Dez Mandamentos III — Honrar pai e mãe (4º)
Família, autoridade e sociedade: o mandamento que abre a segunda tábua.
Porto de Cartago. Ano 383.
Um professor de retórica de vinte e oito anos quer ir embora para Roma, onde há alunos melhores e carreira maior. A mãe dele, viúva, não quer. Ela o segue até o cais e agarra-se a ele: ou ele fica, ou ela embarca junto.
Então o filho faz o que fazem os filhos que já decidiram: mente.
Diz que só está esperando um amigo que vai zarpar. Que amanhã conversam melhor. Convence a mãe a passar a noite numa capela ali perto, dedicada a São Cipriano, para rezar. E, enquanto ela reza por ele — ele levanta âncora.
Anos depois, já bispo, ele escreveria essa cena com uma vergonha que ainda dói na página. E com uma descoberta. Escutem:
Vós, ouvindo secretamente o que ela desejava no fundo, não lhe concedestes o que então pedia, para fazerdes de mim aquilo que ela sempre vos pedia.
— Santo Agostinho, Confissões, V, 8, 15
Guardem essa frase. Mônica pedia que o filho não fosse embora. Deus deixou o navio partir — e foi em Roma, e depois em Milão, que Agostinho encontrou Ambrósio, e por Ambrósio encontrou Cristo. A mãe pediu a coisa pequena; Deus lhe deu a grande. Foram quase trinta anos de oração e de choro. E, no meio deles, um bispo cansado de ser importunado por aquela mulher — que queria que ele fosse discutir com o filho herege — deu-lhe a resposta que a Igreja nunca mais esqueceu:
É impossível que pereça o filho de tantas lágrimas.
— Palavra de um bispo a Mônica, em Santo Agostinho, Confissões, III, 12, 21
Esta aula é sobre o quarto mandamento — “honra teu pai e tua mãe”. E ela começa por essa cena por um motivo: família de verdade se parece muito mais com isso do que com foto de propaganda de margarina. Gente que mente. Gente que reza. Gente que espera anos.
Se a sua família fosse perfeita, este mandamento seria fácil e desnecessário. Ele existe porque não é.
O mandamento que abre a segunda tábua
O Decálogo se divide em duas tábuas: as três primeiras palavras ordenam o amor a Deus, as sete seguintes o amor ao próximo. Agora reparem no lugar onde a segunda tábua começa. Não em “não matarás”. Não em “amarás a humanidade”. Em “honra teu pai e tua mãe” (Ex 20,12). O primeiro próximo não é o próximo abstrato: é aquele que estava lá quando você chegou ao mundo. Aquele que você não escolheu — e que não pode devolver.
O Catecismo é explícito sobre por que o mandamento vem nessa posição: Deus quis que, depois dele, honrássemos nossos pais, a quem devemos a vida e que nos transmitiram o conhecimento de Deus (CIC 2197). E, imediatamente, tira dali uma consequência social enorme: a família é a célula original da vida social, a sociedade natural em que o homem e a mulher são chamados ao dom de si no amor; a autoridade, a estabilidade e a vida de relações no seio da família constituem os fundamentos da liberdade, da segurança e da fraternidade na sociedade (CIC 2207). Traduzindo: não existe país decente feito de famílias destruídas. O que se aprende em casa — ou não se aprende — é o que se pratica depois no trabalho, no trânsito, na política.
Notem também que este é o primeiro mandamento com uma promessa anexa — coisa que São Paulo faz questão de sublinhar: “Honra teu pai e tua mãe — este é o primeiro mandamento acompanhado de uma promessa —, para que sejas feliz e tenhas longa vida sobre a terra” (Ef 6,2-3). Não é superstição. É constatação. Povos e pessoas que desprezam os pais vivem menos e pior, porque quebram a corrente pela qual a vida e a sabedoria se transmitem.
