Sagrada Tradição e Magistério
De onde vem o que cremos: a Revelação transmitida pela Tradição e pela Escritura, guardada pelo Magistério.
Ano 190, mais ou menos. O bispo de Lyon escreve uma carta furiosa a um velho conhecido.
O nome do destinatário é Florino. Ele foi colega do bispo na juventude, na Ásia Menor. Agora, já presbítero em Roma, anda ensinando que Deus é o autor do mal. Irineu podia responder com argumentos de escola. Prefere apelar para a memória — e o que ele escreve é uma das páginas mais comoventes da literatura cristã antiga. Eusébio a preservou na História da Igreja. Escutem:
Recordo os acontecimentos daquele tempo com mais clareza do que os dos anos recentes. Sou capaz de descrever o próprio lugar em que o bem-aventurado Policarpo se sentava para falar, os seus modos de entrar e de sair, o seu modo de vida e a sua aparência física. E ele recordava as palavras deles e o que ouvira a respeito do Senhor, dos seus milagres e do seu ensino, tendo recebido tudo de testemunhas oculares do Verbo da vida; e Policarpo relatava todas as coisas em harmonia com as Escrituras.
— Santo Irineu, Carta a Florino, citada por Eusébio, História da Igreja, V, 20
Agora façam comigo a conta que Irineu está fazendo. Ele, menino, sentado no chão, ouvindo o velho bispo Policarpo. Policarpo, na juventude, ouvindo o apóstolo João. João, encostado no peito de Jesus, na última ceia.
Três pessoas separam o bispo de Lyon do Cenáculo.
E reparem: Irineu não está apelando para uma sensação piedosa. Está apresentando uma cadeia verificável de testemunhas — com nomes, lugares e datas — e dizendo a Florino: o que você está ensinando não é o que se ensinou. E eu conheci quem conheceu.
É disso que trata o encontro de hoje. A pergunta desta noite é a mais adulta que se pode fazer a um catequista — e vocês têm todo o direito de fazê-la: como é que vocês sabem que isto que vocês me ensinam é verdade, e não uma coisa que a Igreja foi inventando pelo caminho? A resposta cristã não é “porque sim”. Também não é “porque está na Bíblia” — e daqui a pouco vocês vão ver por que essa resposta, sozinha, não se sustenta. A resposta tem três nomes: Sagrada Escritura, Sagrada Tradição e Magistério. Vamos entender cada um. E depois vamos responder, de frente, à objeção que vocês vão ouvir no trabalho e em casa.
Deus falou primeiro
Antes de falar de transmissão, é preciso dizer o que se transmite. Nós não estudamos filosofia religiosa. Estudamos uma Revelação: Deus — que ninguém podia alcançar — decidiu sair do seu silêncio e se dar a conhecer.
O Catecismo distingue dois caminhos. Pela razão natural, “o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras” (CIC 50). Um universo ordenado. A existência do bem e do mal. A consciência moral. A fome de infinito. Tudo isso aponta. Mas isso leva só até a soleira da porta. Quem Deus é por dentro, o que ele quer, o que nos espera — isso ninguém deduz. Isso precisa ser dito.
E foi dito. Aos poucos, ao longo de uma história com endereço: Abraão, Moisés, os profetas — um povo pequeno e teimoso, levado pela mão durante séculos. Deus se revela “por obras e palavras”: os fatos confirmam as palavras, as palavras explicam os fatos. E essa pedagogia lenta prepara o desfecho. Porque a Revelação não termina num livro. Não termina numa lei. Termina numa Pessoa. “Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai” (CIC 65). Deus disse tudo o que tinha a dizer quando disse o Filho. Por isso o Catecismo pode afirmar: “A economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e já não se há de esperar nenhuma nova revelação pública” (CIC 66).
Guardem essa frase, porque ela vale para toda a vida de fé de vocês. Nenhuma aparição, nenhum vidente, nenhum profeta moderno vai acrescentar um artigo ao que já foi revelado. As revelações privadas aprovadas pela Igreja — Lourdes, Fátima — não trazem doutrina nova: ajudam a viver mais intensamente o que já se sabe (cf. CIC 67). Então, se alguém aparecer com uma mensagem “que a Igreja escondeu de você” — acenda o alerta na hora. Foi exatamente essa a promessa dos gnósticos que Irineu combateu: um evangelho secreto, reservado aos iniciados. O cristianismo não tem porão. O que ele tem, ele diz em voz alta.
