escritura o revela “cheio de misericórdia e fidelidade” (cf. CIC 214), e São João dá o passo final, que nenhum filósofo teria ousado: “Deus é amor” (1Jo 4,8; cf. CIC 221). Reparem: ele não diz “Deus ama”. Diz que Deus é amor. Guardem essa frase — daqui a pouco ela vai explicar a Trindade inteira.
E convém, desde já, aprender uma humildade que os Padres tinham e nós perdemos. Cirilo avisava aos catecúmenos que não se pode explicar o que Deus é, e que a confissão sincera da própria ignorância é, tratando-se de Deus, a melhor forma de conhecimento (cf. Catequeses, VI, 2). Rufino descreve Deus como uma substância sem princípio e sem fim, simples, incomposta, invisível, incorpórea, inefável (cf. Comentário sobre o Credo dos Apóstolos, 4) — reparem: uma lista quase inteira de negações. Conhecer Deus é, em boa medida, aprender tudo aquilo que ele não é, até que sobre só o silêncio adorador. Quem tem Deus muito bem explicado, provavelmente está explicando outra coisa.
“Pai”: o nome mais próprio
O Credo não diz “creio em Deus criador”. Diz Pai primeiro. A ordem importa — e ela contém uma revolução.
Vários povos chamaram a divindade de “pai”, no sentido de origem de tudo. O que Jesus faz é diferente e sem paralelo: ele chama Deus de Pai no sentido próprio, como Filho único — e nos autoriza a fazer o mesmo (cf. CIC 240). Rufino nota a implicação com precisão de gramático: a palavra “Pai” é relativa. Quem diz Pai já disse Filho — porque ninguém é pai de ninguém sozinho (cf. Comentário, 4).
Daí decorre uma verdade que muda o retrato inteiro de Deus. Deus é Pai antes de ser Criador. Ele não começou a ser Pai quando nos fez. É Pai desde sempre, do Filho eterno. O que significa: Deus nunca esteve sozinho. Nunca precisou do mundo para ter a quem amar. E portanto não criou por carência. Um deus solitário que faz criaturas para ter companhia seria um deus necessitado — e um deus necessitado não é bom; é perigoso. O Deus cristão criou por transbordamento.
A Santíssima Trindade: o mistério central
Chegamos ao ponto em que quase toda catequese de adultos passa correndo — com uma frase envergonhada e uma imagem de trevo. Nós vamos fazer o contrário: encarar de frente. Sem fingir que é fácil. Sem fingir que é impossível.
O Catecismo não deixa dúvida sobre o peso da coisa: “O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã” (CIC 234). Central. Não decorativo. É a fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina. E o Catecismo acrescenta uma honestidade rara: trata-se de um mistério em sentido estrito, inacessível à razão sozinha, conhecido apenas porque Deus mesmo o revelou (cf. CIC 237). Ninguém deduziu a Trindade. Ela foi contada.
Alguém vai dizer: “mas essa palavra não está na Bíblia”. Não está — como não estão “encarnação”, “sacramento” ou “monoteísmo”. O que está na Bíblia é a realidade: o Filho que reza ao Pai e é chamado Deus; o Espírito que procede e é adorado; e a ordem final de Jesus, “batizai-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Reparem no singular: em nome. Não em nomes. A palavra veio depois, como sempre acontece: primeiro a experiência, depois o vocabulário para defendê-la.
E é possível quase datar o nascimento da palavra. Por volta do ano 180, um bispo de Antioquia chamado Teófilo escreveu três livros para um amigo pagão, Autólico, que zombava dos cristãos. Comentando os três primeiros dias do Gênesis — os dias anteriores à criação do sol e da lua —, ele escreve a frase em que, até onde sabemos, o termo aparece pela primeira vez na literatura cristã:
Os três dias que precederam os luminares são tipos da Tríade: de Deus, do seu Verbo e da sua Sabedoria.
— São Teófilo de Antioquia, A Autólico, II, 15
Cento e quarenta e cinco anos antes do Concílio de Niceia, um bispo já usa a palavra com naturalidade — num livro dirigido a um descrente. Guardem esse dado: ele responde sozinho à objeção de que a Trindade teria sido “inventada por um concílio”.