E o mandamento não para nos pais biológicos. O Catecismo estende explicitamente a honra devida aos pais aos irmãos, aos avós e antepassados, aos mestres, aos chefes, aos superiores, aos governantes — a todos os que receberam de Deus alguma autoridade (CIC 2199). Não porque a autoridade seja sagrada em si mesma, mas porque toda autoridade legítima é, de algum modo, uma paternidade emprestada. Por isso, no fim desta aula, vamos ter de falar de imposto, de voto e de desobediência.
A igreja doméstica
Antioquia, fim do século IV. Um pregador de voz fina e palavra devastadora — o povo o apelidaria de Crisóstomo, “boca de ouro” — comenta diante de uma multidão a Carta aos Efésios. Ele acaba de expor a passagem mais mal citada da Escritura, aquela sobre esposas e maridos (Ef 5,22-33). E faz isso de um jeito que ninguém esperava: gasta três linhas com a submissão da esposa — e páginas inteiras exigindo do marido um amor que chegue até a cruz, “como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). E então diz a frase que atravessou dezesseis séculos:
Se ordenarmos assim as nossas próprias casas, seremos também capazes de governar a Igreja. Pois de fato a casa é uma pequena Igreja.
— São João Crisóstomo, Homilias sobre a Carta aos Efésios, hom. 20
Uma pequena Igreja. Não é uma metáfora simpática. É uma definição. O Catecismo a recolhe e a repete — a família cristã é uma comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai e do Filho no Espírito Santo, e “com razão pode ser chamada igreja doméstica” (cf. CIC 2204-2205). É nela que se aprende a rezar, a perdoar, a servir, a esperar. É nela que as palavras “pai”, “amor”, “perdão” ganham o significado com que você, adulto, vai ouvir o Evangelho pelo resto da vida. Quem teve um pai presente entende “Pai nosso” com o corpo. Quem não teve vai precisar de Deus para curar a palavra antes de rezá-la.
E Crisóstomo não fica no princípio: desce à prática. Ele ensina o marido jovem a falar com a esposa — e o texto é tão bonito que o próprio Catecismo o cita. Maridos, escutem:
Tomei-te nos meus braços, amo-te e prefiro-te à minha própria vida. Porque a vida presente é nada, e o meu sonho mais ardente é passá-la contigo de tal modo que tenhamos a certeza de não sermos separados na vida que nos está reservada… Ponho o teu amor acima de tudo, e nada me seria mais penoso do que não ter os mesmos pensamentos que tu.
— São João Crisóstomo, Homilias sobre a Carta aos Efésios, hom. 20, 8 (citado em CIC 2365)
Escutem de novo o miolo: “de tal modo que tenhamos a certeza de não sermos separados na vida que nos está reservada”. O objetivo do casamento, para Crisóstomo, é o céu — dos dois. O marido não é o dono da casa: é o responsável por levar a mulher e os filhos a Deus, e por eles vai responder. Isso é infinitamente mais exigente do que qualquer chefia. Se a sua casa é uma pequena Igreja, então o pai e a mãe têm nela um ministério. E ninguém vai perguntar, no juízo, se você pagou a faculdade. Vão perguntar se você levou os seus a Cristo.
Pergunta concreta, então, para levar para casa: na sua casa se reza junto? Não “cada um reza no seu quarto”. Junto. Em voz alta. Antes da refeição, à noite, com os filhos ouvindo o pai errar as palavras e continuar. Uma família que nunca reza junta pode até ser católica no papel. Igreja doméstica ela não é.
Os deveres dos filhos, em cada idade da vida
O Catecismo trata os deveres dos filhos com um realismo que surpreende quem espera moralismo. Ele diz que a paternidade divina é a fonte da paternidade humana, e que daí vem o respeito devido aos pais. Esse respeito, na criança, chama-se obediência, enquanto ela vive sob o teto dos pais, em tudo o que for para seu bem ou o da família (CIC 2216-2217). E o respeito dos filhos adultos toma outra forma: a obediência cessa com a emancipação — mas a honra nunca cessa (CIC 2217).
