Dez Mandamentos II — O nome de Deus e o dia do Senhor (2º e 3º)
Não tomar o santo nome de Deus em vão; guardar domingos e festas.
Fevereiro do ano 304. Província romana da África — o norte da atual Tunísia.
Faz quase um ano que Diocleciano publicou o primeiro edito da perseguição mais violenta que a Igreja jamais sofreu: entregar as Escrituras para a fogueira, destruir os lugares de culto e — o ponto decisivo — proibir os cristãos de se reunirem. O bispo da pequena cidade de Abitina obedece e entrega os livros. Mas um presbítero chamado Saturnino continua celebrando às escondidas, na casa de um leigo chamado Emérito.
Num domingo de manhã, quarenta e nove pessoas — trinta e um homens e dezoito mulheres, entre elas adolescentes — são surpreendidas em plena Eucaristia. E levadas, acorrentadas, a Cartago, ao tribunal do procônsul.
Emérito, o dono da casa, é interrogado. Ele tem uma saída fácil: basta dizer que não sabia, que foi coagido, que aquilo não vai se repetir. E ele responde com três palavras que atravessaram dezessete séculos:
Sine dominico non possumus. — Sem o Dia do Senhor, não podemos.
— Emérito de Abitina, nas Atas proconsulares dos mártires de Abitina (ano 304)
Reparem no verbo. Ele não disse “não queremos”. Não disse “não devemos”. Disse não podemos. Não é questão de opinião religiosa — é questão de respiração. Dominicum, no latim deles, significa ao mesmo tempo o Dia do Senhor e a Ceia do Senhor: a Missa. Emérito estava dizendo: tirem-nos o domingo e vocês nos tiram a vida. Então tanto faz o que façam com os nossos corpos.
Todos foram torturados. Morreram na prisão, de fome e de ferimentos.
Guardem essa cena. Porque hoje ninguém prende ninguém por ir à Missa — e a pergunta que sobra é mais constrangedora: por que tanta gente batizada, livre, com o domingo inteiro pela frente, consegue perfeitamente bem viver sem o dominicum?
É disso que trata esta aula. Dois mandamentos que parecem pequenos — “não fale o nome de Deus à toa”, “vá à Missa aos domingos” — e que guardam as duas coisas mais íntimas entre Deus e você: o Nome dele e o tempo dele. Quem entrega o nome e o tempo já entregou tudo o mais.
“Eu sou aquele que sou”: por que um nome importa tanto
Deserto do Sinai. Uma sarça que arde sem se consumir. Moisés — foragido da justiça egípcia, pastor de ovelhas alheias — recebe uma missão impossível. E faz a pergunta mais razoável do mundo: “Quando eu disser aos filhos de Israel que o Deus dos vossos pais me enviou, e eles me perguntarem qual é o seu nome, que lhes responderei?”
E Deus faz algo que não devia. Responde.
“Eu sou aquele que sou… Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU enviou-me a vós” (Ex 3,13-14).
Para sentir o peso disso, lembrem o que “nome” significava naquela cultura — e ainda significa entre nós. O nome não é etiqueta: é a pessoa entregue. Um desconhecido que grita “ei, você!” na rua é um estranho. Um desconhecido que grita o seu nome — você se vira. Dar o nome é abrir uma porta. Por isso o Catecismo diz que, entre todas as palavras da Revelação, há uma singular: a revelação do próprio nome de Deus (CIC 2143). O Deus que criou o universo e não devia satisfação a ninguém decidiu dizer como se chama.
Para poder ser chamado.
O segundo mandamento é a guarda dessa porta: pertence à virtude da religião e regula de modo particular o uso da nossa palavra nas coisas santas (CIC 2142). Israel entendeu tão bem essa reverência que criou o costume de nem sequer pronunciar o Nome revelado, lendo em seu lugar Adonai, “Senhor” — não era exagero, era pedagogia do sagrado (CIC 2144). E o Novo Testamento transfere o Nome a Jesus: “Deus o exaltou e lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre” (Fl 2,9-10); “não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12). Por isso a Igreja começa tudo invocando o Nome, e o cristão traça sobre si o sinal da cruz (CIC 2166-2167).