A doutrina, quando a Igreja precisou formulá-la contra os erros, cabe em três frases — e o Catecismo as enumera assim (CIC 253-255). Primeira: a Trindade é una. Não confessamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas. Segunda: as pessoas divinas são realmente distintas entre si. O Pai não é o Filho; o Filho não é o Espírito. Terceira: as pessoas são relativas umas às outras. Elas não se distinguem por terem pedaços diferentes de divindade, mas pelas relações que as constituem: o Pai gera, o Filho é gerado, o Espírito procede.
E vale nomear os três erros clássicos, porque eles reaparecem hoje na boca de gente bem-intencionada. “São três máscaras do mesmo” — é o modalismo: Deus se apresentaria ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito. Mas então me respondam: quem rezava no Getsêmani? A quem Jesus dizia “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”? Um monólogo? “São três deuses” — é o triteísmo, e destrói o monoteísmo que o Credo afirma na primeira palavra. “O Filho é a maior das criaturas, mas criatura” — é o arianismo, a grande crise do século IV; a resposta de Niceia será o tema da próxima aula. Cada erro é uma tentativa honesta de simplificar. E cada um, ao simplificar, perde alguma coisa que estava no Evangelho.
Nenhuma mente humana trabalhou tanto nisso quanto a de Santo Agostinho, que passou cerca de vinte anos escrevendo os quinze livros de Sobre a Santíssima Trindade. Logo no primeiro livro, ele explica por que valia a pena o esforço:
Em nenhum outro assunto o erro é mais perigoso, nem a busca mais laboriosa, nem a descoberta da verdade mais proveitosa.
— Santo Agostinho, Sobre a Santíssima Trindade, I, 3
As três coisas ao mesmo tempo: perigoso, trabalhoso, proveitoso. Não é permitido, portanto, nem o desprezo — “isso não muda nada na minha vida” — nem a pressa.
A contribuição mais famosa de Agostinho é o método. Se fomos criados à imagem de Deus, e Deus é Trindade, então deve haver em nós algum vestígio, alguma pegada trinitária. Ele procura durante livros inteiros — e chega à imagem que atravessou a história do pensamento ocidental: a alma que se lembra de si, se entende e se quer:
Ora, uma vez que estas três coisas — memória, inteligência e vontade — não são três vidas, mas uma só vida; nem três mentes, mas uma só mente; segue-se com certeza que também não são três substâncias, mas uma só substância.
— Santo Agostinho, Sobre a Santíssima Trindade, X, 11, 18
Agora pensem em vocês mesmos, neste instante. Você se lembra do que fez ontem. Entende o que está ouvindo agora. E quer alguma coisa para amanhã. São três atividades realmente distintas, cada uma abrangendo as outras — e, no entanto, não são três pessoas dentro do seu crânio: é uma única mente. Um só ser, três dinamismos inseparáveis. Não é a Trindade — nenhuma analogia é. Mas é a marca do oleiro no barro.
E aqui devo ser honesto com uma história que todo mundo conta. Diz a tradição que Agostinho, caminhando à beira-mar enquanto escrevia sobre a Trindade, encontrou um menino que corria com uma concha, enchendo de água do mar um buraco na areia. Perguntou o que fazia; o menino respondeu que ia colocar todo o oceano ali dentro. Agostinho riu do absurdo — e o menino teria retrucado que mais depressa poria o mar naquele buraco do que Agostinho poria o mistério da Trindade na cabeça dele. É uma cena magnífica. E é uma lenda medieval, recolhida por volta do século XIII na Legenda Áurea. Não está em nenhuma obra de Agostinho. Eu conto assim mesmo, dizendo o que ela é — porque a lenda diz a verdade que Agostinho de fato ensinou: a inteligência humana cabe dentro de Deus. E não o contrário.