E é aqui que este mandamento deixa de ser assunto de catequese infantil e vira assunto de vocês. Escutem o que o Catecismo diz sobre os filhos adultos: eles devem prestar aos pais idosos o apoio moral e material de que necessitarem na velhice, na doença, na solidão ou na indigência (CIC 2218). Não é sugestão. É mandamento. E a Escritura já o dizia com uma dureza que arranca a pele:
“Meu filho, ampara teu pai na velhice e não lhe causes tristeza durante a sua vida. Se ele perder o entendimento, sê indulgente com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da idade… A caridade para com o pai não será esquecida” (Eclo 3,12-15).
“Se ele perder o entendimento.” A Escritura previu a demência antes de a medicina lhe dar nome.
Isto tem tradução exata na semana de vocês. A ligação que você não faz porque “não dá tempo”. A visita que fica sempre para o mês que vem. A impaciência com a mesma pergunta repetida pela quarta vez. A decisão sobre a casa de repouso tomada por conveniência, e não pelo bem do velho. O irmão que carrega tudo sozinho enquanto os outros opinam pelo telefone. Honrar pai e mãe, para um adulto de quarenta anos, quase nunca significa obedecer. Significa cuidar. E cuidar custa dinheiro, agenda e paciência.
E há o mais discreto de todos os deveres: a gratidão. O Catecismo lembra que o quarto mandamento recorda aos filhos, mesmo já crescidos, os seus deveres para com os pais — e a gratidão é um deles (CIC 2215). Alguns de vocês nunca disseram “obrigado” a um pai ou a uma mãe por nada específico. Façam isso esta semana. Antes que só reste dizê-lo diante de uma lápide.
Por fim, há o dever de rezar por eles — vivos ou mortos. Mônica rezou trinta anos pelo filho; nada impede que um filho reze trinta anos pelo pai. E não esqueçam o que o Evangelho mostra: o próprio Jesus “descia com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso” (Lc 2,51). Trinta anos de vida escondida, obedecendo a um carpinteiro e a uma jovem de aldeia. O Filho de Deus cumpriu o quarto mandamento antes de o explicar.
Quando o pai não foi pai
Agora precisamos falar de uma coisa com verdade. Porque nesta sala — eu sei — há gente para quem “honra teu pai e tua mãe” soa como uma piada cruel. Pais que bateram. Que abandonaram. Que humilharam. Que beberam a infância inteira dos filhos. Que abusaram.
Se é o seu caso, escute com atenção, porque a Igreja não vai lhe pedir o que você imagina.
Honrar não é fingir que nada aconteceu. Honrar não é chamar de bom o que foi mau, nem dizer que a violência era educação, nem forçá-lo a conviver com quem continua a machucar. A verdade é parte da caridade, e a Igreja jamais mandou ninguém mentir sobre a própria história. Aliás, o Catecismo é direto ao dizer que a autoridade dos pais existe para o bem dos filhos, e que os pais devem evitar tudo o que possa provocar-lhes ressentimento e desânimo (cf. CIC 2223, 2228; Ef 6,4 — “pais, não irriteis os vossos filhos”). Um pai que fere não está exercendo autoridade. Está traindo-a.
Então o que resta do mandamento? Três coisas. Duras — e possíveis. Primeira: não devolver o mal. “Não vos vingueis… vencei o mal com o bem” (Rm 12,19.21). Segunda: perdoar — que não é sentir, é decidir; não é esquecer, é renunciar ao direito de cobrar; e pode levar anos, com ajuda, com confissão, às vezes com terapia. Terceira: rezar por eles — o que é o mínimo que se pode fazer por alguém e, muitas vezes, o começo do resto.
Agostinho é testemunha de que dá para amar sem idealizar. Ele conta nas Confissões que o pai dele, Patrício, era violento e infiel, e que Mônica suportou os desvarios daquele casamento sem nunca ter com ele uma briga por causa disso — e conta também que, no fim, ela o ganhou para Cristo (cf. Confissões IX, 9). Agostinho não pinta o pai de santo. Nomeia o que foi. E, mesmo assim, honra-o: reza por ele e pede que rezem por ele. É esse o modelo. Verdade inteira — e nenhuma vingança.