Agora escutem a nossa própria língua. O nome de Deus é hoje a palavra mais gasta do português falado. “Ai, meu Deus.” “Pelo amor de Deus.” “Jesus!” — como interjeição de susto, de tédio, de deboche. Não é blasfêmia — já vamos chegar lá. Mas é desgaste. E o desgaste é perigoso porque é silencioso: palavra usada mil vezes por dia sem conteúdo acaba não significando nada. E no dia em que você precisar mesmo chamar por Deus, com a alma no fio, terá gasto a palavra.
Blasfêmia, juramento, perjúrio: as três feridas do Nome
O Catecismo é direto: o segundo mandamento proíbe todo uso inconveniente do nome de Deus, de Jesus Cristo, da Virgem Maria e dos santos (CIC 2146). Há três modos de feri-lo. E prestem atenção, porque muita gente sofre de escrúpulo em um deles — e é totalmente cega nos outros dois.
A blasfêmia consiste em proferir contra Deus — interior ou exteriormente — palavras de ódio, de censura, de desafio, ou abusar do seu nome; é, por si mesma, pecado grave (CIC 2148). E a proibição estende-se a algo que costuma escapar: usar o nome de Deus para encobrir crimes, escravizar povos, torturar ou matar. Invocar Deus para justificar o mal é a blasfêmia mais completa que existe.
Mas atenção a uma distinção que consola: reclamar com Deus não é blasfemar. Jó passa capítulos gritando com o Céu — e Deus, no fim, dá razão a Jó contra os amigos piedosos que falavam bonito (Jó 42,7). Os salmos são cheios de “até quando, Senhor?” (Sl 13,2). A blasfêmia é o desprezo, não a dor. Se você já gritou com Deus num velório, ou diante de um diagnóstico — não fique com medo. Você rezou.
O uso banal é a doença de massa: os palavrões e as expressões que fazem intervir o nome de Deus sem nenhuma intenção de blasfemar constituem falta de respeito para com o Senhor (CIC 2149). Não são pecado grave. São erosão. E ali mesmo se proíbe o uso mágico do nome divino, como fórmula ou amuleto.
O juramento e o perjúrio são a parte que o mundo moderno esqueceu por completo. Jurar é invocar Deus como testemunha da verdade do que se afirma — e só pode ser feito em verdade, com discernimento e justiça (CIC 2153-2154). Quem jura em falso transforma a Verdade em fiadora da mentira; comete perjúrio quem promete sob juramento sem intenção de cumprir (CIC 2152). Por isso Jesus radicaliza: “Não jureis de modo algum… seja o vosso falar: sim, sim; não, não” (Mt 5,34-37). Ele não condena o juramento no tribunal — a Igreja sempre o admitiu por causa grave. Ele denuncia um mundo em que o juramento se tornou necessário. Isto é: um mundo em que a palavra simples de um homem não vale nada sem garantia divina.
O cristão deveria ser aquele cuja palavra dispensa juramento. Agora traduzam isso para a semana de vocês. O prazo prometido ao cliente. O valor combinado com o pedreiro. O “amanhã eu levo você no parque” dito ao seu filho. Cada promessa não cumprida ensina ao mundo que a palavra de um cristão vale o mesmo que qualquer outra. E aí você não precisou blasfemar nenhuma vez — para deixar o Nome em ruínas.
O seu nome também é santo
Há uma reviravolta no segundo mandamento que quase ninguém vê. O Nome de Deus não ficou só no Sinai.
Ele foi pronunciado sobre você.
Lembram de Justino, o filósofo da praia? Por volta do ano 155, já ensinando em Roma, ele escreveu ao imperador Antonino Pio uma defesa pública dos cristãos — gente acusada de ateísmo, canibalismo e incesto. A estratégia dele foi contar, com todas as letras, o que os cristãos faziam de fato. E assim nos deixou o retrato mais antigo da nossa própria liturgia. Sobre o Batismo, escreve:
Depois, conduzimo-los a um lugar onde há água, e ali eles são regenerados do mesmo modo como nós fomos regenerados: recebem o banho na água em nome de Deus, Pai e Senhor do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo.
