Cartago, província romana da África. Ano 252, mais ou menos.

A cidade acaba de atravessar a primeira perseguição universal da história da Igreja. O imperador Décio exigiu de todo cidadão do Império um sacrifício aos deuses — com certidão carimbada. Muitos cristãos morreram. Muitos outros — a maioria, é preciso dizer — não aguentaram: compareceram, ofereceram o incenso, pegaram o papel e voltaram para casa. Vivos. E destroçados por dentro. Agora a perseguição afrouxou, e essas pessoas estão de volta à porta da igreja. Envergonhadas. Sem saber se ainda têm o direito de rezar.

O bispo dessa cidade é um advogado convertido chamado Cipriano. Ele tem sobre a mesa uma pilha de problemas pastorais explosivos. E o que ele faz?

Escreve um livrinho ensinando o povo a rezar o Pai Nosso. Frase por frase. Não um decreto disciplinar. Não um manifesto. Um comentário à oração que qualquer criança batizada já sabia de cor. Porque Cipriano tinha entendido o que nós esquecemos com facilidade: um povo que não sabe rezar não sobrevive a nada. E a primeira coisa a devolver a quem caiu não é uma sentença — é o direito de dizer “Pai”.

Logo no começo do tratado, ele explica por que essa oração é diferente de todas as outras:

É uma oração amiga e familiar suplicar a Deus com a sua própria palavra, fazer subir aos seus ouvidos a oração de Cristo.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 3

Oito anos depois, esse mesmo Cipriano seria levado para fora dos muros de Cartago e decapitado — tendo pedido antes que dessem vinte e cinco moedas de ouro ao carrasco. O homem que ensinou uma cidade inteira a rezar o Pai Nosso morreu rezando-o. Hoje nós vamos fazer o que ele fez: pegar a oração que você repete desde criança e abri-la, palavra por palavra, até ela voltar a doer. E a consolar.

“Senhor, ensina-nos a rezar”

Comecemos pela cena que originou tudo. São Lucas registra: “Jesus estava rezando em certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos lhe disse: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou aos seus discípulos” (Lc 11,1). Dois detalhes costumam passar batido.

Primeiro: os discípulos esperaram ele terminar. Ficaram olhando. Havia alguma coisa naquele homem rezando que os deixou em silêncio. Não a técnica. Não a duração. A intimidade. Eles perceberam que Jesus estava falando com alguém que realmente estava lá.

Segundo: de tudo o que podiam ter pedido — poder de curar, sabedoria para debater, coragem — pediram isto. E é por responder a esse pedido que o Pai Nosso ocupa um lugar sem paralelo: é a única oração que temos vinda diretamente da boca do Filho de Deus (cf. CIC 2759, 2765). Todas as outras orações da Igreja são nossas, feitas com palavras nossas. Esta é dele. Quando você a reza, não está inventando um jeito de agradar a Deus. Está usando as palavras que o próprio Deus escolheu.

Meio século antes de Cipriano, na mesma Cartago, outro africano genial e difícil — Tertuliano — tinha escrito o mais antigo comentário cristão a essa oração que chegou até nós. Na primeira frase do tratado, ele cunhou a expressão que o Catecismo iria citar dezessete séculos depois:

Na Oração está compreendido um epítome de todo o Evangelho.

— Tertuliano, Sobre a Oração, 1

O Catecismo assume a fórmula sem retoques: “A oração dominical é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho” (CIC 2761). Pensem no que isso significa. Tudo o que vamos estudar este ano — quem é Deus, o que ele fez por nós, como se vive, o que esperamos no fim — cabe em cinquenta palavras que você já sabe de cor. O Pai Nosso não é a oração dos iniciantes. É o Evangelho inteiro, dobrado até caber num suspiro.

Tertuliano acrescenta uma observação que resolve uma dúvida comum: sobre esse alicerce podemos levantar outros pedidos, cada um segundo a sua necessidade — mas sempre sobre ele, nunca no lugar dele (cf. Sobre a Oração, 10). Reze com as suas palavras. Reze pelo emprego, pelo exame, pela pessoa doente. Só não construa sem fundação. E Agostinho vai mais longe: examinando todos os pedidos legítimos que um cristão pode fazer, conclui que não há nenhum que não esteja, de algum modo, já contido numa das sete petições.