E o limite, para não haver dúvida: honrar não obriga a obedecer ao pecado, nem a permanecer em situação de abuso, nem a expor os próprios filhos a quem lhes fará mal. Proteger é também um dever. Distância pode ser um ato de caridade — desde que seja distância sem ódio.
Os pais são os primeiros catequistas
Agora vamos inverter o mandamento e falar com os pais desta sala. O Catecismo é de uma clareza que não deixa saída: os pais têm a responsabilidade primeira da educação dos filhos, e o lar é a primeira escola da vida cristã; é nele que os filhos aprendem a perseverança e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e repetido, e sobretudo o culto divino pela oração e pela oferta da própria vida (cf. CIC 2223). E acrescenta: a educação na fé pelos pais deve começar desde a primeira infância, e a catequese familiar precede, acompanha e enriquece as outras formas de ensino da fé (CIC 2226).
Precede. Acompanha. Enriquece. Não substitui, não terceiriza. Muita gente traz o filho à catequese com a mesma lógica com que o matricula no curso de inglês: eu pago, alguém ensina, o resultado sai.
Não sai. Uma hora por semana não vence cento e sessenta e sete horas de casa. Se em casa não se reza, não se vai à Missa, não se perdoa e não se fala de Deus, a catequese vira uma matéria escolar — que o filho vai esquecer como esqueceu a tabela periódica.
Crisóstomo já enfrentava exatamente essa preguiça no século IV. E atacou de frente:
Como não é absurdo mandar os filhos aprenderem ofícios, e à escola, e fazer tudo o que se pode por essas coisas, e não educá-los na correção e na admoestação do Senhor?
— São João Crisóstomo, Homilias sobre a Carta aos Efésios, hom. 21
Ele não está condenando a escola nem o ofício. Está denunciando a desproporção. Todo pai que eu conheço perde noites de sono por causa de nota de matemática. Quantos perdem uma noite de sono por causa de um filho que não reza? Investimos anos e fortunas na formação profissional de uma criança que vai viver oitenta anos e depois vive para sempre — e quase nada no que dura mais. E Crisóstomo vai ao ponto:
Não te esforces por fazer dele um orador, mas educa-o para ser um filósofo. Faltando aquilo, não haverá dano algum; faltando isto, toda a retórica do mundo não terá proveito.
— São João Crisóstomo, Homilias sobre a Carta aos Efésios, hom. 21
Troquem “orador” por “aprovado no vestibular”, e “filósofo” por “homem de caráter e de fé” — e a homilia é de hoje. Ele acrescenta ainda que nunca se deve considerar supérfluo que a criança seja ouvinte assídua das divinas Escrituras. Comecem por aí: um Evangelho lido em voz alta em casa, três minutos, no domingo à noite.
Uma última nota — e é uma correção necessária ao autoritarismo religioso: os pais educam, mas não possuem. O Catecismo lembra que devem respeitar e favorecer a vocação dos filhos, inclusive a vocação à vida consagrada, e recorda a palavra dura do Senhor: “quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10,37; cf. CIC 2232-2233). Nenhum laço de sangue está acima de Cristo. Nem o dos pais sobre os filhos, nem o dos filhos sobre os pais.
Clemente de Alexandria: a santidade que se aprende no cotidiano
Como é que se educa de fato? Um século antes de Crisóstomo, em Alexandria — metrópole rica, culta e devassa —, um mestre cristão chamado Clemente escreveu para famílias comuns um livro chamado O Instrutor, ou Pedagogo. A tese está logo na abertura:
O Instrutor, sendo prático e não teórico, tem por finalidade melhorar a alma, e não instruí-la; formá-la para uma vida virtuosa, e não para uma vida intelectual.