— São Justino Mártir, Primeira Apologia, 61
Justino explica em seguida que esse banho se chama “iluminação”. Ano 155 — e a fórmula é exatamente a que o padre pronuncia hoje sobre a cabeça de um bebê ou de um adulto no Sábado Santo. E reparem no que acontece nesse instante: o seu nome é dito junto com o Nome de Deus. “N., eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” A partir dali você não é mais dono exclusivo do próprio nome. Ele foi soldado ao de Deus.
É o que o Catecismo ensina em 2156-2159: dar um nome de santo não é folclore, mas dom de um modelo de caridade e de um intercessor concreto; Deus chama cada um pelo nome (Is 43,1 — “chamei-te pelo teu nome, tu és meu”); e o nome recebido é um nome de eternidade, pois no céu cada vencedor receberá “uma pedra branca, e nessa pedra um nome novo” (Ap 2,17). Primeira consequência prática: descubram o santo de vocês. Você tem um amigo no céu com o seu nome — e talvez nunca tenha lhe dirigido a palavra.
A segunda consequência é mais séria. É onde o segundo mandamento morde de verdade. Escutem Santo Inácio de Antioquia — o nosso velho acorrentado, a caminho das feras. No caminho, ele escreveu à comunidade de Magnésia:
Convém, portanto, não apenas ser chamado cristão, mas sê-lo de verdade.
— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Magnésios, 4
Pensem em quem escreve isso. Um homem a caminho da morte, num tempo em que carregar o nome de cristão custava a cabeça — e mesmo assim ele adverte que dá para carregar o nome sem carregar a coisa. Se era possível ali, imaginem aqui, onde o nome não custa nada.
Agora juntem as pontas. Você recebeu o Nome de Deus emprestado no Batismo. E “cristão” quer dizer “de Cristo”. Portanto a forma mais eficaz e mais grave de tomar o nome de Deus em vão não é com a boca. É com a biografia. É apresentar-se como católico e cobrar juros de agiota. É comungar no domingo e humilhar a funcionária na segunda. O mundo não lê o Catecismo — lê você. “O nome de Deus é blasfemado por vossa causa entre os pagãos”, escreveu Paulo (Rm 2,24).
O sábado: memorial da criação e memorial da libertação
Deus nos deu o Nome. Agora ele nos pede o tempo. Esse é o terceiro mandamento.
“Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo” (Ex 20,8). A Escritura dá duas razões, em dois lugares diferentes. Em Êxodo 20,11, a criação: em seis dias Deus fez o céu e a terra, e no sétimo descansou. Em Deuteronômio 5,15, a libertação: “Lembra-te de que foste escravo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te fez sair dali com mão forte; por isso ele te ordenou observar o dia de sábado” (CIC 2168-2170). Deus é dono do tempo porque o fez. E é dono do seu tempo porque o comprou.
E o Catecismo destaca uma frase que vale ouro: a ação de Deus é o modelo da ação humana — se Deus “descansou e tomou fôlego” no sétimo dia, também o homem deve descansar e deixar os outros tomarem fôlego, sobretudo os pobres (CIC 2172). Leiam o mandamento até o fim, porque quase ninguém lê inteiro: “não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que mora em tuas cidades” (Ex 20,10).
Na Antiguidade, isso é texto explosivo. No Egito ninguém descansava — porque escravo não descansa: escravo produz. O sábado é a legislação anti-faraó por excelência. Declara, uma vez por semana, que o ser humano não é uma unidade de produção — e obriga o patrão a admiti-lo na prática, dando folga ao empregado, ao estrangeiro e até ao boi.
E Jesus? Foi acusado de violar o sábado mais de uma vez — e sempre por curar (Lc 13,10-17; Mc 3,1-6). E deu a chave: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; por isso, o Filho do Homem é senhor até do sábado” (Mc 2,27-28). Ele não afrouxa o mandamento: revela quem é o dono dele. O sábado não é jaula ritual. É presente. E o dono do presente acabou de aparecer em pessoa (CIC 2173).
Do sábado ao domingo: o oitavo dia
Então por que os cristãos não guardam o sábado?