E para tirar desde já um mal-entendido: o Catecismo adverte que Jesus não nos deixou uma fórmula para repetir mecanicamente (CIC 2766). O Pai Nosso não é senha. É escola.

“Pai”: a ousadia de uma palavra

A oração começa com uma palavra que — se não estivéssemos anestesiados pelo costume — nos deixaria de joelhos.

No Antigo Testamento, o nome de Deus era impronunciável. Moisés, diante da sarça, ouve: “Não te aproximes daqui; tira as sandálias dos pés” (Ex 3,5). Havia distância. Véu. Terror sagrado. E então chega um carpinteiro da Galileia e diz: quando rezardes, dizei Abba. A palavra doméstica. A que uma criança aramaica usava com o pai dentro de casa. Não “Senhor do universo”. Pai.

A Igreja nunca perdeu a consciência do escândalo. Na Missa, o padre não diz simplesmente “rezemos o Pai Nosso” — diz “ousamos dizer”. O Catecismo resume a atitude cristã diante do Pai com uma palavra grega magnífica, parresia: “simplicidade sem desvio, confiança filial, alegre segurança, humilde ousadia, certeza de ser amado” (CIC 2777-2778).

Humilde ousadia. Guardem esse par, porque ele desarma os dois erros mais comuns. Existe quem reze com ousadia sem humildade: trata Deus como fornecedor, cobra resultados, some quando não é atendido. E existe quem reze com humildade sem ousadia: nunca pede nada de verdade, se acha indigno demais para incomodar — e acaba com uma religião respeitosa e morta. O Pai Nosso ensina as duas coisas ao mesmo tempo: você é pequeno. E você é filho.

Mas de onde vem esse direito? Cipriano responde com a precisão de advogado:

O homem novo, renascido e restituído a seu Deus pela graça dele, diz “Pai” em primeiro lugar porque começou a ser filho.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 9

Nós não dizemos “Pai” porque somos educados, nem porque Deus é genericamente bondoso com todo mundo. Dizemos porque alguma coisa aconteceu conosco: o Batismo nos enxertou em Cristo, e no Filho nos tornamos filhos (cf. CIC 2782). Tertuliano dizia o mesmo: aos que creram nele, deu o poder de se chamarem filhos de Deus (cf. Sobre a Oração, 2, citando Jo 1,12).

E isso obriga. João Cassiano — o monge que percorreu o Egito no fim do século IV entrevistando os grandes anciãos do deserto — dedica a nona das suas Conferências à oração, e nela comenta o Pai Nosso. Sobre esta primeira palavra, ele adverte: ao dizer “Pai”, nós professamos ter sido chamados da condição de escravos à adoção de filhos. E quem se declara filho de Deus não pode viver buscando as coisas de baixo como se fosse órfão (cf. Conferências IX, 18). Cassiano é implacável — e tem razão: cada Pai Nosso mal rezado é uma dignidade proclamada e não vivida.

Agora, uma palavra necessária para quem está com o estômago apertado. Para muita gente nesta sala, “pai” não é palavra doce. É ausência. É violência. É um homem que foi embora — ou que ficou e machucou. O Catecismo não ignora isso: diz que a oração ao Pai exige purificar o coração das imagens falsas “deste mundo”, porque os nossos pais e mães humanos, com as suas falhas, deformaram o rosto da paternidade em nós (cf. CIC 2779). Escutem com atenção: Deus não é a versão melhorada do seu pai. Ele é aquilo de que o seu pai era, na melhor das hipóteses, uma sombra pálida — e, na pior, uma caricatura. Se a palavra “pai” trava na sua garganta, traga a trava para dentro da oração: “Pai, eu não sei o que essa palavra significa. Ensina-me.” Isso já é o Pai Nosso.

“Nosso”: ninguém reza sozinho

Agora a segunda palavra. E ela é uma bomba escondida.