— São Clemente de Alexandria, O Instrutor, I, 1
Cristo, para Clemente, não é um professor que dá aulas. É um pedagogo — e na Antiguidade o pedagogo era o escravo de confiança que acompanhava a criança o dia inteiro: na rua, à mesa, na escola, corrigindo-lhe os modos. Por isso o livro de Clemente trata de comida, bebida, roupa, riso, sono, banho, conversa e dinheiro. Porque é ali — e não numa aula — que uma criança aprende quem é Deus.
Isso tem uma consequência que todo pai precisa engolir: os filhos não aprendem a fé que você ensina. Aprendem a fé que você pratica. Eles registram se você reza quando ninguém está vendo. Como você fala do chefe no jantar. O que você faz quando o troco vem a mais. Se você pede perdão quando erra com eles. Um pai que pede desculpa ao filho ensina o sacramento da Confissão melhor do que qualquer apostila.
Clemente é concreto até no reparto de responsabilidades dentro de casa:
É justo, pois, que os homens confiem nas suas esposas e lhes entreguem o cuidado da casa, pois foram dadas para lhes serem auxiliares nisso.
— São Clemente de Alexandria, O Instrutor, III, 11
O arranjo doméstico do século III não é o nosso, e não é isso que importa aqui. O que importa é o princípio que atravessa o livro inteiro: a casa é assunto de dois, governada em confiança mútua, e nada nela é indiferente ao Evangelho — nem o orçamento, nem a mesa, nem o modo de falar. A santidade familiar não se decide numa grande decisão heroica. Decide-se em mil coisas pequenas, todo dia, sob o olhar do Pedagogo.
A autoridade civil e o dever de desobedecer
O quarto mandamento se estende para fora de casa — e é aí que ele fica politicamente incômodo. O Catecismo dedica uma seção inteira às autoridades da sociedade civil (CIC 2234-2246), e ela tem dois lados.
De um lado, os deveres do cidadão. O cristão deve considerar as autoridades legítimas como representantes de Deus, colaborar com elas para o bem comum, pagar impostos, exercer o direito de voto e defender o país (CIC 2238-2240). Ouviram bem: pagar imposto e votar são matéria do quarto mandamento. O Catecismo cita Paulo: “a cada um o que lhe é devido: a quem imposto, imposto; a quem tributo, tributo; a quem respeito, respeito” (Rm 13,7). E elogia o acolhimento do estrangeiro, lembrando que a submissão à autoridade e a corresponsabilidade pelo bem comum exigem, moralmente, o pagamento dos tributos.
Do outro lado, os deveres das autoridades — que não são donas de nada: devem exercer o poder como serviço, respeitar os direitos fundamentais da pessoa e distribuir com justiça (CIC 2235-2237). E, sobretudo, existe um limite absoluto. Escutem o parágrafo mais explosivo desta seção:
O cidadão é obrigado em consciência a não seguir as prescrições das autoridades civis quando forem contrárias às exigências da ordem moral, aos direitos fundamentais das pessoas ou aos ensinamentos do Evangelho (CIC 2242). E o Catecismo apoia isso na resposta de Pedro ao Sinédrio: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (At 5,29).
Isso se chama objeção de consciência. E não é rebeldia — é o núcleo da liberdade cristã. Foi por isso que os mártires morreram: não por conspirar contra Roma, mas por recusar um grão de incenso. E tem aplicação hoje, muito concreta. O médico ou o enfermeiro que se recusa a participar de um aborto. O funcionário que se recusa a fraudar um relatório. O servidor que não assina o que sabe ser mentira. O pai que retira o filho de uma atividade escolar que o corrompe. O Catecismo prevê até a resistência à opressão política, com condições rigorosas (CIC 2243) — o que mostra que a Igreja nunca ensinou obediência cega a governo nenhum.
Guardem a lógica: honramos a autoridade porque ela vem de Deus. E é justamente porque vem de Deus que ela não pode mandar contra Deus. No dia em que manda, deixa de ter autoridade naquilo — e obedecer seria, aí sim, quebrar o mandamento.
Famílias feridas: verdade e misericórdia
Seria desonesto terminar sem falar das famílias que não cabem no desenho. Nesta sala há separados, divorciados, pessoas em segunda união, mães que criam filhos sozinhas, avós que criam netos, casas destroçadas por vício, por violência, por dívida.