Resposta curta: porque aconteceu uma coisa numa madrugada de domingo. Não houve decreto. Não houve concílio. Não houve imperador. Houve um fato — e o fato reorganizou o calendário sozinho. Os quatro Evangelhos datam a Ressurreição do “primeiro dia da semana” (Mt 28,1; Jo 20,1). Jesus aparece nesse dia e volta a aparecer “oito dias depois”, para Tomé (Jo 20,19.26). Os cristãos de Trôade reúnem-se “no primeiro dia da semana, para partir o pão” (At 20,7). A coleta para os pobres é separada “no primeiro dia da semana” (1Cor 16,2). E João, em Patmos, tem a sua visão “no dia do Senhor” (Ap 1,10) — em grego kyriakē hēmera, nome próprio já consagrado, do qual vem o nosso domingo (do latim dies dominica).
Menos de oitenta anos depois da Ressurreição, Inácio de Antioquia já trata a passagem como coisa assentada. Escreve aos cristãos de Magnésia, muitos deles vindos do judaísmo:
Se aqueles que viviam na antiga ordem das coisas chegaram a uma esperança nova, não guardando mais o sábado, mas vivendo segundo o dia do Senhor — no qual também a nossa vida despontou de novo por ele e pela sua morte…
— Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Magnésios, 9
Essa frase é tão importante que o próprio Catecismo a cita ao explicar o domingo (CIC 2174). E ela derruba, sozinha, uma objeção muito repetida: a de que o domingo teria sido inventado por Constantino no século IV. Façam a conta comigo. Inácio morreu no anfiteatro por volta de 107. Constantino legislou em 321. Duzentos anos antes — o imperador apenas deu reconhecimento civil a um costume cristão já quase tricentenário. Inácio acrescenta, no capítulo seguinte, que é absurdo confessar Jesus Cristo e continuar judaizando (Aos Magnésios, 10). Cuidado com o mal-entendido: não há aí desprezo pelo povo judeu, a quem a Igreja deve as Escrituras, os profetas e a própria carne de Cristo. O que Inácio nega é voltar à sombra depois de chegado o corpo — como Paulo escreve aos colossenses: “ninguém vos julgue por causa de festas, luas novas ou sábados: tudo isso é sombra das coisas futuras, mas a realidade é Cristo” (Cl 2,16-17).
A Epístola de Barnabé, escrita entre o fim do século I e o início do II, explica a mudança com uma imagem que a Igreja nunca mais abandonou: a do oitavo dia. Barnabé lê a criação em seis dias como figura da história inteira e diz que Deus rejeita os sábados presentes porque prepara outra coisa: dar repouso a todas as coisas e fazer o princípio de um oitavo dia — isto é, o princípio de outro mundo. E conclui:
Por isso celebramos com alegria o oitavo dia, no qual também Jesus ressuscitou dos mortos.
— Epístola de Barnabé, 15
Parem um segundo sobre essa expressão, porque é uma pequena bomba. A semana tem sete dias. O oitavo não existe no calendário. E é exatamente esse o ponto. O sétimo fecha a criação velha; o oitavo rompe a roda e inaugura a criação nova — que não terá fim. Por isso o Catecismo chama o domingo de oitavo dia, figura do dia sem ocaso, e ensina que o domingo não abole o sábado: cumpre-o (CIC 2174-2176). Por isso, também, os batistérios antigos eram octogonais: quem descia àquela água estava entrando no oitavo dia. O terceiro mandamento não foi revogado; foi levado ao cumprimento. O que ele guarda — um dia por semana entregue a Deus, ao descanso e à misericórdia — permanece inteiro. Muda o dia, porque o dia é definido pelo acontecimento que o funda. E o acontecimento fundador da nova aliança é a Ressurreição do Senhor.