Jesus não ensinou “Pai meu”. Ensinou “Pai nosso” — e manteve o plural até o fim: nos dai, perdoai-nos, não nos deixeis, livrai-nos. Sete pedidos. Nenhum no singular. Cipriano percebeu e explorou isso a fundo:

Não dizemos “Meu Pai, que estais nos céus”, nem “dai-me hoje o meu pão”. A nossa oração é pública e comum; e quando rezamos, não rezamos por um só, mas por todo o povo, porque todo o povo é um só.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 8

O Catecismo diz o mesmo em linguagem de hoje: ao dizer “nosso”, reconhecemos a Aliança e nos colocamos, sem exceção, dentro de um “nós” que rompe as nossas divisões (cf. CIC 2790-2793). E aqui a coisa fica desconfortável — do jeito certo. Façam a conta comigo: aquela pessoa de quem você não fala há três anos está dentro do “nosso”. O parente que traiu. O colega que sabotou. O irmão de fé cuja opinião política dá urticária. Você não pode dizer “Pai nosso” e, ao mesmo tempo, dizer “aquele ali não é meu irmão”. Ou muda a oração — ou muda o coração.

Cipriano leva essa lógica ao remate, no mais famoso dos tratados dele: quem não tem a Igreja por mãe não pode ter Deus por Pai (Sobre a Unidade da Igreja, 6). Não é ameaça institucional. É gramática do amor. Não existe filho de Deus avulso. Quem quer o Pai, herda os irmãos junto — inclusive os que não escolheria.

“Que estais nos céus”

O mal-entendido aqui é geográfico. “Céu” não é um lugar longe, acima das nuvens, para onde Deus se aposentou. O Catecismo é explícito: a expressão não indica um lugar, mas um modo de ser — a majestade de Deus e, ao mesmo tempo, a sua presença no coração dos justos (cf. CIC 2794-2795). Agostinho, comentando esta oração no Sermão da Montanha, entende “nos céus” como “nos santos e nos justos”: Deus habita onde é acolhido.

Duas consequências. Primeira: Deus não está longe. Está mais perto de você do que você de si mesmo — e a distância que você sente não é dele. Segunda: se o Pai está no céu, é lá que fica o seu endereço definitivo. Você é daqui de passagem. Não por desprezo pela terra — mas porque essa é a única maneira de amar as coisas daqui sem exigir delas o que elas não podem dar.

Três pedidos para Deus, quatro para nós

Chegamos ao corpo da oração. São sete pedidos, e a ordem não é acidental: os três primeiros são voltados para Deus — o seu Nome, o seu Reino, a sua vontade. Só depois vêm os quatro que falam de nós: o pão, o perdão, a tentação, o mal (cf. CIC 2803-2806). Agora me digam com sinceridade: quando você reza espontaneamente, essa é a sua ordem? Quase nunca. A gente começa pela conta a pagar. Jesus inverte de propósito: quem começa por Deus recebe tudo o mais no lugar certo. Quem começa por si mesmo transforma Deus em departamento de atendimento ao cliente.

1. “Santificado seja o vosso nome”

Este pedido desconcerta: o nome de Deus já não é santo? É. Nós não pedimos que Deus fique mais santo. Pedimos, diz o Catecismo, que o nome dele seja reconhecido como santo e santificante em nós e no mundo (cf. CIC 2807-2814). Tertuliano diz o mesmo: pedimos que seja santificado em nós, que estamos nele, e igualmente em todos os outros pelos quais a graça de Deus ainda espera (cf. Sobre a Oração, 3). Reparem no “ainda espera”: mesmo no primeiro pedido, já estão os que não creem.

Cipriano dá o passo seguinte — e é um passo que corta:

Pedimos e suplicamos que nós, que fomos santificados no Batismo, perseveremos naquilo que começamos a ser.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 12

“Perseveremos naquilo que começamos a ser.” Não se trata de virar outra pessoa. Trata-se de não desistir daquilo que Deus já fez de você. E há um efeito público nisso. São Paulo cita o profeta com uma frase que devia estar pintada em toda sacristia: “por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre os pagãos” (Rm 2,24). O nome de Deus é santificado — ou arrastado na lama — pela conduta dos batizados. No trânsito. No grupo da família. Na planilha do trabalho. Quem reza este pedido assume um compromisso de reputação: que ninguém pense pior de Deus por ter me conhecido.