A Igreja não muda a doutrina para agradar — e não usa a doutrina como pedra. Ela ensina que o divórcio é uma ofensa grave à lei natural, porque pretende romper um contrato livremente consentido, e que a desordem que introduz na família e na sociedade é contagiosa (CIC 2384-2385). E, no mesmo fôlego, diz uma frase que precisa ser ouvida em voz alta, porque salva consciências que se torturam há anos: pode acontecer que um dos cônjuges seja a vítima inocente do divórcio pronunciado pela lei civil; nesse caso, ele não contraria o preceito moral (CIC 2386). Há uma diferença moral enorme entre quem abandonou e quem foi abandonado. Se você foi abandonado — ou teve de se separar para proteger a si e aos filhos —, você não é um cristão de segunda classe.
E aos que vivem numa segunda união: o Catecismo é claro em que a situação é objetivamente contrária à indissolubilidade do matrimônio, e por isso não se pode aceder à comunhão eucarística enquanto ela permanecer. E é igualmente claro em que essas pessoas não estão separadas da Igreja: devem ser convidadas a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar a Missa, a perseverar na oração, a praticar a caridade e a educar os filhos na fé (cf. CIC 1650-1651). Não estar em plena comunhão sacramental não é estar fora de casa. E há caminhos — o processo de nulidade, o acompanhamento pastoral, a mudança de vida — que muita gente desconhece por nunca ter perguntado a um padre. Perguntem. Não decidam sozinhos o próprio caso com base no que ouviram dizer.
E uma palavra final aos que carregam a casa sozinhos: uma família não deixa de ser igreja doméstica por lhe faltar um membro. Mônica era viúva.
Deu no que deu.
Duas objeções honestas
“Minha família me destruiu. Eu não devo nada a eles.”
No plano da justiça humana, talvez você tenha razão — e ninguém aqui vai dizer que a sua dor não é real. Mas o mandamento não fala em dívida. Fala em honra. E honra, no sentido bíblico, é reconhecer o peso real de alguém diante de Deus — inclusive o peso do mal que fez. Ninguém pede que você chame de bom o que foi mau. Pede-se que você não se torne aquilo que odeia. Reparem: o ressentimento não pune o ofensor. Envenena o ofendido — e passa adiante, para os seus filhos, o veneno que você recebeu. Alguém tem de interromper a corrente. Se você não interromper, ela continua. O perdão, aqui, não é um presente para eles. É a sua libertação. E é obra de anos, com a graça de Deus, com a Confissão, com ajuda humana quando for preciso.
“Educar na fé é impor uma crença. Vou deixar meu filho escolher quando crescer.”
Parece respeitoso. E é uma ilusão. Ninguém cria filho em ambiente neutro: se você não o educa, a escola, o algoritmo e os amigos vão educar — e nenhum deles pediu autorização. Você não deixa o filho “escolher” a língua que vai falar, a higiene, a honestidade ou a alimentação. Você o forma. E é justamente essa formação que o torna capaz de escolher depois. Além disso, quem realmente acredita que Cristo é a verdade e a vida não pode escondê-lo do próprio filho — seria como saber o caminho e deixar a criança se perder por delicadeza. O que se deve, sim, é educar sem coerção da consciência: propondo, explicando, testemunhando. Porque a fé imposta à força não é fé. Mostrar a porta é dever. Empurrar pela porta é impossível.
Óstia: o fim de trinta anos de lágrimas
Voltem comigo à mulher do porto de Cartago.
Ano 387, quatro anos depois. Agostinho está batizado. Mãe e filho, a caminho de casa, param na cidade portuária de Óstia e conversam a sós, debruçados numa janela sobre um jardim. Falam da vida eterna — e a conversa vai subindo, degrau por degrau, até tocarem por um instante, juntos, a Sabedoria que buscavam (cf. Confissões IX, 10). É uma das páginas mais altas já escritas em qualquer língua. E o que importa aqui é quem estava na janela: uma mãe e um filho, os dois convertidos, o velho pedido finalmente atendido.