A mais antiga fotografia da Missa
Voltemos a Justino. Ele precisa provar ao imperador que os cristãos não são uma seita criminosa — e faz a coisa mais corajosa possível: descreve a reunião deles, passo a passo, para quem quiser ler. É a mais antiga descrição da Missa que existe fora do Novo Testamento. Escutem devagar, e vão conferindo com o domingo passado:
No dia chamado do sol, todos os que moram nas cidades ou nos campos se reúnem num mesmo lugar, e leem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo o permite. Depois, quando o leitor termina, aquele que preside toma a palavra, admoesta e exorta à imitação destas belas coisas. Em seguida levantamo-nos todos juntos e elevamos preces. Terminadas as preces, trazem-se pão, vinho e água, e aquele que preside eleva do mesmo modo preces e ações de graças, segundo a sua capacidade, e o povo aclama dizendo: Amém. Faz-se então a distribuição e a participação das coisas sobre as quais se rendeu graças, e aos ausentes é enviada uma porção pelos diáconos.
— São Justino Mártir, Primeira Apologia, 67
Conferiram? Item por item. Gente da cidade e do campo no mesmo lugar: a assembleia. Profetas e memórias dos apóstolos: a Liturgia da Palavra. O que preside explica e exorta: a homilia. Todos de pé, rezando: a oração dos fiéis. Pão e vinho trazidos: o ofertório. A ação de graças e o “Amém” do povo: a Oração Eucarística. Distribuição: a comunhão. Os diáconos levam aos ausentes: a comunhão que o ministro leva hoje ao hospital.
Isso tem mil oitocentos e setenta anos. Foi escrito antes de existir uma só basílica. Antes de o cânon do Novo Testamento estar fixado. Quando alguém disser a vocês que a Missa é criação medieval, mostrem esse parágrafo. E Justino diz por que é no domingo:
Fazemos todos a reunião comum no dia do sol, porque é o primeiro dia, aquele em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo; e no mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos.
— Primeira Apologia, 67
As duas razões do sábado — criação e libertação — reaparecem transfiguradas: primeiro dia da criação e dia da nova criação. O domingo não é um sábado deslocado por conveniência. É o dia em que as duas obras de Deus se encontram. E há ainda um terceiro elemento no mesmo capítulo:
Os que possuem e querem dão, cada um, o que lhe parece bem; o que se recolhe é entregue a quem preside, e ele socorre os órfãos e as viúvas, os que padecem por doença ou por outra causa, os presos, os estrangeiros de passagem — em uma palavra, cuida de todos os necessitados.
— Primeira Apologia, 67
Desde o princípio, a coleta dominical não é taxa de manutenção do prédio. É caridade organizada. Missa e serviço aos pobres nasceram grudados, no mesmo gesto e na mesma hora. Se o seu domingo tem Missa e não tem pobre, falta metade do domingo cristão.
E por que tudo isso é inegociável? Porque no centro daquela reunião não há um símbolo. Justino explica ao imperador, no capítulo anterior, algo que lhe custaria a vida:
Não recebemos estas coisas como pão comum e bebida comum; mas, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne pelo Verbo de Deus, teve carne e sangue pela nossa salvação, assim também nos foi ensinado que aquele alimento sobre o qual se rendeu graças pela oração da sua palavra é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus que se fez carne.
— São Justino Mártir, Primeira Apologia, 66
“Eu rezo em casa, não preciso ir à Missa”
Quem nunca ouviu essa frase? Ela é dita com sinceridade por muita gente boa — e merece resposta séria, em três partes.
Primeira: é verdade que Deus ouve você em casa. E você deveria rezar em casa muito mais do que reza. Mas a frase compara duas coisas diferentes. Na oração em casa, você fala com Deus. Na Missa, Cristo se oferece ao Pai e se dá a você em alimento. Uma é ato seu. A outra é ato dele. Como diz Justino: aquilo não é pão comum. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54). Nenhuma oração doméstica, por mais fervorosa, produz a Eucaristia na sua sala. Dizer “rezo em casa, logo não preciso da Missa” é como dizer “eu penso muito na minha esposa, logo não preciso vê-la”. Pensar é ótimo. Não é a mesma coisa.