E para quem ainda pergunta “o que muda na minha vida?” — a resposta é esta, e ela é enorme. Se Deus fosse solidão, o amor seria uma atividade opcional dele: algo que ele começou a fazer quando houve mundo. Sendo Trindade, o amor é o que ele é. Eternamente. Antes de qualquer criatura. E como você foi feito à imagem desse Deus, a sua vocação mais profunda não é ser autossuficiente — é ser comunhão. Toda vez que você prefere a relação ao isolamento — no casamento, na amizade, na comunidade que às vezes irrita —, você está sendo o que foi criado para ser. E o Catecismo diz aonde isso vai dar: o fim último de tudo é que sejamos introduzidos na própria vida da Trindade (cf. CIC 260). Nós não seremos espectadores da felicidade de Deus. Seremos convidados para dentro.
“Criador do céu e da terra”
A Bíblia começa com uma afirmação que era escandalosa no tempo dela — e continua sendo no nosso: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1; cf. CIC 279).
Escandalosa porque nega três coisas de uma vez. Nega que a matéria seja eterna, coeterna a Deus. Nega que o mundo seja um acidente. E nega que o mundo seja um pedaço de Deus. O Catecismo formula a fé em criação do nada: Deus não precisou de nada preexistente nem de nenhuma ajuda para criar (cf. CIC 296). Aquele mesmo Teófilo, escrevendo ao amigo pagão, já dizia:
O poder de Deus manifesta-se nisto: que, a partir do que não é, ele faz o que quer.
— São Teófilo de Antioquia, A Autólico, II, 4
Reparem no adversário dele. Para um grego culto do século II, um deus fazia como um escultor: recebia matéria e dava forma. Os cristãos afirmaram algo muito mais radical — não havia matéria. Havia Deus. E depois havia mundo. Isso significa que a existência é dom puro — do primeiro átomo ao seu último batimento.
E o que Deus criou, criou bom. O relato do Gênesis repete sete vezes que Deus viu que era bom, e o Catecismo insiste na bondade e na ordem próprias das criaturas (cf. CIC 299). Contra toda a corrente gnóstica antiga — e todo o seu revival moderno —, a fé católica afirma: a matéria não é prisão. O corpo não é castigo. O mundo não é ilusão a ser desprezada. Deus fez, olhou e aprovou. Quem despreza o criado está discutindo com o gosto do Criador.
O melhor guia para essa contemplação é São Basílio Magno. Numa Quaresma por volta do ano 378, em Cesareia da Capadócia, ele pregou aos trabalhadores da cidade — gente que ia à igreja antes e depois do expediente — as nove homílias sobre os seis dias da criação que chamamos de Hexaemeron. Não é um tratado erudito. É um bispo mostrando ao povo o mar, as sementes, os pássaros, os peixes migradores — e dizendo: olhem. Ele abre assim:
É justo que quem começa a narrar a formação do mundo comece pela boa ordem que reina nas coisas visíveis.
— São Basílio Magno, Hexaemeron, homilia I, 1
E explica para que serve o mundo, numa frase que devia ser lida em toda escola:
Uma escola e um lugar de treinamento onde as almas dos homens devessem ser ensinadas. […] Pela vista das coisas visíveis e sensíveis, a mente é conduzida, como que pela mão, à contemplação das coisas invisíveis.
— São Basílio Magno, Hexaemeron, homilia I, 5-6
Conduzida como pela mão. É a diferença entre olhar um pôr do sol — e ser levado por ele. Basílio termina a primeira homilia convidando o povo a glorificar o supremo Artífice por tudo o que foi feito com sabedoria e arte, e a se elevar, pela beleza das coisas visíveis, àquele que está acima de toda beleza (cf. Hexaemeron, I, 11). Isso é uma tarefa espiritual concreta — e nós a perdemos. Nós passamos o dia olhando telas fabricadas por homens. E quase nunca olhamos, com atenção e por tempo suficiente, alguma coisa feita por Deus.
Duas precisões necessárias. Primeira: a criação não terminou. O Catecismo diz que o universo foi criado “em estado de caminho” para uma perfeição última ainda a ser atingida (cf. CIC 302), e que Deus não abandona a criatura depois de criá-la — ele a sustenta a cada instante (cf. CIC 301). Se ele parasse de querer você agora, você não morreria. Você simplesmente deixaria de haver. A criação é um verbo no presente.