Poucos dias depois, Mônica adoece. Aos filhos preocupados com o traslado do corpo para a África, ao lado do marido, ela responde:
Sepultai este corpo em qualquer parte; não vos inquieteis com ele. Uma só coisa vos peço: lembrai-vos de mim junto ao altar do Senhor, onde quer que estiverdes.
— Santa Mônica, em Santo Agostinho, Confissões, IX, 11, 27
Morreu aos cinquenta e seis anos, longe de casa. E Agostinho chorou.
Fiquem com o pedido dela, porque ele é o resumo desta aula. O que uma mãe cristã pede aos filhos não é um túmulo bonito nem uma homenagem no aniversário. É ser lembrada junto ao altar. Missa pelos pais vivos. Missa pelos pais mortos. É a forma mais alta de honrar pai e mãe que existe — porque alcança o único lugar onde ainda se pode fazer alguma coisa por eles.
E se hoje você é o pai ou a mãe, não a filha ou o filho: olhe para Mônica e tome coragem. Ela rezou trinta anos por um filho que fugia, mentia, aderia a seitas e vivia com uma concubina. Não desistiu. Não moralizou. Não expulsou. Rezou, chorou, seguiu-o pelo Mediterrâneo. E o filho de tantas lágrimas não pereceu: tornou-se um dos maiores santos da história da Igreja.
Se você tem um filho afastado — o prazo de Deus não é o seu. Continue.
Para viver
- Telefone ou visite. Esta semana, procure seu pai, sua mãe, ou quem fez esse papel na sua vida — sem motivo prático, só para estar. Se já morreram, mande rezar uma Missa por eles.
- Diga obrigado por uma coisa específica. Não “obrigado por tudo”: nomeie um sacrifício concreto que você só entendeu depois de adulto, e agradeça por ele, olhando nos olhos ou por escrito.
- Comece a oração em família. Três minutos por dia, em voz alta: um Pai-Nosso e uma intenção de cada um. Se você mora sozinho, reze pelos vivos e falecidos da sua família nesse horário.
- Um passo no perdão pendente. Se há um pai, uma mãe, um irmão de quem você não fala há anos: reze por essa pessoa pelo nome, todos os dias desta semana, e leve a questão à Confissão. Se for prudente e possível, dê o primeiro passo concreto.
- Assuma a sua parte de catequista. Pais: leiam em voz alta com os filhos, no domingo, o Evangelho da Missa — três minutos — e perguntem o que eles entenderam. Quem não tem filhos: faça isso com um afilhado, um sobrinho ou um neto.
Para rezar
Rezemos primeiro pelos nossos pais, vivos e falecidos, cada um dizendo o nome deles em silêncio:
Senhor Deus, Pai de todas as famílias do céu e da terra: nós vos damos graças pelos que nos deram a vida. Pelo bem que fizeram, sede vós a recompensa; pelo mal que fizeram, sede vós a cura; pelo que não souberam dar, sede vós a supressão. Aos que estão vivos, dai saúde, paz e tempo de conversão; aos que já partiram, dai o descanso eterno e a luz sem fim.
Senhor Jesus, que fostes submisso a Maria e a José e crescestes numa casa de gente simples: fazei da nossa casa uma pequena Igreja, onde se reze junto, se peça perdão depressa e se fale de vós sem vergonha. Aos pais, dai coragem de educar; aos filhos, dai gratidão e paciência; aos que cuidam de um idoso, dai ternura quando faltar a força; aos que carregam uma família ferida, dai esperança e companhia.
Santa Mônica, mulher teimosa na oração, que choraste trinta anos e não desististe: rogai por todos os que rezam por alguém que se afastou. E que ninguém desta sala se esqueça de nos lembrarmos uns dos outros junto ao altar do Senhor, onde quer que estivermos. Amém.
Pai-Nosso. Ave-Maria. Glória.