Como isso chegou até você: a transmissão apostólica
Aqui está uma virada que muita gente nunca fez. Prestem atenção: Jesus Cristo não escreveu nada.
Não deixou um livro. Não ditou um catecismo. Não fundou uma editora. Ele formou homens — e mandou: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações… ensinando-lhes a observar tudo o que eu vos mandei” (Mt 28,19-20). O modo de transmissão escolhido por Deus foi o mais frágil e o mais humano de todos: pessoas ensinando pessoas, dentro de uma comunidade viva.
E foi assim que funcionou. Por décadas, a fé cristã se espalhou de boca em boca, de casa em casa — sem um único livro do Novo Testamento existir. Depois, sob inspiração do Espírito, alguns apóstolos e discípulos escreveram: cartas de circunstância, evangelhos, um apocalipse. Irineu descreve exatamente essa sequência — e valoriza os dois momentos:
Os apóstolos primeiro pregaram o Evangelho, e depois, por vontade de Deus, transmitiram-no a nós nas Escrituras, para que fosse o fundamento e a coluna da nossa fé.
— Santo Irineu, Adversus haereses, III, 1, 1
Primeiro a pregação. Depois a escrita. E a escrita não substituiu a pregação — nasceu dela. Por isso o Catecismo pode dizer, numa frase que desconcerta muita gente: “O Cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda” (cf. CIC 108). A Palavra é uma Pessoa. A Escritura é o testemunho inspirado a respeito dela.
Mas os apóstolos iam morrer. E sabiam disso. Então fizeram a única coisa sensata: deixaram sucessores. “Para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os bispos” (CIC 77). E isso não é reconstrução tardia — temos a prova por escrito, e ela é antiga demais para ser conveniente.
Ano 96. O apóstolo João provavelmente ainda está vivo, em Éfeso. A igreja de Corinto entra em crise: um grupo depõe os presbíteros legítimos. E de Roma parte uma carta — longa, firme, escrita em nome da comunidade romana pelo seu bispo, Clemente. Ele explica a lógica da sucessão:
Os apóstolos pregaram-nos o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado da parte de Deus.
— São Clemente de Roma, Primeira Epístola aos Coríntios, 42
A cadeia é essa: Deus, Cristo, os apóstolos, os bispos. E Clemente acrescenta, no capítulo seguinte, que os apóstolos já sabiam — por Jesus Cristo — que haveria contendas a respeito do ministério episcopal, e por isso instituíram homens aprovados para lhes suceder (cap. 44). Agora reparem em três detalhes explosivos para o ano 96. Existe uma estrutura de ministério ordenado. Existe consciência de sucessão. E é Roma que escreve a Corinto para corrigir — sem que ninguém pergunte com que direito. E a carta não foi esquecida num arquivo: setenta anos depois, o bispo Dionísio de Corinto ainda registrava que ela era lida em voz alta nas assembleias da igreja dele. Tradição não é teoria. É isto — documentado.
Irineu levou o argumento ao limite, com um experimento mental que continua valendo:
E se acontecesse que os apóstolos não nos tivessem deixado escritos, não seria necessário seguir o curso da tradição que eles transmitiram àqueles a quem confiaram as Igrejas?
— Santo Irineu, Adversus haereses, III, 4, 1
E ele observa que muitos povos “bárbaros” creem sem ter papel nem tinta — guardando a salvação escrita no coração pelo Espírito, conservando cuidadosamente a antiga tradição. Isso descreve, aliás, a maior parte dos cristãos da história: analfabetos, sem acesso a um códice caríssimo — e, no entanto, crentes de fé íntegra. Pensem nisso: se a fé dependesse de saber ler, o cristianismo teria sido uma religião de elite. Não foi.
Uma só fonte, dois canais
Agora a formulação precisa — e ela é mais simples do que parece. Não existem duas revelações concorrentes, uma escrita e outra secreta. Existe uma única fonte — a Palavra de Deus entregue aos apóstolos — que chega até nós por dois canais. O Catecismo: “A Tradição sagrada e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si” (CIC 80). Elas “brotam da mesma fonte divina”, formam “um só depósito sagrado da Palavra de Deus” (cf. CIC 80, 84).