Segunda: o cristianismo não é religião individual — e nunca foi. Ekklesia, a palavra grega que traduzimos por Igreja, significa “assembleia convocada”. E uma assembleia de um só é contradição em termos. A Carta aos Hebreus já repreendia os que iam se ausentando: “Não abandonemos as nossas assembleias” (Hb 10,25) — texto que o Catecismo cita ao falar do domingo (CIC 2178). Inácio pede aos magnésios que se reúnam todos como que num só templo de Deus, junto de um só altar, junto de um só Jesus Cristo (Aos Magnésios, 7). Não somos soma de devoções privadas. Somos um Corpo. E num corpo, um membro ausente não é neutro — é um buraco (CIC 2182).
Terceira, e a mais desconfortável: você reza mesmo em casa? Façam o teste com relógio, por uma semana. Se der quarenta minutos por dia — ótimo: você é gente de oração, e a Missa vai fazer esse fogo arder muito mais. Se não chegar a cinco, então “eu rezo em casa” não é alternativa à Missa. É o nome bonito de não rezar em lugar nenhum. Na maioria dos casos, a frase não é argumento teológico. É uma cortesia que fazemos à própria consciência para que ela pare de incomodar.
E há um último argumento, que não é de raciocínio — é de sangue. Os quarenta e nove de Abitina podiam ter rezado em casa. Era, aliás, a única coisa segura a fazer. Escolheram o contrário. E morreram por isso. Vocês acham mesmo que eles não tinham entendido o cristianismo tão bem quanto nós?
O preceito dominical: imposto ou encontro?
O Catecismo é claro: no domingo e nas demais festas de preceito, os fiéis têm obrigação de participar da Missa (CIC 2180), e quem deliberadamente falta comete pecado grave (CIC 2181). Isso precisa ser dito com todas as letras.
E, com a mesma clareza, o que o mesmo parágrafo diz em seguida: estão escusados os impedidos por razão séria — doença, cuidado de bebês e de enfermos — e os dispensados pelo próprio pastor. A Igreja não é uma tirania de catraca. Enfermeiro em plantão, mãe com recém-nascido febril, quem mora a cinquenta quilômetros da capela sem transporte: descansem em paz, ninguém está pecando. Mas “deu preguiça”, “estava viajando e nem procurei uma igreja” e “tinha churrasco na casa do meu cunhado” não são razões sérias. E todos nós sabemos disso.
Agora a pergunta de fundo: por que a Igreja transforma em obrigação uma coisa que deveria ser desejo?
Pensem na lei que obriga o pai a alimentar o filho. Ela não existe porque o Estado desconfia do amor paterno. Existe porque o amor paterno pode falhar num dia ruim — e a criança não pode. A lei não cria o dever: protege o mais fraco do dia em que o mais forte não estiver com vontade. O preceito dominical funciona assim. E o mais fraco, aqui, é você. Haverá domingos de fervor e domingos de nada; o preceito é o piso que não deixa você cair nesses meses. Quem só vai quando sente vontade acaba não sentindo vontade nunca — porque a vontade, na vida espiritual como no casamento, é filha da constância, não mãe dela.
E o Catecismo explica por que isso é vital: a Eucaristia dominical fundamenta e confirma toda a prática cristã (CIC 2181). Não é uma devoção entre outras. É a raiz. Tirem a raiz: a árvore ainda fica verde um ano — e depois seca, sem que ninguém entenda por quê. Ninguém perde a fé de repente. Perde-se a fé por interrupção de alimento.
No fundo, o preceito diz algo simples: você é esperado. Uma vez por semana, num lugar e numa hora determinados, alguém marcou um encontro com você e vai estar lá — com ou sem a sua presença. Não é a fatura de um imposto. É a hora marcada de uma visita.
Guardar o domingo num mundo que não para
Falta dizer sem meias palavras: o domingo tem vinte e quatro horas, e a Missa ocupa uma. As outras vinte e três também são do Senhor. E é aí que a maioria de nós quebra o terceiro mandamento sem perceber — mesmo tendo ido à Missa. O Catecismo desdobra o Dia do Senhor em três coisas concretas. Descanso: abster-se dos trabalhos e atividades que impeçam o culto devido a Deus, a alegria própria do dia, as obras de misericórdia e o necessário repouso do espírito e do corpo (CIC 2185). Família: consagrar tempo aos parentes e amigos, o que nos outros dias é difícil. Caridade e vida interior: visitar doentes e idosos, cultivar o silêncio e a meditação que fazem crescer a vida cristã (CIC 2186).