Segunda: Gênesis não é um relatório científico — e a Igreja nunca pediu que fosse. A Escritura responde quem e por quê. A ciência responde como e quando. O Catecismo trata a questão com serenidade: reconhece o valor das perguntas científicas sobre as origens e afirma que elas ampliam a nossa admiração diante da grandeza do Criador (cf. CIC 283-284). Não há guerra a travar aqui. Nenhuma idade do universo, nenhum mecanismo evolutivo, nenhuma descoberta futura pode responder à única pergunta que o Credo faz: por que existe alguma coisa, em vez de nada?
A providência — e a pergunta que dói
Se Deus criou tudo e sustenta tudo, ele conduz tudo. É o que chamamos de providência: a disposição pela qual Deus conduz as suas criaturas à perfeição última (cf. CIC 302). E não se trata de um plano genérico. A Escritura afirma o cuidado concreto e imediato — do pássaro que cai ao cabelo contado (cf. Mt 10,29-31). Ao mesmo tempo — e isso é decisivo para não virarmos fatalistas —, Deus concede às criaturas a dignidade de agir e de serem causas umas das outras, e aos homens a de cooperar livremente com os planos dele (cf. CIC 306-307). Você não é uma peça movida. É um colaborador convocado.
E então vem a pergunta que faz cair a fé de muita gente. A Igreja teve a coragem de imprimi-la dentro do próprio Catecismo, com todas as letras: “Se Deus Pai todo-poderoso, Criador do mundo ordenado e bom, tem cuidado com todas as suas criaturas, por que existe o mal?” (CIC 309).
Eu não vou fingir que existe uma resposta que faça a dor passar. O Catecismo diz que nenhuma resposta rápida basta, e que a fé cristã inteira, tomada em conjunto, constitui a resposta. Mas há elementos que podemos oferecer com honestidade.
Primeiro: Deus podia ter criado um mundo já perfeito — e escolheu criar um mundo em caminho para a perfeição. Num mundo assim, junto com o bem físico existe também o mal físico, porque enquanto a criação não chega ao seu fim há construção e destruição na natureza (cf. CIC 310). Segundo: o mal moral — aquele que os homens fazem — não vem de Deus. Vem da liberdade. E Deus a respeita a ponto de permitir que seja usada contra ele — porque uma liberdade que não pode dizer não é um mecanismo. Não é amor (cf. CIC 311). Terceiro — e é aqui que a fé se distingue de toda filosofia: Deus não impede o mal, mas tira bem dele. José, vendido pelos irmãos, diz a eles anos depois: “vós tencionastes fazer-me mal, mas Deus tornou-o em bem” (Gn 50,20). E o Catecismo leva isso ao limite: do maior mal moral jamais cometido — a rejeição e o assassinato do Filho de Deus — Deus tirou o maior de todos os bens: a glorificação de Cristo e a nossa redenção (cf. CIC 312).
Mas escutem agora a frase mais honesta do Catecismo inteiro. E levem-na a sério: “Nós cremos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história. Mas os caminhos da sua providência muitas vezes nos são desconhecidos” (CIC 314). Só no fim, quando o conhecimento parcial acabar, conheceremos plenamente. Ou seja: a Igreja não promete que você vai entender por que aquilo aconteceu com você. Promete que há um sentido, que ele não é cruel — e que você o verá.
Por isso, uma palavra prática e pastoral. Nunca digam a alguém que enterrou um filho que “Deus quis assim”, ou que “tudo tem uma explicação”. Não é a resposta cristã. E machuca. A resposta cristã ao sofrimento não é um argumento — é uma pessoa pregada numa cruz, que não explicou a dor, mas entrou nela. O Catecismo termina esta seção exatamente assim: a permissão divina do mal é um mistério que Deus esclarece pelo seu Filho Jesus Cristo, morto e ressuscitado para vencer o mal (cf. CIC 324).