Qual é a diferença entre os dois canais? A Escritura “é a Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino” (CIC 81). A Tradição transmite integralmente a Palavra de Deus confiada por Cristo aos apóstolos, e a passa aos sucessores deles, “para que, iluminados pelo Espírito da verdade, a conservem, exponham e difundam fielmente” (cf. CIC 81). Por isso o Concílio conclui — e o Catecismo repete — aquilo que costuma escandalizar: “A Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas” (CIC 82). Escritura e Tradição devem ser recebidas “com igual sentimento de piedade e reverência”.
E aqui é preciso desfazer um mal-entendido de vocabulário, porque ele causa confusão demais. Tradição não é costume. O Catecismo faz a distinção com todas as letras: “A Tradição de que falamos aqui é a que vem dos Apóstolos” (CIC 83) — e ela se distingue das tradições teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais nascidas ao longo do tempo nas igrejas locais. Estas podem ser mantidas, modificadas ou até abandonadas, sob a orientação do Magistério. A língua da Missa é tradição com “t” minúsculo — e mudou. A presença real de Cristo na Eucaristia é Tradição com “T” maiúsculo — e não muda. Quem confunde as duas coisas acha que a Igreja mudou de fé quando ela apenas mudou de roupa.
Quem disse que estes 27 livros são a Bíblia?
Agora a pergunta que desmonta sozinha a ideia de que a Escritura se sustenta sem a Igreja. Peguem um Novo Testamento. Contem: vinte e sete livros. Agora me respondam: onde, dentro desses vinte e sete livros, está a lista dos vinte e sete?
Não está. Nenhum autor bíblico escreveu um índice. O sumário da sua Bíblia não é revelado — é o resultado de um discernimento feito pela Igreja, ao longo de séculos.
E não foi um processo trivial. Circulavam dezenas de escritos cristãos: o Evangelho de Tomé, o de Pedro, o Pastor de Hermas, a Epístola de Barnabé, o Apocalipse de Pedro, os Atos de Paulo. Alguns eram lidos nas assembleias de algumas igrejas. E, do outro lado, livros que hoje ninguém questiona foram discutidos por muito tempo: a Carta aos Hebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, o Apocalipse. Eusébio de Cesareia, o primeiro grande historiador da Igreja, dedica um capítulo inteiro da História da Igreja a fazer o inventário — escritos aceitos, discutidos e rejeitados (III, 25). É de Eusébio, aliás, que vem quase tudo o que sabemos dos dois primeiros séculos. E ele declarou, logo na abertura, o que pretendia fazer:
É meu propósito escrever um relato das sucessões dos santos apóstolos, e dos tempos decorridos desde os dias do nosso Salvador até os nossos; e mencionar aqueles que governaram e presidiram a Igreja nas paróquias mais importantes, e aqueles que em cada geração anunciaram a palavra divina, oralmente ou por escrito.
— Eusébio de Cesareia, História da Igreja, I, 1
Reparem no critério dele: sucessões. Bispos. Transmissão. Para um cristão do século IV, a garantia da fé era rastreável.
A lista exata dos vinte e sete livros aparece pela primeira vez, tal como a temos, na carta pascal de Santo Atanásio de Alexandria — no ano 367. Os concílios de Hipona (393) e de Cartago (397 e 419) confirmaram o mesmo elenco. Ou seja: por mais de três séculos, a Igreja viveu, pregou, batizou, celebrou a Eucaristia e morreu nos circos — sem ter um Novo Testamento definido. O Catecismo resume o processo numa frase: “Foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais os escritos deviam ser contados” no cânon (cf. CIC 120).
Agora tirem a conclusão devagar, porque ela é inevitável: se a Igreja não fosse confiável para reconhecer quais livros são inspirados, você não teria motivo nenhum para confiar na Bíblia que tem na mão. Quem aceita o índice tem de aceitar quem o fez. Não dá para receber o presente e recusar as mãos que o entregaram.
O Magistério: servo, não senhor
Falta o terceiro elemento — e é o que mais gera desconfiança. Por que eu preciso de alguém para interpretar? Não posso ler sozinho?
Pode. E deve — a aula 5 será inteira sobre isso. Mas ler não é o mesmo que interpretar com autoridade. O próprio Novo Testamento mostra a diferença. Um funcionário etíope vai lendo Isaías na estrada, e Filipe pergunta se ele entende o que lê. A resposta é a mais honesta da Bíblia: “Como poderia eu, se ninguém me explica?” (At 8,31). E Pedro adverte que nas cartas de Paulo “há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e inconstantes deturpam, como também as demais Escrituras, para a própria perdição” (2Pd 3,16). O problema, portanto, não é a Escritura. É o leitor.