Agostinho, na segunda parte do comentário ao Sermão da Montanha, alinha os sete pedidos com os sete dons do Espírito Santo e com as bem-aventuranças. A este primeiro corresponde o temor de Deus e a bem-aventurança dos pobres em espírito (cf. O Sermão da Montanha do Senhor, II, 11, 38). Faz sentido: só santifica o nome de Deus quem primeiro descobriu que não é dono de nada.

2. “Venha a nós o vosso Reino”

O que exatamente estamos pedindo? Cipriano responde de um jeito que muda a pergunta:

Pode ser que o próprio Cristo seja o Reino de Deus, que dia após dia desejamos que venha, cuja vinda desejamos que se manifeste depressa para nós.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 13

O Reino não é um programa social. Não é uma época futura de paz mundial. É uma Pessoa reinando. O Catecismo distingue as camadas: pedimos a vinda final do Reino no retorno de Cristo — e pedimos que o Reino cresça já hoje, em nós, pela graça (cf. CIC 2816-2818). Os primeiros cristãos rezavam Marana tha — “Vem, Senhor” (1Cor 16,22) — com uma urgência que nós perdemos.

E convém ser honesto. Deixem-me perguntar: você quer mesmo que esse Reino venha? Porque a vinda dele implica o fim do meu pequeno reino. Dos meus planos inegociáveis. Do controle que exerço sobre as pessoas próximas. Dos assuntos onde eu decido sozinho o que é certo. Rezar “venha o vosso Reino” com sinceridade é assinar uma renúncia. Por isso muita gente reza esse pedido a vida inteira sem nunca perceber o que disse.

3. “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”

Esse é o pedido que custa caro — e não adianta enfeitar. Tertuliano pergunta e responde: o que Deus quer, senão que caminhemos segundo a sua doutrina? (cf. Sobre a Oração, 4). O Catecismo acrescenta o essencial: a vontade do Pai é “que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4; cf. CIC 2822). A vontade de Deus não é um roteiro secreto que ele esconde para nos testar. É a nossa salvação — e, no dia a dia, o mandamento novo de amarmos como ele nos amou.

Mas há a hora em que essa frase deixa de ser doutrina e vira agonia. Jesus a rezou no Getsêmani, suando sangue: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Prestem atenção na estrutura dessa oração — é o modelo de toda oração cristã diante do sofrimento. Ele pede de verdade o que quer. Não finge conformidade. Não reprime o desejo. Não faz teatro de espiritualidade. E, tendo pedido, entrega. Você tem o direito de pedir o que quer, com todas as letras, inclusive chorando. Só não tem o direito de dar a última palavra.

“Assim na terra como no céu.” No céu, a vontade de Deus é cumprida na hora, e com alegria. Na terra, ela esbarra em nós. E a primeira terra a ser conquistada é aquele metro quadrado que só você conhece: a decisão que você está adiando. O hábito que você defende. A conversa que você deve ter — e não tem.

4. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

Agora a oração desce ao chão da cozinha. E isso é um dado teológico enorme: o Deus de Jesus Cristo se interessa por pão. Ele não é um deus filosófico ocupado apenas com o espírito. Ele quer saber se você comeu.

Três palavras carregam o pedido. “Hoje”: como o maná no deserto, que apodrecia se guardado para o dia seguinte (Ex 16), Deus alimenta em regime diário. Ele não deposita a vida inteira de uma vez — convoca a confiar de novo a cada manhã. É a resposta direta à ansiedade: “não vos preocupeis com o dia de amanhã” (Mt 6,34) não é ingenuidade. É a única maneira de não morrer de medo do futuro.

“Nosso”: outra vez o plural. O Catecismo lembra o drama de milhões de pessoas sem pão e diz que este pedido nos torna responsáveis por elas (cf. CIC 2831). Não dá para rezar “o pão nosso” com sinceridade e organizar a vida de modo que o pão seja só meu.