E sejamos realistas quanto ao trabalho, porque provavelmente há gente nesta sala que trabalha aos domingos — enfermeiros, policiais, motoristas, gente do comércio. O Catecismo prevê isso: há trabalhos exigidos pelas necessidades familiares ou por um serviço social de grande importância, mas quem os faz deve cuidar para que não se criem hábitos prejudiciais à religião, à vida familiar e à saúde (CIC 2185). E acrescenta um dever que costuma escapar aos que mandam: os cristãos devem esforçar-se para que a legislação civil reconheça o descanso dominical (CIC 2187-2188) — e quem tem poder de escala não deve exigir do próximo, por conveniência comercial, o domingo que quer para si.
Fica então a provocação que decide tudo: a sua semana se organiza em torno do domingo — ou o domingo em torno do que sobrou da semana? Se o domingo é só o dia em que se encaixa a faxina atrasada, o relatório que não coube na sexta e a rolagem infinita de tela, o mandamento já foi quebrado antes da decisão sobre a Missa. Num mundo de comércio ininterrupto, passar uma tarde sem produzir e sem comprar nada é ato de resistência. É declarar, com o corpo, que você não é o seu rendimento nem o seu consumo. É o Egito perdendo mais uma queda de braço.
Uma nota prática antes de terminar: além dos domingos, há no Brasil dias santos de preceito determinados pela Conferência dos Bispos. Perguntem na paróquia quais valem aqui e coloquem hoje no calendário do celular. Boa parte das faltas não vem de má vontade. Vem de desorganização.
Para viver
- Uma semana de vigilância sobre a fala. Não use o nome de Deus, de Jesus ou de Nossa Senhora como interjeição vazia. Cada vez que escapar, responda com três segundos de reparação: “Bendito seja o nome do Senhor.” Em sete dias você vai se assustar com o número.
- Chegue dez minutos antes na Missa e fique até a bênção final. Use esses minutos em silêncio, escolhendo uma intenção concreta para oferecer — um doente, um casamento em crise, uma conversão. Missa oferecida por alguém deixa de ser rotina.
- Descubra o seu santo do Batismo. Nome, data da festa, história — dez minutos de leitura bastam. Reze a ele todos os dias desta semana, pelo nome, como se fala com um amigo.
- Reconstrua um domingo inteiro. Escolha o próximo e planeje-o na quinta-feira: Missa, uma refeição sem pressa e sem celular na mesa, nenhum trabalho que possa esperar, e um ato concreto de misericórdia — uma visita a um doente, um telefonema a quem mora sozinho.
- Palavra dada, palavra cumprida. Escolha uma promessa pendente — de preferência feita a um filho ou a um subordinado — e cumpra-a antes do próximo encontro, sem desculpa e sem lembrar a ninguém que a cumpriu.
Para rezar
Rezemos juntos, em voz alta e devagar, o hino com que a Igreja abre a Missa dominical — o Glória —, que é, do princípio ao fim, o segundo mandamento cantado.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados. Senhor Deus, Rei dos céus, Deus Pai todo-poderoso: nós vos louvamos, nós vos bendizemos, nós vos adoramos, nós vos glorificamos, nós vos damos graças por vossa imensa glória…
E depois, cada um em silêncio:
Senhor Jesus Cristo, ressuscitado no primeiro dia da semana: santificado seja o vosso Nome nos meus lábios e na minha vida, para que ninguém, olhando para mim, tenha motivo de blasfemar de vós. Vós me chamastes pelo nome nas águas do Batismo e escrevestes esse nome no céu: guardai-o limpo. Dai-me o gosto do vosso Dia. Tirai de mim a pressa que rouba o domingo, a preguiça que rouba a Missa e a mentira de achar que posso viver de longe. Fazei-me tão vosso quanto foram Emérito e os seus companheiros, que preferiram morrer a passar um domingo sem vós. E que eu possa dizer com eles, com a vida antes que com a boca: sem o Dia do Senhor, eu não posso viver. Amém.