Commonitório
O critério clássico da fé católica — "o que se creu em toda parte, sempre e por todos" — e a regra do verdadeiro desenvolvimento do dogma.
Vicente era monge na abadia da ilha de Lérins, diante da costa da Provença, e escreveu em 434 — três anos depois do Concílio de Éfeso — sob o pseudônimo Peregrinus, “o peregrino”. A pergunta que o move é prática e continua atual: como um cristão comum, diante de mestres eloquentes que se dizem católicos e ensinam novidades, pode saber o que é a fé verdadeira? O título significa “lembrete”: ele diz ter escrito para não esquecer, e para ajudar quem não tem tempo nem meios de ler bibliotecas inteiras.
A resposta tem dois passos. Primeiro, a Sagrada Escritura, regra suprema e suficiente. Mas como todos os hereges também citam a Escritura — e Vicente lembra que o próprio diabo citou os salmos ao tentar Cristo —, é preciso lê-la segundo a interpretação da Igreja. Daí o critério tríplice que ficou conhecido como “cânon lerinense”:
“Na própria Igreja católica, deve-se cuidar ao máximo de que sustentemos aquilo que foi crido em toda parte, sempre e por todos.” (cap. 2)
Vicente explica então como aplicá-lo quando um dos três falha: se surge um erro local, apega-se à Igreja universal; se o erro contamina quase toda a Igreja de um tempo — como sucedeu com o arianismo —, apega-se à antiguidade; e se nem isso basta, ao consenso dos concílios e dos Padres.
O capítulo 23, citado pelo Concílio Vaticano I e retomado pelo Vaticano II, é a página mais fecunda: o dogma não é um bloco de gelo, cresce como cresce um corpo humano, que na idade adulta tem os mesmos membros que tinha em criança, sem nenhum acrescentado.
“Cresça, pois, e progrida muito e vigorosamente a inteligência, a ciência e a sabedoria… mas dentro do próprio gênero, isto é, no mesmo dogma, no mesmo sentido e na mesma sentença.” (cap. 23)
Na catequese, é a chave da aula 4 (Tradição e Magistério): dá aos alunos um critério concreto para distinguir o desenvolvimento legítimo da doutrina de sua corrupção.
O link abre o texto já traduzido automaticamente para o português (original em inglês, New Advent).