“De cada dia”: a palavra grega original, epiousios, é tão rara que quase não existe fora desta oração. Pode significar “necessário para a existência” — e também “supra-substancial”. A Tradição leu nas duas chaves, e o Catecismo assume a leitura eucarística: este pão é também o Pão da Vida (cf. CIC 2837). Tertuliano já entendia assim: Cristo é o nosso Pão, porque Cristo é a Vida e o pão é vida (cf. Sobre a Oração, 6). E Cipriano vai ao ponto:

Cristo é o pão da vida, e este pão não é de todos, mas nosso. E assim pedimos que nos seja dado diariamente, para que nós, que estamos em Cristo e recebemos cada dia a Eucaristia como alimento de salvação, não sejamos separados do corpo de Cristo.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 18

Ou seja: nos primeiros séculos, a comunhão frequente já era entendida como aquilo que este pedido pede. Se você pode comungar e não comunga — está rezando por um pão que se recusa a comer.

5. “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos”

Aqui a oração para. Este é o único pedido em que nós mesmos ditamos a medida da resposta. E o Catecismo não deixa ninguém escapar pela tangente:

Esta petição é surpreendente. […] De acordo com o segundo membro da frase, a nossa petição não será atendida sem que primeiro tenhamos satisfeito uma exigência. É uma petição voltada para o futuro e a nossa resposta deve tê-la precedido; liga-as uma expressão: “assim como”.

— Catecismo da Igreja Católica, 2838

Santo Agostinho tinha visto exatamente isso, quinze séculos antes — e usou uma palavra de cartório:

Em nenhuma outra sentença rezamos de tal modo que, por assim dizer, façamos um pacto com Deus.

— Santo Agostinho, O Sermão da Montanha do Senhor, II, 11, 39

Um pacto. Um contrato que você redige e assina — todos os dias, muitas vezes por dia, na frente de testemunhas. E se você não cumpre a sua cláusula, adverte Agostinho, a oração inteira fica sem efeito. Não é acaso que este seja o único pedido do Pai Nosso que Jesus se dá ao trabalho de comentar logo em seguida: “se perdoardes aos homens as suas faltas, também vosso Pai celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas faltas” (Mt 6,14-15). E a parábola do servo impiedoso (Mt 18,23-35) é o mesmo ensinamento em forma de história: perdoado de dez mil talentos, ele estrangula um colega por cem denários. E perde tudo.

Cassiano, ouvindo os anciãos do Egito, tira daí a conclusão mais assustadora: quem se recusa a perdoar ao irmão está, com esta própria petição, pedindo a Deus um julgamento mais severo para si. Cada vez que reza — agrava a própria sentença (cf. Conferências IX, 22). Cipriano diz a mesma coisa pelo lado do altar:

Deus não recebe o sacrifício de quem está em discórdia, e manda que ele volte do altar e primeiro se reconcilie com o irmão. […] A nossa paz e a concórdia fraterna é o maior sacrifício a Deus.

— São Cipriano de Cartago, Sobre a Oração do Senhor, 23-24

Agora precisamos ser muito claros sobre o que perdoar não é — porque é aqui que as pessoas travam. E travam por motivos legítimos. Perdoar não é dizer que não teve importância. Teve. Não é sentir simpatia por quem feriu — o Catecismo reconhece que não está em nosso poder deixar de sentir a ofensa e a ferida (cf. CIC 2843). Não é esquecer — a memória não obedece a ordens. E não é, necessariamente, voltar à convivência: há relações abusivas de onde é preciso sair. E sair perdoando. Perdão e prudência não são inimigos.

Perdoar é renunciar ao direito de cobrar a dívida. É entregar a Deus a conta que a pessoa tem comigo — e parar de tentar executá-la eu mesmo: com silêncio, com sarcasmo, com o prazer amargo de lembrar. É, no limite, querer o bem de quem me fez o mal. O Catecismo aponta o único caminho pelo qual isso deixa de ser frase bonita: o coração que se oferece ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória (cf. CIC 2843). E a Igreja não pede isso em teoria. Pede olhando para uma cruz — onde o Filho de Deus torturado rezou “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). E olhando para Estêvão apedrejado, que morreu dizendo “Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7,60) — e cuja oração, a Igreja sempre acreditou, obteve a conversão de um jovem chamado Saulo, que guardava os mantos dos assassinos.