Foi para isso que Cristo instituiu um ministério vivo. “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10,16), diz ele aos apóstolos. E Paulo chama a Igreja de “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15) — notem bem: a Igreja, não o livro. Daí a formulação do Catecismo: “O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja” (CIC 85) — isto é, ao Papa e aos bispos em comunhão com ele.
E logo em seguida vem o parágrafo que precisa ser lido em voz alta sempre que alguém acusar a Igreja de se colocar acima da Bíblia:
Este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço. (CIC 86)
Servo. Não senhor. O Magistério não cria doutrina nova, não inventa artigos de fé, não pode revogar o Evangelho. Ele só ensina o que foi transmitido: escuta-o com devoção, guarda-o santamente, expõe-no com fidelidade. É um ofício de zelador — não de proprietário. E o Catecismo fecha o tripé com uma imagem de engrenagem: Tradição, Escritura e Magistério “estão de tal maneira ligados” que “nenhum deles subsiste sem os outros” (cf. CIC 95). Tirem a Tradição — e vocês ficam sem saber qual é o livro. Tirem o Magistério — e cada leitor vira papa de si mesmo. Tirem a Escritura — e a Igreja perde a norma escrita que a julga. Os três, juntos, sob a ação do Espírito Santo.
O dogma cresce — e continua o mesmo
Resta a objeção mais sofisticada, e ela merece uma seção própria. Se a Revelação se encerrou com os apóstolos, como é que a Igreja proclamou dogmas em 325, em 431, em 1854, em 1950? Isso não é acrescentar coisas?
Quem melhor respondeu foi um monge do sul da Gália, no ano 434. São Vicente de Lérins escreveu um pequeno livro, o Commonitório, para dar aos católicos um critério prático diante de doutrinas novas. E ele começa constatando um fato incômodo: por que não basta a Escritura, se ela é completa e suficiente? A resposta dele é de uma honestidade brutal:
Por causa da profundidade da Sagrada Escritura, nem todos a entendem num único e mesmo sentido, mas um interpreta as suas palavras de um modo, outro de outro; de sorte que parece possível extrair dela tantas interpretações quantos são os intérpretes.
— São Vicente de Lérins, Commonitório, II, 5
E ele lista os nomes: Novaciano. Sabélio. Donato. Ário. Fotino. Apolinário. Pelágio. Nestório. Todos leram a Bíblia. Todos a citaram de cor. Todos erraram. Vicente não está desmerecendo a Escritura — está constatando que um texto sem intérprete autorizado produz tantas religiões quantos forem os leitores. Dezesseis séculos depois, é difícil dizer que ele errou no diagnóstico.
Daí o critério que o tornou célebre — a régua de três medidas que vale até hoje:
É preciso ter o máximo cuidado em manter aquilo que foi crido em toda parte, sempre e por todos.
— São Vicente de Lérins, Commonitório, II, 6
Universalidade. Antiguidade. Consenso. Diante de qualquer novidade religiosa — e o século XXI produz uma por semana —, perguntem: isso é crido em toda parte? Foi crido desde o começo? É crido pelo conjunto dos fiéis e pastores? Se falha nos três — é moda.
Mas Vicente não é um conservador do congelamento. E é aqui que ele fica genial. Ele pergunta: então não há progresso nenhum na religião de Cristo? E responde: há. Deve haver. E muito. Mas de um tipo bem determinado:
É preciso, pois, que cresça e progrida muito e vigorosamente a inteligência, a ciência e a sabedoria, tanto de cada um como de todos, tanto de um só homem como de toda a Igreja, ao longo das idades e dos séculos; mas apenas no seu próprio gênero, isto é, no mesmo dogma, no mesmo sentido e no mesmo significado.
— São Vicente de Lérins, Commonitório, 23, 54
E ilustra com a imagem que ficou para sempre: o crescimento da religião na alma é como o crescimento do corpo — que ao longo dos anos se desenvolve e atinge a estatura plena, mas continua sendo o mesmo. Os membros de um bebê são pequenos; os de um homem feito são grandes. E, no entanto, são os mesmos membros: o adulto tem exatamente as mesmas articulações que tinha quando criança (cap. 23). Nada aparece na idade adulta que já não estivesse no menino, em germe.