Objeções honestas
“A Trindade é uma conta que não fecha: um não pode ser três.” Se a Igreja dissesse que Deus é uma pessoa e três pessoas, ou uma natureza e três naturezas, vocês teriam razão — seria contradição, e não haveria fé que salvasse. Mas não é isso que se diz: uma só natureza divina, três pessoas distintas. São planos diferentes. E essa distinção não é um truque inventado para escapar — ela funciona no mundo inteiro: você e eu temos uma só natureza humana e somos duas pessoas. O que a fé afirma é que, em Deus, essa unidade de natureza é tão perfeita que as três pessoas são um só Deus. Isso é incompreensível? Sim — e o Catecismo diz isso antes de você (CIC 237). Mas incompreensível não é o mesmo que contraditório. Eu não compreendo o interior de um buraco negro — e isso não o torna ilógico. A pergunta certa não é “eu consigo abarcar isso?”. É: “quem me contou isso tinha autoridade para contar?”.
“O Credo e a Trindade foram inventados séculos depois, por decisão política de imperadores.” É uma objeção que circula muito. E cai com datas. Teófilo de Antioquia usa a palavra “Tríade” por volta de 180 — cento e quarenta e cinco anos antes de Niceia, num livro apologético, sem nenhum imperador por perto. A fórmula batismal trinitária está em Mateus 28,19 — no primeiro século. Cirilo, em Jerusalém, entrega em 350 um Credo que já era antigo, e que ele proíbe alterar. Rufino comenta, em latim, um texto romano ainda mais velho. O que os concílios fizeram não foi criar conteúdo. Foi fixar vocabulário preciso, quando o vocabulário impreciso começou a ser usado para negar o que sempre se creu. Definir é o que se faz para impedir invenções. Não para promovê-las.
“Se tudo tem uma causa, quem criou Deus?” A pergunta parece devastadora — e se desmonta sozinha, porque atribui à fé uma premissa que ela nunca teve. Ninguém afirma que “tudo tem uma causa”. Afirma-se que tudo o que começa a existir tem uma causa. Deus não começou. É precisamente isso que o nome da sarça diz: “Eu sou aquele que sou”. Perguntar quem criou Deus é como perguntar que cor tem o número sete — a pergunta está mal montada. E se parecer arbitrário parar em Deus, notem: a alternativa é parar em outro lugar qualquer — o universo, uma flutuação, um multiverso — sem nenhum ganho explicativo. A diferença é que só uma dessas paradas te ama.
Para viver
- Decore o Credo, como Cirilo mandou — “não em papel, mas gravando-o no coração”. Reze-o de pé, em voz alta, uma vez por dia esta semana, e pare em cada artigo por um segundo.
- Faça o Sinal da Cruz devagar, três vezes ao dia. É a mais curta profissão de fé trinitária que existe, e nós a fazemos como quem espanta mosquito. Diga cada nome inteiro.
- Cumpra a tarefa de Basílio: quinze minutos, sem tela, olhando alguma coisa que Deus fez — uma árvore, o céu, o rosto de quem dorme ao seu lado. Deixe-se conduzir, como pela mão, ao invisível.
- Escreva a sua objeção. Se sobrou uma dúvida sobre a Trindade, a criação ou o mal, ponha no papel e traga ao próximo encontro. Aqui nenhuma pergunta é proibida — e as que ficam sem ser ditas são as que fazem estrago.
- Traga o seu “por quê” para a oração. Se você carrega uma dor que nunca conseguiu conciliar com um Deus bom, não a resolva sozinho nem a esconda de Deus: diga a ele, como pergunta, aquilo que você vem dizendo como acusação.
Para rezar
De pé, em voz alta, como a Igreja faz na Vigília Pascal — e como aqueles adultos de Jerusalém fizeram, de cor, antes de descer à água:
Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra.
E depois, em silêncio:
Deus, Pai todo-poderoso, eu creio — e ajuda a minha falta de fé. Creio que tu és, que és um só, que és amor desde antes de haver mundo. Creio que me fizeste do nada, de graça, e que me sustentas neste instante em que eu respiro sem pensar em ti. Perdoa-me por atravessar a tua criação sem olhar, e por querer entender-te antes de te obedecer. Não me deixes fazer de ti um deus pequeno, do meu tamanho. E naquilo que eu não entendo — na dor que eu não sei encaixar em nenhuma explicação — dá-me a graça de esperar em ti sem exigir respostas, olhando para a cruz do teu Filho, até o dia em que eu veja face a face. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre. Amém.