Se você está pensando “eu não consigo” — você está exatamente no lugar certo. E o Catecismo responde antes que você desanime: “Esta exigência crucial do mistério da Aliança é impossível para o homem. Mas ‘a Deus tudo é possível’” (CIC 2841). Não é força de vontade. É graça pedida. Comece pedindo a vontade de querer perdoar. Essa oração Deus atende.

E não se enganem sobre para onde vai o benefício. O Catecismo diz que a onda da misericórdia divina não pode penetrar no nosso coração enquanto não tivermos perdoado (cf. CIC 2840). O ressentimento é uma porta trancada por dentro: enquanto você segura a chave, Deus não força a fechadura. Quem você não perdoa não perde o sono. Você perde.

6. “E não nos deixeis cair em tentação”

A tradução gera confusão, e vale desfazê-la: Deus não tenta ninguém. “Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1,13). O Catecismo explica que o texto grego é difícil de verter e significa algo como “não permitas que entremos na tentação”, “não nos deixes sucumbir” (cf. CIC 2846). E distingue duas coisas que a vida embaralha (cf. CIC 2847). Existe a provação, necessária ao crescimento interior, que a Escritura compara ao ouro purificado no fogo. E existe a tentação, que leva ao pecado e à morte. O problema? Elas chegam disfarçadas uma da outra. A tentação sempre se apresenta como coisa boa — senão ninguém cairia. Por isso este pedido é, no fundo, um pedido de discernimento e vigilância: Senhor, não me deixe entrar na conversa. Não me deixe achar razoável o que vai me destruir.

Aqui a experiência dos Padres do deserto, que Cassiano recolheu, tem um realismo que a psicologia moderna reconheceria: eles ensinavam a vigiar o primeiro pensamento. Porque a batalha se ganha ou se perde na entrada. Depois que a coisa já está instalada na cabeça, a luta é de outra ordem de dificuldade. Na prática: você sabe qual é o seu ponto fraco. Qual horário. Qual estado de espírito. Qual companhia, qual tela, qual segundo copo. Rezar este pedido e continuar se colocando ali é ironia — não oração.

7. “Mas livrai-nos do mal”

O último pedido tem um detalhe que se perde em português: no original, “o Mal” não é um conceito abstrato. É alguém. O Catecismo afirma sem rodeios que se trata de uma pessoa, Satanás, o anjo que se opõe a Deus (cf. CIC 2851). Tertuliano lia a frase assim: arranca-nos do Maligno (cf. Sobre a Oração, 8).

Duas armadilhas simétricas. A ingenuidade moderna: achar que o demônio é folclore medieval — que é exatamente a posição mais confortável para quem prefere não ser notado. E a obsessão: ver demônio em tudo, viver assustado, terceirizar as próprias escolhas para forças invisíveis. A Igreja não faz nem uma coisa nem outra. Pede a libertação e segue em frente com paz — porque o combate já foi vencido. Na Missa, logo depois do Pai Nosso, o sacerdote amplia este pedido — “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz” — e o povo responde com a doxologia antiquíssima: “Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre”.

E então vem o Amém. Que não é “acabou”. É uma palavra hebraica que significa firmeza, apoio — “eu me apoio nisso”. O Catecismo diz que, ao concluir, subscrevemos com o “Amém” tudo o que pedimos (cf. CIC 2856, 2865). É a sua assinatura no contrato. Inclusive na cláusula do quinto pedido.

Objeções honestas

“Jesus não condenou justamente as repetições? Rezar sempre a mesma fórmula não é o contrário do que ele pediu?” A resposta está no próprio texto. Poucos versículos antes de ensinar o Pai Nosso, Jesus diz: “não useis de vãs repetições como os pagãos, que pensam que serão ouvidos por causa do seu muito falar” (Mt 6,7). O que ele condena é a ideia de que a quantidade de palavras arranca uma resposta de Deus — como se fosse preciso convencê-lo ou cansá-lo. E, tendo condenado isso, ele entrega uma fórmula. Prova de que fórmula não é o problema. O problema é o coração ausente. Um marido que diz “eu te amo” todo dia não está fazendo vã repetição — está sustentando uma relação. O que mata a oração não é repetir. É repetir sem estar lá. Por isso Cipriano recomendava rezar com disciplina, quietude e modéstia, lembrando que Deus não é ouvinte da voz, mas do coração (cf. Sobre a Oração do Senhor, 4).