Essa é a chave de tudo. Quando o Concílio de Niceia definiu, em 325, que o Filho é consubstancial ao Pai, não inventou uma doutrina: colocou uma palavra precisa sobre a fé que os cristãos já viviam ao adorar Jesus como Deus, desde o primeiro dia. O Catecismo diz o mesmo em linguagem moderna: “A inteligência das realidades e das palavras do depósito da fé pode crescer na vida da Igreja” (CIC 94) — pela contemplação e pelo estudo dos fiéis, pela experiência espiritual, pela pregação dos bispos. O carvalho não é uma traição da bolota.
“A Igreja inventou isso. Só a Bíblia basta.”
Agora a objeção que vocês vão ouvir. No trabalho, num grupo de família, talvez dentro da própria casa. Ela merece resposta calma e completa — porque quem a faz costuma ser sincero.
Primeiro: a doutrina da “só a Bíblia” não está na Bíblia. Este é o ponto lógico decisivo, e quase ninguém o enfrenta. Se a única regra de fé fosse a Escritura, a própria Escritura teria de dizer isso. E não diz. Em lugar nenhum. Ela diz que toda Escritura é inspirada e útil (2Tm 3,16) — e a Igreja crê nisso inteiramente. Mas útil não significa exclusiva. Em compensação, São Paulo manda o contrário do que a objeção supõe: “Irmãos, permanecei firmes e conservai as tradições que aprendestes, seja por palavra, seja por carta nossa” (2Ts 2,15). Palavra e carta. E ele ordena a Timóteo que transmita a outros o que ouviu dele, para que estes ensinem ainda outros (2Tm 2,2). Isso é a definição exata de sucessão apostólica.
Segundo: o argumento se destrói no cânon. Já vimos: a lista dos livros não está nos livros. Quem diz “só a Bíblia” está usando, sem perceber, uma decisão da Igreja do século IV — para rejeitar a autoridade da Igreja.
Terceiro: o resultado prático está à vista. Vicente de Lérins previu tantas interpretações quantos intérpretes. Hoje contam-se dezenas de milhares de denominações cristãs separadas — todas com a mesma Bíblia na mão, discordando sobre batismo, Eucaristia, salvação, moral sexual, ministério. Se a Escritura sozinha bastasse para gerar unidade, quinhentos anos teriam sido suficientes para provar.
Quarto — e este é o argumento mais afiado da patrística. Por volta do ano 200, Tertuliano encarou o mesmo problema em A Prescrição contra os Hereges. Ele percebeu que discutir versículo por versículo com quem rejeita a autoridade da Igreja é perda de tempo — cada lado sempre encontra um texto para si. E propôs mudar a pergunta: antes de discutir o que a Escritura diz, é preciso perguntar de quem ela é. Como um advogado, ele levanta a exceção preliminar de posse. Escutem o tom:
Quem sois vós? Quando e de onde viestes? Já que não sois meus, o que fazeis no que é meu? Esta é a minha propriedade, possuo-a desde há muito, possuí-a antes de vós, tenho os títulos seguros dos proprietários originais. Eu sou o herdeiro dos apóstolos.
— Tertuliano, A Prescrição contra os Hereges, cap. 37
E ele dá o teste objetivo para saber quem é herdeiro: que apresentem os registros originais das suas igrejas; que desenrolem a lista dos seus bispos, numa sucessão contínua desde o começo, cujo primeiro nome tenha por consagrante um apóstolo ou um homem apostólico (cap. 32). Façam o teste hoje. A Igreja Católica pode apresentar a lista dos bispos de Roma, de Pedro até Leão XIV, sem interrupção. Qualquer comunidade fundada no século XVI, XIX ou XXI — não pode. E a honestidade exige a pergunta: de onde vem, então, a autoridade dela para dizer o que a Bíblia significa?
Irineu já tinha aplicado o mesmo teste — e apontava uma Igreja em particular como referência de unidade:
Com esta Igreja, por causa da sua origem mais excelente, é necessário que concorde toda a Igreja.