“Se Deus já sabe do que preciso, por que pedir?” Jesus mesmo diz que o Pai sabe (Mt 6,8) — e ensina a pedir na frase seguinte. A oração de pedido não existe para informar Deus. Existe para formar você. Quem pede reconhece que não é a fonte de si mesmo, desloca o centro e aprende, com o tempo, a querer o que deve querer. O Pai Nosso é a prova disso: dos sete pedidos, os três primeiros não pedem nada para você — e nenhum de nós começaria a lista assim por conta própria. Rezar essa oração é ser lentamente reeducado no desejo.

“Eu rezo e não sinto nada. Isso vale?” Vale. E talvez valha mais. Cassiano registra, no fim daquela nona Conferência, a existência de uma oração ardente, de fogo, que ultrapassa toda palavra humana — e avisa, na mesma linha, que ela é conhecida e experimentada por pouquíssimos (cf. Conferências IX, 25). O próprio mestre da oração contínua reconhece que o extraordinário é raro. O normal é a fidelidade seca. E Tertuliano descreve o que essa oração comum faz:

A oração é o muro da fé; é a nossa armadura e os nossos dardos contra o inimigo que nos vigia de todos os lados.

— Tertuliano, Sobre a Oração, 29

Muro não é sensação. Muro é estrutura. Você só percebe que ele estava lá no dia em que alguma coisa bate nele — e não entra.

Para viver

  1. Reze o Pai Nosso uma vez por dia, devagar, com pausa depois de cada pedido. Um pedido, um silêncio de cinco segundos. Sete respirações. Leva dois minutos — e é a diferença entre recitar e rezar.
  2. Escreva o nome. Aquela pessoa que veio à sua cabeça na quinta petição — escreva o nome dela num papel e, durante esta semana, reze o Pai Nosso segurando esse papel. Se não conseguir perdoar, peça a graça de querer perdoar. Comece por aí, mas comece.
  3. Cumpra o quarto pedido com as mãos. Providencie pão real para alguém que não tem: uma cesta, uma refeição, uma conta paga sem alarde. “O pão nosso” cobra isso de quem reza.
  4. Escolha o seu “assim na terra”. Nomeie uma decisão concreta que você vem adiando porque sabe qual é a vontade de Deus nela. Tome a decisão esta semana.
  5. Leia um texto curto na biblioteca: o capítulo 1 do Sobre a Oração de Tertuliano, ou as primeiras seções do tratado de Cipriano sobre a Oração do Senhor. São páginas de mil e oitocentos anos que parecem escritas ontem.

Para rezar

Rezemos juntos, de pé, devagar — e, ao chegar ao quinto pedido, cada um pense no nome que escreveu.

Pai nosso, que estais nos céus, / santificado seja o vosso nome; / venha a nós o vosso reino; / seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. / O pão nosso de cada dia nos dai hoje; / perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; / e não nos deixeis cair em tentação, / mas livrai-nos do mal. Amém.

E depois, em silêncio, cada um diga a Deus com as próprias palavras:

Pai, eu rezei esta oração a vida inteira sem saber o que estava dizendo. Hoje eu sei um pouco mais, e por isso ela me pesa. Dá-me a ousadia humilde de te chamar de Pai mesmo quando essa palavra me dói. Alarga o meu “nosso” até caber quem eu deixei de fora. Faz-me querer o teu Reino mais do que o meu. Dá-me o pão de hoje e tira-me o medo de amanhã. E, sobretudo, dá-me o que eu não consigo dar: o perdão que prometi ao te pedir perdão. Não me deixes entrar na tentação que tu conheces melhor do que eu, e arranca-me do Maligno. Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.

Referências desta aula