— Santo Irineu, Adversus haereses, III, 3, 2
Ele estava falando de Roma. E estava escrevendo por volta de 180 — não no século XI, não em Trento, não no Vaticano I. Agora somem comigo: Clemente escrevendo de Roma a Corinto em 96. Irineu apontando para Roma em 180. Tertuliano exigindo listas episcopais em 200. Eusébio catalogando sucessões em 320. Vicente formulando o critério em 434. Isso não é uma invenção medieval. É o cristianismo desde que ele existe.
“E os papas corruptos? Então a Igreja nunca errou em nada?”
Essa é a segunda objeção. E é justa. A resposta exige uma distinção que a maioria das pessoas nunca ouviu — e que liberta muita gente de uma indignação mal endereçada.
A Igreja nunca prometeu que os seus ministros seriam santos. A história é implacável: houve papas indignos, bispos simoníacos, padres criminosos, católicos que fizeram coisas indefensáveis em nome de Deus. Nada disso se atenua — e a Igreja pediu perdão publicamente por muita coisa. Mas o que foi prometido é outra coisa. Muito mais estreita. E muito mais firme: que as portas do inferno não prevaleceriam (Mt 16,18), e que o Espírito conduziria a Igreja à verdade plena (Jo 16,13). Isto é: que a Igreja, como um todo, não ensinaria erro em matéria de fé e moral quando ensina definitivamente. Não é uma promessa de virtude pessoal. É uma promessa de preservação da doutrina.
E reparem no detalhe histórico que confirma isso: nenhum daqueles papas escandalosos usou o cargo para mudar a fé. Fizeram péssimas escolhas políticas, morais, financeiras — e o depósito atravessou intacto. Isso é quase um argumento a favor. Uma instituição meramente humana, com uma administração daquelas, teria naufragado doutrinalmente em dois séculos.
E a infalibilidade tem limites bem definidos, que quase ninguém conhece. Ela não significa que o Papa acerta em tudo o que diz. Não cobre as opiniões políticas dele, os palpites científicos, o governo. Cobre o ensino definitivo em matéria de fé e moral, quando ele proclama como pastor supremo, ou quando o colégio dos bispos ensina unido a ele (cf. CIC 890-891). É um carisma raro e cuidadosamente circunscrito. E ele existe para você: para que a fé que chega a esta sala hoje seja a mesma que Policarpo ouviu de João.
Para viver
- Faça a sua própria cadeia. Escreva num papel: Jesus → João → Policarpo → Irineu → … → o padre da sua paróquia → você. Guarde o papel na Bíblia. Você não entrou numa opinião: entrou numa linhagem.
- Leia At 8,26-40 (Filipe e o etíope) e 2Ts 2,15. São dois textos curtos que respondem sozinhos à objeção de que a Escritura basta sem a Igreja.
- Escolha uma coisa que você acha que “a Igreja inventou” — a confissão com o padre, a Eucaristia, Maria, o purgatório — e traga a pergunta por escrito ao próximo encontro. Vamos responder com fontes e datas, sem rodeios.
- Use o critério de Vicente de Lérins esta semana: diante de qualquer conteúdo religioso que aparecer no seu celular, pergunte se aquilo é crido em toda parte, desde sempre, por todos. Descarte o que falhar.
- Reze pelo Papa e pelo seu bispo, com o nome deles, todos os dias. Eles carregam um peso que você não gostaria de carregar.
Para rezar
Terminamos com o ato de fé que a Igreja põe na boca dos seus filhos há séculos — não como fórmula automática, mas como decisão consciente de confiar em quem nos entregou o que temos:
Meu Deus, eu creio firmemente em tudo o que credes e ensinais, santa Igreja de Deus, porque fostes vós, Senhor, que o revelastes, e vós não podeis enganar-vos nem enganar-nos.
Senhor Jesus, obrigado pelos que guardaram esta fé antes de mim: por João, que se recostou sobre o teu peito; por Policarpo, que morreu sem negar o teu nome; por Clemente, que escreveu de Roma para pacificar Corinto; por Irineu, que se lembrava do lugar onde o seu velho mestre se sentava; por Tertuliano, por Eusébio, por Vicente, e por todos os anônimos que ensinaram os filhos e não deixaram a corrente romper. Dá-me a humildade de receber em vez de inventar, e a coragem de transmitir sem diluir. Que a fé não pare em mim. Amém.
Nossa Senhora, que guardavas todas estas coisas, meditando-as no teu coração (cf. Lc 2,19), guarda em nós o que recebemos. Amém.